O prodigioso Oddisee

De Washington não chegam apenas más notícias: o sucessor do brilhante The Good Fight confirma o toque de Midas do seu criador.

Foto
Num tempo em que se busca sofregamente pela “next fresh thing”, a música de Oddisee é demasiado warm

Comecemos por uma penitência: quando, há tempos, aqui escrevemos sobre 4 Your Eyez Only, destacámos J. Cole, Kendrick Lamar, Joey Badass, Bishop Nehru e Chance the Rapper como a fina-flor do hip-hop americano actual, não apenas no sentido da sua proeminência no espaço mediático (e uma das maiores transformações da música americana dos últimos anos reside na circunstância de artistas como os citados e gente sem uma ideia ou discurso como Future ou Desiigner conviverem lado a lado nos tops de vendas, de escutas nas plataformas digitais e dos prémios mediáticos), mas, sobretudo, no sentido de serem aqueles que melhor e mais relevante — urgente, em alguns casos — música estão a fazer. Esquecemo-nos, imperdoavelmente, de um nome (talvez pela falta de foco mediático, embora cultive, de moto-próprio, um posicionamento alternativo ao mainstream): Oddisee, rapper e produtor que assinou, quanto a nós, o grande álbum de 2015, The Good Fight, infelizmente “tapado” pelo histerismo —pouco ou nada informado, diga-se — em torno do To Pimp a Butterfly de Lamar (em si um excelente álbum, de resto).

Feita a contrição, arranquemos em direcção ao brilhante sucessor de Alwasta (magnífico EP de 2016, juntamente com o álbum de instrumentais The Odd Tape), uma vez mais editado com o selo da Mello Music Group, uma das mais selectas independentes de hip-hop americano (de par com a Stones Throw, Top Dawg, Def Jux ou Rhymesayers).

Oddisee é um dos mais vibrantes músicos americanos da actualidade, demonstrando igual virtuosismo na composição e orquestração das suas canções como nas palavras e assuntos que escolhe para rimar e cantar. Do boom bap mais clássico, sample-based, presente nos seus primeiros trabalhos, tem denotado, ao longo dos anos, uma evolução notável que o eleva, hoje, a um dos mais sofisticados produtores americanos, criador de peças saborosíssimas, cheias de sumo, autênticos tratados da música negra (e não só, sentindo-se também uma dimensão ora electrónica, ora eléctrica na música, e a sua própria voz tem, por vezes, algo de rockeiro) em que todos os elementos se relacionam de forma natural, fluidamente, riqueza que tem o seu prolongamento natural no formato banda que o americano passou, entretanto, a adoptar em palco com os GOOD COMPNY. Aliás, Oddisee alcançou mesmo algo raro, muito raro, de se ver (ou ouvir): a hipótese de um álbum de hip-hop poder valer exclusivamente pelo seu som, pela sua extrema musicalidade (sem o rap, as letras), e isso sem jamais resvalar na monotonia e redundância (batida e samples em loop durante demasiados minutos) para que muito hip-hop auto-intulado instrumental tende. Acrescem, de permeio, pinceladas sónicas inesperadas, caso daquele início muito Beach Boys, muito psicadélico, de Want to Be, ou do kraftwerkiano céu estrelado de sintetizadores que inaugura Waiting Outside, os quais se mantêm, estranhamente, na maior das harmonias ao longo da canção na companhia dos coros, do baixo sensualíssimo e dos sopros que, já no fim, assomem secretamente.

Absolutamente fulcral em todo este universo sónico, contudo, é a secção de percussão, marca autoral no trabalho do americano pela centralidade na composição e no que de fecundo, heterogéneo e ritmicamente variável empresta às canções (não se trata aqui, e sem menosprezo algum nesta afirmação, de meros beats), desse modo lhes impondo diferentes “tempos” ou “andamentos”: Digging Deep, por exemplo (um entre muitos), depois de iniciar — e adaptando a terminologia à ideia que ora se pretende veicular — em adagio, evolui para um andante com a entrada do bombo e vai desaguar a um refrão em allegro. Não nos lembramos de outro produtor, nos territórios mais delimitados do hip-hop (claro que há Flying Lotus e uma catrefada de gente nessa órbita electrónica, mas por isso é que escrevemos “mais delimitados”), a fazer da percussão tamanho eixo e força criativa das canções.

É a mesma Digging Deep que dá início ao álbum em tom solene (o trompete secundado pelo baixo) e o mote “teórico” para tudo o que se seguirá (particularmente em You Grew Up), Oddisee apelando ao aprofundamento do pensamento crítico e à busca das causas em vez de se olhar apenas para os problemas à superfície (a tal ponta do icebergue do título do álbum): “Cause when you take the time to understand the makings of a man/You comprehend that he’s the sum of circumstance (…) / I know it’s easy when you’re angry just to shallow grave it / But dig deeper for the reasons and we’re all related / To kill a cousin ain’t as easy as a stranger, and the danger / ain’t the bullet but the anger”. Uma novidade a assinalar é a costela dançante que Oddisee definitivamente adita ao seu corpo musical, groove audível em Things (que faz uma tangente a Kaytranada), Want to Be ou na charmosíssima Rights & Wrongs. Todavia — e esta é a pedra de toque –, mesmo em faixas ritmicamente quentes, balançantes e, neste sentido, “distractivas” (aparentemente), mesmos nos refrões mais orelhudos, Oddisee está sempre a colocar-nos palavras importantes nos ouvidos, sendo Rights & Wrongs disso exemplo paradigmático (“I think I’m giving out advice / But all you hear is judgement on the way you live your life (…) One man’s heart is another man’s brain / Forever then the question will remain”).

Palavras políticas (no mais amplo sentido) de um observador do comportamento humano (individual e em comunidade), do terrorismo à islamofobia (ele que é muçulmano, filho de pai sudanês e mãe afro-americana) e à doença mental (Waiting Outside), passando pelo género, a raça ou o amor pela música (This Girl I Know é personificação da música numa mulher, abordagem com história no hip-hop, de I Used To Love H.E.R. de Common à Musa de Sam The Kid), sendo o tom muito menos combativo ou “militante” do que reflexivo (“Read a little more, speak a little less”, advoga ele para si próprio em Rain Dance), questionador, tantas vezes poético.

Mas veja-se, ainda, a aproximação inteligente que o americano, sem cair na mediocridade ou banalidade, faz — após um início em toada completamente distinta (a tal heterogeneidade que acima referimos) — ao trap contemporâneo (a tarola, os pratos) em Like Really, ou a roupagem que dá aos “whoop!” vocais que, actualmente ouvidos à exaustão em tudo o que é faixa trap, surgem em NNGE muito mais na linha “funkadelica” de um James Brown. Também em contra corrente com a tendência do hip-hop actual, escasseiam aqui convidados (apenas Toin e Olivier St. Louis), o que só reforça o protagonismo da voz segura e madura, mas simultaneamente cool de Oddisee, a que se junta a dicção perfeita na hora de rimar. Num tempo em que se busca sofregamente no R&B e no trap pela “next fresh thing”, apetece dizer que a música de Oddisee é demasiado warm para as modas do momento, a ele lhe pertencendo um dos mais sérios candidatos a disco do ano e último capítulo de um tríptico (com The Good Fight e Alwasta) de uma coerência e consistência (um por ano!) admiráveis. Que, pelo meio de uma ocupadíssima tour europeia, não se vislumbre qualquer data para Portugal, eis o que é de lamentar.