Editorial

Como é óbvio, sou feminista

É legítimo discutir quotas, é razoável questionar se os piropos são para penalizar ou não. Mas já há muito que devia ter passado o tempo de discutir a base do problema.

É tão simples. E tão óbvio. Ser feminista é defender a estrita igualdade entre homens e mulheres em tudo, é promover a liberdade de escolha para mulheres como para os homens.

E, sim, é um bocadinho grave que ainda seja preciso escrever um editorial em defesa do feminismo num jornal em pleno 2017. Mas todos os dias vemos as demonstrações activas de machismo na praça pública, atitudes que nos deviam envergonhar colectivamente e que ainda são toleradas.  

O machismo é a raiz da violência doméstica, que continua a ser uma das mais lamentáveis estatísticas que temos para mostrar. É também o machismo que continua a recomendar determinados brinquedos para meninas, que determina que elas ganhem menos do que eles pelo mesmo trabalho, que impede as mulheres de aceder a algumas profissões e que se detém a analisar a sexualidade e sensualidade da mulher.

Podemos — e devemos — discutir todas as formas para resolver o problema. É legítimo discutir quotas, é razoável questionar se os piropos são para penalizar ou não. Mas já há muito que devia ter passado o tempo de discutir a base do problema. Simplesmente, não é sério hoje discutir se devemos ser feministas.

Até porque basta olhar à nossa volta para perceber o quanto está por fazer. As mulheres estão mais longe da escola, têm menos acesso ao mercado de trabalho e quando lá chegam ficam a ganhar menos e são mais precárias. Os números não enganam: a maioria dos iletrados do mundo é do género feminino; ainda há 18 países onde os maridos podem proibir as mulheres de trabalhar, e só 67 nações têm leis contra a discriminação de género na contratação; mais de metade das mulheres na UE viveu alguma forma de assédio sexual; só 28 por cento das mulheres que trabalham é que têm direito a alguma espécie de protecção laboral na maternidade.

E, se os números não mentem, a percepção também não. Quando o Presidente do país mais poderoso do mundo defende que as mulheres devem ser objectificadas e sexualizadas e mesmo assim ganha as eleições, há razão para preocupação séria sobre o estado do debate público. Quando as caixas de comentários da maioria dos jornais ou as discussões no Facebook sobre a Emma Watson ficam pejadas de comentários selvagens, percebemos quão longe estamos de viver numa sociedade civilizada. E é por isso que podemos ser redundantes numa página de jornal e dizer o óbvio: sou feminista.