Opinião

Populismo para totós

Divide o povo culpando os ricos pelos problemas dos pobres, a democracia tenta unir o povo em torno de um destino comum.

O populismo está na moda. Desde o “Brexit” e a subida ao poder de Donald Trump nos Estados Unidos que não se fala noutra coisa. Até o nosso Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, comenta na televisão as causas do populismo. Mas sem saber ao certo do que estamos a falar, é difícil acertar nas suas causas – e consequências.

No fundo, há duas maneiras de pensar a coisa.

A primeira é pensar-se que o populismo é uma coisa. A maior parte do que se escreveu sobre o assunto nos últimos 50 anos assume que o populismo se refere a alguma coisa em concreto. O problema é que não há consenso sobre a que coisa se estão a referir. Há quem pense que o populismo é um estilo de comunicação política: uma forma simples e directa de falar às pessoas. Os floreados ficam para as elites falarem entre si.

Outros há que acham que o populismo é uma estratégia para conquistar o poder: uma forma de mobilizar o voto das massas contra a classe dominante e os seus interesses. E há quem julgue que o populismo é uma ideologia.

A referência ao “povo” como fonte última da soberania e a postura anti elite seriam os traços que distinguiriam a ideologia populista. Mas o populismo não pode ser ao mesmo tempo estas coisas todas. Dizer que o populismo é, simultaneamente, uma ideologia, uma estratégia de mobilização eleitoral, um estilo de comunicação política, ou um discurso, é um pouco como atirar barro à parede e ver se cola. O problema da falta de consenso aqui se calhar tem a ver justamente com o achar-se que o populismo é uma coisa que pode ser medida, descrita, avaliada.

Este é precisamente o ponto de partida para a segunda maneira de se pensar o populismo. Em vez de se procurar encontrar o conteúdo do populismo, há quem julgue que é preferível perceber como é que o populismo funciona. O exemplo mais conhecido é o de Ernesto Laclau, o filósofo argentino que inspirou movimentos como o Syriza grego e o Podemos, em Espanha.

Para Laclau, que aqui segue à risca Carl Schmitt, o pensador alemão simpatizante do regime nazi, a lógica do populismo é a lógica que define o domínio político: a lógica do amigo-inimigo. O “povo” (amigo) é definido em oposição à “elite” (inimigo), numa luta sem quartel sem possibilidade de compromisso. Há pelo menos dois problemas com esta forma de pensar. O perigo real de isto levar a uma guerra civil é menos importante do que a possibilidade de uma revolução emancipadora. E, claro está, se a lógica populista é a lógica do político, o que é que afinal distingue o populismo?

Em que é que ficamos? Se o populismo não é uma coisa, nem segue a lógica do amigo-inimigo, o que significa ser-se populista?

Talvez o que precisamos é identificar a lógica certa que permite aos políticos usar aquelas coisas que associamos ao populismo (ideologia, estilo, estratégia) em benefício próprio. Aristóteles, na Retórica, dá-nos uma pista. Para Aristóteles, a emoção política mais poderosa, mas também a mais perigosa, é o ressentimento que o “povo” sente pela “elite”.

Também sabemos que historicamente a retórica do amigo-inimigo foi usada pelas elites para contrariar o ressentimento sentido pelo povo. Na Revolução Americana, sempre que o povo fazia ouvir a sua indignação pela forma como era tratado pelas elites, era acusado de falta de patriotismo – de estar a fazer o jogo do inimigo.

Se a lógica do populismo é a lógica do ressentimento, como é que passamos desta emoção ao populismo? Atente-se no exemplo do “povo”. Um populista não vira o povo contra outro povo; vira, isso sim, uma parte do povo contra outra. Fá-lo explorando a indignação (ou inveja, se se preferir) sentida por muitas pessoas com os privilégios usufruídos pelos mais ricos, instruídos e poderosos. Como o recente caso dos offshores mostrou, passa por usar os 10 mil milhões de euros alegadamente em falta como uma forma de canalizar o ressentimento sentido por uma parte do eleitorado contra outra parte.

Isto significa que o populismo não é uma ideologia ou uma estratégia ou um estilo. O populismo é algo em que se incorre quando se usa qualquer coisa – a referência aos 10 mil milhões de euros, um muro na fronteira com o México, uma ideologia, uma estratégia, um estilo – para explorar o ressentimento de uma parte do eleitorado contra outra parte.

É isto que distingue o populismo, por exemplo, da democracia. O populismo divide o povo culpando os ricos pelos problemas dos pobres. A democracia tenta unir o povo em torno de um destino comum. Nos dias que correm, esta é uma diferença a não perder de vista.