Torne-se perito

Da Rússia para uma casa de Verão na Comporta

Com a encenação de Veraneantes, de Maksim Gorki, Nuno Cardoso continua a fazer a ponte entre os costumes e a vida social do passado e do presente. E, pelo caminho, a “bater nos outros”, mas primeiro em si próprio. Para ver no Teatro Nacional São João até 18 de Março.

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Piscina, música lounge, bebidas à disposição, vestuário informal mas de bom-tom, entre pólos Lacoste, calça branca e sapatilha da moda.

Era suposto estarmos nas casas de Verão (as datchas) da burguesia russa de inícios do século XX, mas na verdade estamos entre lá e cá. Qualquer semelhança com a actualidade não é pura coincidência: o encenador Nuno Cardoso quis trazer para um certo Portugal do século XXI a sua própria montagem de Veraneantes, peça de 1904 do dramaturgo russo Maksim Gorki que dá corpo à nova produção do Ao Cabo Teatro, chegada esta quinta-feira ao Teatro Nacional São João, no Porto, onde fica até 18 de Março (entre as próximas paragens estão o Convento de S. Francisco em Coimbra, o Theatro Circo em Braga e o Teatro Nacional D. Maria II em Lisboa).

Se Gorki, marxista assumido, rasgava com a classe média/ média-alta ociosa, fútil e acomodada de uma Rússia na antecâmara da revolta de 1905, o aquecimento para a Revolução Bolchevique de 1917, Nuno Cardoso quer, por sua vez, apontar o dedo a “uma nova burguesia parvenu, arrivista e boçal que passa férias na Comporta e frequenta as esplanadas da happy hour”, diz. Para o encenador, a ponte com o presente é fácil de fazer, “sem desvirtuar o texto”. “A peça foca-se num conjunto de pessoas que falam muito mas que fazem pouco. Não modificam o status quo, ocupam-no. Fazem parte das classes dos profissionais liberais, dos engenheiros, dos médicos, dos advogados… Achei que isso era muito actual e um ponto de reflexão importante na sociedade civil e na democracia que temos”, considera. “São todos muito morais, muito hashtag não-sei-quê, reclamam muito no Facebook, mas na prática há uma enorme indiferença e vacuidade.”

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Paulo Pimenta

Gorki é particularmente ágil e mortífero na forma como desconstrói a falsa consciência da intelligentsia russa de então, aplicada a tantos outros casos de hoje. Como satiriza as conversas sobre niilismo e engajamento político, muitas delas entre golos de vinho, alguns ataques de lucidez e verborreia pestilenta, de quem fala (e bebe) compulsivamente para atirar areia para os olhos. “Como gostaria você de viver?”, pergunta-se a certo momento. “Bem, muito bem”, responde-se. Mas não se faz “nada, absolutamente nada” por isso – e se antes era sobretudo o vinho que ajudava a esquecer, hoje há toda uma colectânea de cocktails e de gins com flor de hibisco e açaí para afundar a cabeça com estilo.

“O Gorki tem momentos de diálogo brilhantes, em que a sua admiração pelo Tchékhov o fez aprender algumas coisas, mas por outro lado é duro. É muito seco na forma como vê as coisas e muito cruel nos retratos que faz”, explica Nuno Cardoso. Tchékhov é aqui um dado importante. Não só pela influência em Gorki (há inclusive uma referência em Veraneantes “aos malefícios do tabaco”), mas também no caminho que conduziu Nuno Cardoso a este texto, que volta a pôr o encenador frente-a-frente com a dramaturgia russa depois da trilogia dedicada a Tchékhov entre 2008 e 2011 (Platónov, A Gaivota e As Três Irmãs).

“Alguns autores dizem que esta peça podia passar-se depois de O Cerejal, que foi vendido para a construção de datchas, mas eu comecei a lembrar-me deste texto quando fiz A Gaivota. Acho que é um bocado o lado b do encontro no campo”, aponta. Um lado b mais azedo e gangrenoso, de “uma crueza que seria sempre mais melancólica e elegante no Tchékhov, o que não quer dizer que seja melhor ou pior”.

Certo é que a temperatura do texto vai crescendo de acto para acto (e são quatro), até “ir por ali a baixo”. Ou seja, até saltar o palco. “Eles precisam de sair de cena porque se não vão ao focinho uns dos outros”, diz o encenador. Os 15 veraneantes desta história, interpretados aqui por um elenco exemplar, são uma autêntica bomba-relógio. “Só a meio é que nos damos conta da monstruosidade que é gerada ali. O Bássov [interpretado por Pedro Frias] é um boçal autêntico e a gente conhece-o. São os senhores que acham que podem estacionar o seu carro onde quiserem porque o carro é caro. Ou que acham que podem ter uma mulher brinquedo e tratá-la mal, como é o caso do Suslov [Rodrigo Santos], o engenheiro… A Júlia [Margarida Carvalho] está maluca – de dor, acho eu –, e a própria Maria Lvovna [Cristina Carvalhal], que é muito certeira, vai tremer com o amor que se avizinha.”

Ajuste de contas

Outra ligação que se vai tornando clara ao longo do espectáculo é o território partilhado com a encenação de O Misantropo, de Molière, que Nuno Cardoso levou a palco no ano passado. Com as devidas diferenças e particularidades, também este grupo de veraneantes desliza pela misantropia, pela hipocrisia e pelo individualismo num salão social transposto para a contemporaneidade (n’O Misantropo foi da corte para uma discoteca), com comportamentos rasteiros, machismo à flor da pele, uma queda inevitável para o drama e maldizer e aquela afectação coquete (“não digas vulgaridades”, ouve-se várias vezes).

Qualquer semelhança entre O Misantropo e Veraneantes não é pura coincidência. Aquele certo Portugal do século XXI era o alvo a criticar em 2016, e continua a sê-lo em 2017. “Deve ser monótono porque passo a vida a falar disto, mas acho importante perceber como há todo um conjunto de comportamentos de classe e de costumes com os quais podemos fazer uma ponte agora”, observa Nuno Cardoso. “Nesta ponte para o presente não é a classe analisada do ponto de vista marxista; é mais uma classe de costumes, uma classe socio-económica-cultural mais massificada que vive na sua bolha”, acrescenta.

E para o encenador, “de uma forma muito redutora e ácida”, admite, isso cristaliza-se “na Comporta, no Facebook, no Instagram, nas esplanadas happy hour”. Mas nem ele está a salvo de si próprio. Afinal, isto também é uma espécie de ajuste de contas na primeira pessoa. “Antes de bater nos outros estou a bater em mim”, atira Nuno Cardoso. “Eu também faço parte disto. Se uma pessoa não se consegue olhar de frente no espelho e dizer o que é, então não consegue ter a força prática para saber como e quando deve agir.” Independentemente dos pólos Lacoste, da sapatilha da moda e das férias nas praias trendy.

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