Entrevista

“A crise dos refugiados foi a tempestade perfeita”

O grande número de refugiados incentivou o nativismo e os vários atentados aumentaram a percepção de insegurança, explica Cas Mudde.

Reunião da extrema-direita europeia em Koblenz, na Alemanha, em Janeiro de 2017
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Reunião da extrema-direita europeia em Koblenz, na Alemanha, em Janeiro de 2017 Wolfgang Rattay/Reuters

Para Cas Mudde, o problema dos refugiados surgiu na pior altura possível para o continente e as instituições europeias. Ainda a recuperar da crise financeira, com as instituições desacreditadas devido à resposta a essa crise e com os partidos populistas a desafiar os tradicionais, o problema dos refugiados veio pôr em causa os valores tradicionais da Europa.

“Vejamos: o grande número de refugiados apela ao nativismo das pessoas, que se sentem ameaçadas pelo que não entendem; ao mesmo tempo ocorrem vários atentados, que aumentam a percepção de insegurança, o que apela ao autoritarismo; e a resposta fácil, que seria o fecho das fronteiras, não é fácil por causa da União Europeia, o que apela aos nacionalismos. É a tempestade perfeita para dar espaço aos partidos nacionalistas.”

Esta é uma das razões pela qual a crítica à Europa parece ser uma constante nos movimentos populistas, o que “faz sentido para qualquer populista num Estado-membro da UE. Quando se é nacionalista, não se quer partilhar a sua soberania. Por outro lado, também faz sentido que Putin não seja a favor da UE, porque a UE aplicou sanções à Rússia. Trump também apresenta uma visão muito semelhante, mas isso não faz muito sentido porque a UE não representa uma ameaça directa aos EUA. Creio que isso se deve à forma como ele é informado – que é através de pessoas como Steve Bannon ou Nigel Farage. Vemos que a visão de Donald Trump da União Europeia é definida pela direita radical.”

Na verdade a crítica populista visa as instituições, ultrapassando a mera questão europeia: “É um ataque à ordem internacional neoliberal, seja esta representada pela ONU, pela NATO ou pelo FMI”. Apesar desta coincidência de ideias, não será possível falar de um movimento populista internacional: “Esse assunto tem sido debatido mas para isso ocorrer o populismo seria o elemento central desse movimento, ou seja, o populismo de esquerda e de direita estariam em cooperação e, claramente, a situação não é essa".

Quando se refere que existe um movimento populista internacional, fala-se exclusivamente de um grupo de direita quase nacionalista", diz o investigador. "Existe cooperação entre a direita radical populista, especialmente no Parlamento Europeu (entre a direita radical populista de França, Áustria, Itália, Bélgica e Holanda) mas ainda assim nem todos os países estão incluídos nesta cooperação. É verdade que existe uma proximidade e uma partilha da aversão pela ordem estabelecida, mas estão longe de ser um movimento integrado como, por exemplo, a Internacional Comunista ou mesmo actualmente o Partido Popular Europeu.”