Câmara de Coimbra oferece maquilhagem e manicura no dia da mulher e oposição não gosta

Deputada municipal entende que programação é “um ultraje” e que “menoriza as mulheres”. Vereador diz que “há formas muito mais dignas de comemorar”.

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Miguel Manso

O que para a Câmara Municipal de Coimbra é a "celebração dos direitos humanos da igualdade de género, do dia da mulher", para outros é o reforço do estereótipo de género. Para assinalar o dia internacional, a autarquia decidiu organizar um evento cuja programação inclui aulas de dança, actuações musicais e em que oferece serviços de cabeleireiros, maquilhagem, manicure, massagens aos pés e degustação de produtos detox e de emagrecimento.

Para a deputada municipal eleita pelo movimento Cidadãos por Coimbra, Catarina Martins, esta iniciativa que vai decorrer dia 11 “reduz as mulheres a um lugar de infantilização” e “ignora o que é o dia internacional da mulher”.

Ao PÚBLICO, Catarina Martins, que é também docente na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra com investigação na área dos estudos feministas, sublinha que o programa da autarquia para um dia que “celebra e prolonga as lutas das mulheres pelos direitos políticos, sociais e económicos” é “um ultraje” e “menoriza as mulheres”. A deputada municipal entende que o papel da câmara devia passar por “promover uma política estruturada de igualdade de género”.

Esta não é a primeira crítica à iniciativa da câmara para assinalar o dia internacional da mulher. Depois de Manuel Machado ter dito na reunião de executivo de segunda-feira que o programa tem como objectivo a “celebração dos direitos humanos, da igualdade de género e do dia da mulher”, o vereador da CDU, Francisco Queirós, afirmou que “há formas muito mais dignas de comemorar o dia da mulher”, referindo-se à programação.

Numa nota enviada à imprensa e assinada por Catarina Martins, o CpC tinha já vindo condenar o programa escolhido. 

 “Não procuramos impor uma forma de festejar o Dia Internacional da Mulher, antes propomos um programa que – esperamos – seja do agrado de todos, mas aceitamos outras formas de celebração, com a máxima cultura democrática e respeito pela liberdade”, avançou o gabinete de imprensa da CMC, em resposta a um pedido de comentário do PÚBLICO ao texto.

A autarquia sublinha ainda que “é parceira em todas a iniciativas para celebrar, promover e defender os direitos humanos” e refere que respeita a “democracia e a liberdade de escolha de todos os cidadãos”.

No texto, a deputada municipal considerava que o problema não está nas actividades em si, mas no “facto de este evento constituir, para uma autarquia, a celebração” da data. “Não é aceitável, portanto, que o governo autárquico que representa uma cidade escolha para celebrar esta data um evento que, pelas suas características, não somente insulta o significado das lutas centenárias das mulheres” como transforma as mulheres “na condição de corpo-objeto ou na dimensão fútil dos cuidados de beleza que servem ao olhar masculino”. Esta forma de assinalar o dia, entende, é “machista”.

A ONU declarou em 1977 que 8 de Março passaria a ser o dia internacional da mulher, em homenagem às lutas pela igualdade de género. O Coimbra PinkMove, assim se chama a iniciativa da câmara, celebra o dia da mulher no próximo sábado, no Convento de S. Francisco, e tem entrada gratuita.