Entrevista

Lone Star? "Seria um accionista forte para o Novo Banco"

Carlos Costa traça um retrato mais optimista do xadrez da banca que supervisiona, depois de solucionados os casos da Caixa, BPI e BCP. E fala de "mochilas" para enquadrar o "banco mau".

Miguel Manso
Foto
Miguel Manso

Duas questões sobre o Novo Banco: espera ter uma conclusão da venda agora? O Governo alguma vez lhe pediu para estudar a nacionalização?
O mandato do BdP é muito claro: é estudar a operação de venda do banco de transição, cabendo sempre ao agente político saber se a proposta e a recomendação que fazemos é aceitável ou não. E mais não comento.

Se soubesse como estamos hoje, teria vendido o banco na primeira tentativa (em 2014)?
Nessa fase de venda não havia condições, porque não havia um comprador firme. É preciso perceber que a primeira fase de venda coincidiu com a crise da Bolsa de Xangai e que os compradores potenciais, à última hora, afastaram-se, porque não tinham condições para, eu diria, concretizar a operação. Aliás, eu diria, com alguma surpresa, coincidiu com um facto quase idêntico nesta fase [actual] com um dos interessados.

Acha que é desta?
Estou confiante que sim, o primeiro-ministro também disse que sim. Seria muito bom para a estabilidade do sistema financeiro que a operação se concretizasse. Por três razões: não é possível manter um banco de transição indefinidamente – há prazos; porque é um banco crítico para o financiamento de pequenas e médias empresas; e porque seria uma pedra muito importante para a estabilização do sistema financeiro.

Aí é muito importante perceber três ou quatro pontos. A estabilização do sistema financeiro depende da robustez de cada uma das suas instituições. Nós temos hoje a Caixa em vias de ser recapitalizada, o que é um facto muito positivo, temos o Millennium recapitalizado e com capacidade para limpar o seu balanço, o que é muito positivo. Temos o BPI endossado a um accionista que tem capacidade para lhe dar todo o suporte, o que é muito positivo. Se tivermos a seguir o Novo Banco com um accionista forte, que além disso assegura diversidade do ponto de vista de origem dos capitais, que assume um plano de negócios consistente com o financiamento da economia e com a estabilidade financeira; e se depois, em cima disso, conseguirmos (como estamos a conseguir) que a Caixa Económica se revele uma entidade forte, estamos com um plano de estabilização do sistema financeiro em plena marcha.

Como é óbvio, qualquer plano de estabilidade financeiro está sempre dependente de surpresas vindas da economia, do ambiente internacional, das taxas de juro; e ninguém pense que a estabilidade é um dado estático – é um dado dinâmico e um equilíbrio permanente.

Deixámos de ter necessidade de ter um "banco mau", um veículo para o malparado?
Quando comecei a falar sobre os activos problemáticos, que não geravam rendimento, foi há bastante tempo e eu estava completamente isolado. Houve dois erros: falou-se em "banco mau" e não estamos a falar de nenhum banco, mas de um veículo; e pensou-se que estava a falar de um mecanismo obrigatório – e não é, é um mecanismo facultativo, caso os bancos não consigam resolver por si o problema. Isto foi quando comecei a falar, não só aqui, como no plano europeu.

Hoje já não consigo diferenciar a minha voz da voz dos meus colegas, nem da autoridades – incluindo da Comissão Europeia. Neste momento a necessidade de retirar do balanço dos bancos os activos problemáticos é reconhecida por todos, porque afecta a rentabilidade, afecta a capacidade dos bancos de atrair capital, de financiar a economia. E corremos o risco de ter bancos solventes, vivos, mas que não estão a agir. O que está aqui em causa não é ter seres vivos, é ter seres vivos robustos e ágeis. Isto coloca-se em Portugal, em Itália, nos demais países. Uns falam mais abertamente, outros menos. Mas toda a gente sabe que os bancos europeus, por força da crise, transportam uma mochila. E a mochila limita a capacidade e segurança da passada. O melhor que se pode fazer é retirar a mochila. Se os bancos têm accionistas com capacidade para suportar as perdas ou alienar esses activos, excelente, não precisam. Se não, têm uma opção: ou viver uma vida limitada, ou ter uma nova vida, atrair capital e passar para um plano diferente.

Está a trabalhar nisso?
Todos nós na Europa estamos, neste momento, a olhar para esse problema. Ouviram-me falar nisto há muito tempo, na altura parecia uma aberração. É óbvio que, quando se lança uma ideia, se tem o custo de iniciar o processo, mas depois, quando todos se alinham nesse sentido, é porque alguma motivação do mundo real estava a sustentar a ideia.