Um cocktail cinematográfico para Pablo Neruda

É uma “carta de amor” ao poeta, diz o cineasta chileno. E o amor, já se sabe, pode ser cruel. Já depois de o mais recente filme de Pablo Larraín, Jackie, ter chegado às salas, chega agora o anterior, Neruda.

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A divertida cena inicial de Neruda, de Pablo Larraín, o menino-prodígio do actual cinema chileno, é tão surpreendente que talvez fosse preferível não a descrever de todo para não estragar o efeito. Mas digamos apenas – e já será talvez de mais – que se passa num espaço que é ao mesmo tempo o senado chileno e um vasto e sumptuoso mictório. Um humor absurdo que podia fazer lembrar o Buñuel de O Fantasma da Liberdade, e que sugere, logo a abrir, que este não é um filme particularmente interessado em observar convenções realistas.

“São formas de explicar que alguém como Pablo Neruda não se consegue capturar”, explicou Larraín ao Ípsilon numa breve entrevista feita por ocasião da estreia do filme em França. “Prefiro dizer que é sobre o universo nerudiano, sobre a sua vida e a sua poesia, mas se calhar também é um filme sobre o cinema."

Pela sua atmosfera, Neruda parece querer prestar homenagem ao film noir dos anos 40 e 50 – justamente a época em que decorre a acção –, mas também o podemos ver como um road movie, que acompanha o périplo do poeta e senador comunista por uma sucessão de casas clandestinas localizadas em diferentes pontos do Chile. Ou como um thriller, centrado na encarniçada perseguição que Óscar Peluchonneau, um polícia enfatuado e um tanto trágico, move ao futuro Nobel da Literatura. E se quisermos alargar ainda mais este catálogo de géneros, algumas cenas finais, envolvendo cavalos, tiros e neve, podem até trazer-nos à cabeça um western heterodoxo, ao estilo de A Noite Fez-se para Amar, de Robert Altman.

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Neruda é como um thriller, centrado na encarniçada perseguição que Óscar Peluchonneau, polícia enfatuado e um tanto trágico, move ao futuro Nobel da Literatura

Pablo Larraín reconhece que o filme tem elementos de todas estas linhagens, observa que não lhe falta também “ironia e humor negro”, e descreve o resultado final como “um cocktail feito do [seu] fascínio pela obra de Neruda”. No entanto, tendo em conta que Pablo Neruda é ainda hoje um herói literário e político para muitos chilenos, o filme está corajosamente longe de se poder considerar uma hagiografia.

Este não é o Neruda gentil e solidário que ajuda carteiros apaixonados. É um Neruda que frequenta bordéis em plena clandestinidade e hostiliza os jovens camaradas comunistas destacados para assegurar a sua protecção. E que se força a comprazer a sua extensa corte de admiradores recitando vezes sem conta, sempre no mesmo registo enfático que todos aguardam, uns antigos versos de Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada, dos quais se sente já irremediavelmente distante nessa época em que anda a compor a sua obra-prima, Canto Geral, que virá a ser publicada no México em 1950.

Um polícia existencialista

“Tentei mostrar alguém tão icónico e complexo como Neruda com todos os seus paradoxos e contradições”, explica o cineasta. A coragem um tanto irreflectida, a fúria de viver, a aristocracia natural deste poeta e senador filho de um operário dos caminhos-de-ferro – “Eu também?! pergunta Neruda, entre surpreso e indignado, quando os dirigentes do partido lhe explicam que vão todos passar à clandestinidade –, ajudam-nos a simpatizar com a personagem admiravelmente interpretada por Luis Gnecco. Mas quando é para satirizar, Larraín sabe ser mordaz, mostrando, por exemplo, um Neruda a chafurdar em orgias de sexo e álcool no mesmo instante em que Picasso exalta o amigo no Congresso Mundial dos Partidários da Paz, descrevendo como Neruda, “escondido debaixo duma ponte ou num túnel ferroviário, organiza a heróica resistência contra o fascismo chileno”.

Pequenas farpas que não impedem o realizador de garantir: “Esta é a minha carta de amor a Neruda e à sua obra”. E se o tom simultaneamente pomposo e monocórdico com que Gnecco passa o filme a recitar “Puedo escribir los versos más tristes esta noche (…)" chega a parecer quase cruel, o actor mexicano Gael García Bernal, que participou na conversa em Paris, garante que o verdadeiro Neruda “era ainda menos discreto” a dizer os seus poemas. Larraín confirma: “Podes ir ver ao YouTube”.

Bernal, que já trabalhara com o realizador em Não (2012), interpretando o publicitário responsável pela bem-sucedida campanha pelo “Não” no referendo de 1988 (que ditaria o afastamento de Pinochet e o início da transição para a democracia), é aqui Óscar Peluchonneau, um polícia dado a angústias existenciais, e talvez com boas razões, já que, no fim de contas, talvez ele próprio não passe de uma criação de Neruda.

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“O filme é narrado a partir de um ponto de vista antagónico, que é o do polícia que persegue Neruda”, observa o cineasta. Um polícia que existiu de facto e que se chamou Óscar Peluchonneau, embora essa seja a sua única coincidência com a personagem do filme, garante Larraín, que lhe deu uma mãe prostituta e a convicção de que é o bastardo de um famoso chefe da polícia já falecido.

“Neruda sofreu uma perseguição que ainda hoje divide os historiadores, e há quem defenda que queriam persegui-lo mas não queriam realmente agarrá-lo”, diz o cineasta, que reinventou o episódio criando “um polícia existencialista em busca da sua identidade, que persegue um poeta que está a criar a sua lenda”. Não por acaso, a personagem de Neruda, quando se prepara para entrar na clandestinidade e ser perseguido, avisa: “Isto tem de ser uma caçada selvagem." E há momentos em que, não querendo propriamente ser apanhado, lamenta não sentir os seus perseguidores um bocadinho mais próximos.

No filme, o líder dessa caçada talvez deliberadamente ineficaz, Óscar Peluchonneau, começa por ser apenas uma voz, e quando aparece pela primeira vez em cena, ainda de costas para o espectador, diz logo ao que vem, ou mais precisamente, diz de onde vem: “Venho da página em branco." Esta ambiguidade entre a reconstituição mais ou menos factual da perseguição movida a Neruda e um outro plano em que se sugere que o poeta e o polícia são criador e criatura, ambos precisando desesperadamente um do outro, atravessa todo o filme. Por isso mesmo, o grande mérito da interpretação de Bernal não é apenas o de dar uma dimensão cómica à fatuidade de Peluchonneau, mas sobretudo ter conseguido tingi-lo de uma certa irrealidade, como se não fosse um homem de carne e osso, mas uma personagem saída de uma qualquer banda desenhada antiga.

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Uma saga chilena

Se virmos a filmografia de Larraín como uma saga da história contemporânea chilena, Neruda seria uma espécie de prequela. O cineasta começou por abordar a ditadura de Pinochet em Tony Manero (2008), mostrando-a através de um pequeno delinquente psicopata obcecado pela personagem que John Travolta interpreta no filme Febre de Sábado à Noite (1977), de John Badham. Recuou depois ao último dia da presidência de Allende e ao golpe de Estado de 1973 em Post Mortem (2010), centrando-se desta vez num funcionário da morgue que deambula pela capital sitiada em busca de uma bailarina desaparecida. Segue-se, em 2012, o já referido Não, cuja acção decorre nos momentos finais do regime de Pinochet, em 1988. E com Neruda dá um salto atrás de 40 anos, abordando o período da presidência de Gabriel González Videla, que se manteve no cargo entre 1946 e 1952.

Sustentando por uma coligação das forças de esquerda, e tendo em Neruda um dos seus mais fervorosos apoiantes (chegou a dedicar-lhe um poema), Videla voltou-se depois contra o Partido Comunista, pelo qual Neruda fora eleito senador. No final de 1947, a violenta repressão de uma greve mineira, com os operários a serem encarcerados num campo de concentração para presos políticos em Pisagua, entornou de vez o caldo entre o presidente e Neruda, que em Janeiro de 1948, pouco antes de passar à clandestinidade, proferiu no senado chileno um violento discurso dirigido a Videla, que ficou conhecido como “Eu Acuso”. É aqui que começa Neruda, que Larraín liga deliberadamente aos seus filmes anteriores da “saga” chilena quando, via Peluchonneau, nos informa de que o comandante do referido campo de concentração de Pisagua é então um certo capitão Augusto Pinochet.

Com argumento do conhecido dramaturgo chileno Guillermo Calderón, que já co-assinara com Larraín o do premiadíssimo O Clube (2015) – história de um grupo de padres e freiras católicos transviados que expiam os seus pecados numa casa isolada de uma pequena povoação costeira –, Neruda ambiciona mostrar um poeta em pleno processo criativo. Porque é nesse período em que saltita de uma casa para outra, sempre em fuga, que Neruda escreve os cerca de 250 poemas que compõem Canto Geral, considerado por muitos, incluindo críticos tão insuspeitos de simpatias comunistas como Harold Bloom, um expoente nunca ultrapassado da poesia latino-americana.

Com algumas cenas memoráveis, a começar pela que abre o filme, excelentes diálogos e interpretações francamente conseguidas – além de Gnecco e Bernal, refira-se Mercedes Morán no papel da artista argentina Delia del Carril, a segunda mulher de Neruda, que o acompanhou na fuga –, o filme de Pablo Larraín tem ainda o mérito de não soçobrar no mito Neruda. No entanto, se Neruda mostra todo o savoir faire que o cineasta adquiriu desde que se estreou com Fuga, em 2006, parece também faltar-lhe alguma coisa que os seus filmes anteriores tinham. Porque não se sente neste Neruda nem a criatividade selvagem de Tony Manero nem a violência claustrofóbica de O Clube.

É possível que venha a ser considerado uma obra de charneira na filmografia de Pablo Larraín, pertencendo ainda à sua fase mais visceralmente chilena – até por prosseguir de algum modo a sua revisitação pessoal de momentos marcantes da história recente do seu país –, mas constituindo já o momento inaugural de uma carreira mais marcadamente internacional, que teria em Jackie, nomeado para três Óscares, a sua primeira consagração.   

O Ípsilon viajou a convite da Alambique