O Santo Guerreiro contra o Dragão da Austeridade

Nuno Lopes fala de São Jorge, em que interpreta um boxeur no Portugal da troika, como o filme que, de entre todos o que já fez, mais sente como um bebé seu. Quisemos saber mais sobre o significado desse sentimento.

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Um dia se fará a história do cinema português nascido sob os auspícios da troika, se tem alguma coisa de intrinsecamente diferente ou se apenas encontrou, durante algum tempo, um foco especial para apontar ao país. Mas, para já, podemos ir contando os filmes. São Jorge – que para o dizer rapidamente, é o melhor filme de Marco Martins, melhor do que o Alice com que se estreou na longa-metragem, e muito melhor do que o Como Desenhar um Círculo Perfeito com que, à segunda, pareceu perder-se – aponta explicitamente à vigência da troika nas informações dadas nos genéricos inicial e de fecho, e como As Mil e Uma Noites de Miguel Gomes assume-se como o relato de uma história portuguesa no tempo da austeridade. Poderíamos dizer, e com alguma razão, que a realidade que retrata – a vida dura em bairros da periferia lisboeta, a actividade das empresas de cobranças difíceis, um mar de gente endividada até ao tutano – existe “para além da troika”, não se esgota num aqui e agora, tem elementos que existiam antes e não deixarão de existir depois. Mas fazer a ligação a um tempo preciso confere-lhe um sentido que porventura não teria doutra maneira, e sobretudo traz outro tipo de ansiedade.

Ou “enforma” a ansiedade que se vê nos olhos e nos gestos da personagem de Nuno Lopes, um boxeur amador perdido entre o caos da família (o pai violento e amargo, a mulher brasileira e separada, o filho entre um e outro sempre com o medo no rosto), o caos do bairro (cheio de desempregados), e o caos social que a actividade (pouco ortodoxa) da empresa de cobranças serve para espreitar em todas as suas contradições. É, de resto, um dos aspectos fortes do filme, esse olhar dos pobres sem dinheiro sobre os ricos endividados (como em todas as cenas com o chef interpretado por Gonçalo Waddington), a levar a ambiguidade do filme, e sobretudo a ambiguidade moral do seu protagonista, para uma zona carregada de cinzentos.

Fazer as coisas bem

E tudo começou por aí, conta Nuno Lopes, ele que numa entrevista ao PÚBLICO no final do ano passado falava de São Jorge como o filme que, de entre todos o que já fez, mais sentia como um “bebé” seu. Quisemos saber mais sobre o significado dessa expressão e desse sentimento. Era de há muito a sua vontade de interpretar um boxeur, por gostar muito dos filmes de boxe, que nalguns casos, como o americano, se tornaram quase um género, embora o que menos o motivasse aqui fosse um “filme de género”. A ideia foi trabalhada com Marco Martins, e passava por encontrar um enquadramento, temático, narrativo, para que Nuno interpretasse o seu boxeur para além dum “filme de género”. O envolvimento do actor no processo de concepção foi de raiz – e diz ele que “nem se lembra do primeiro dia de rodagem”, coisa que nunca lhe aconteceu, por ter sido “apenas mais um dia” no longo processo de trabalho, depois das pesquisas de lugares, de histórias, do mergulho nos ginásios de boxe amadores.

“Em Portugal é evidente que a sombra num filme de boxe é sempre o Belarmino de Fernando Lopes”, diz. A sua personagem não tem muito a ver com a ingenuidade ou a rudeza de Belarmino Fragoso no filme de 1964 – é o produto de outro tempo e de um país diferente – mas um aspecto é comum, a pobreza: “Em Portugal, pelo menos, quem vai para o boxe são os pobres”. E foi por aí, pela pobreza, que o actor encontrou um molde capaz de ligar o pugilismo a um dos seus interesses cinéfilos, o neo-realismo italiano. Um “cinema pobre”, feito nas ruinas da Segunda Guerra, numa situação de penúria geral e que “que invariavelmente contam histórias de gente pobre a lutar pela vida”. E reforça o actor, “literalmente a lutar pela vida”, como em parte é o caso do seu boxeur. A luta pela vida, e o neo-realismo italiano assim como os seus derivados (a “commedia all’italiana”, por exemplo) leva frequentemente a zonas de moralidade dúbia, a um reino do expediente e do salve-se quem puder, que até é um território frequentado por São Jorge. Mas Nuno avança com um exemplo preciso para a dimensão trágica da sua personagem: o Umberto D de Vittorio de Sica, onde há um homem que se quer suicidar mas primeiro precisa de encontrar alguém a quem confiar o cão. “Uma pessoa que quer fazer as coisas bem”, resume Nuno, e apesar das dificuldades há um resto de uma ética que resiste à aniquilação.

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Foi pela pobreza que Nuno Lopes encontrou um molde capaz de ligar o pugilismo a um dos seus interesses cinéfilos, o neo-realismo italiano: um “cinema pobre”, feito nas ruinas da II Guerra, numa situação de penúria geral Rui Gaudêncio

Também o boxeur Jorge quer fazer as coisas bem, reconquistar a mulher, ter dinheiro para oferecer uma vida ao filho, amparar a odiosa amargura do pai. Mas “é como no neo-realismo italiano, onde a tragédia colectiva se manifesta sempre através das tragédias individuais”. E se Jorge carrega uma tragédia pessoal “é como se fosse perseguido por uma nuvem negra, a ‘nuvem negra da troika’”, e essa nuvem permite, nem que seja temporariamente, encontrar um enquadramento colectivo para a tragédia pessoal. É um pouco (ou é muito) isto a relação de São Jorge com o tempo da troika. Isto e um ponto de observação: Nuno concorda que se trata de uma “personagem-observatório”, que pelas suas deambulações no bairro (os desempregados, os inválidos, os pensionistas, e respectivas conversas) e fora dele (uma classe média subitamente apanhada em falso, como a personagem do comerciante interpretado por Adriano Luz; ou o brilho falso do restaurante da citada personagem de Waddington) funciona como uma plataforma com vista para flashes de um Portugal em crise – e nesse passo fala do registo de sofrimento “interiorizado” do Robert de Niro do Taxi Driver, essa personagem que, como a sua, passa o filme “a ver” e a dar-nos a ver coisas que não veríamos sem a sua presença.

Panela de pressão

Mas voltamos à ética. Para frisar que, apesar das aparências, Jorge não é um homem violento. As curtas, ainda que realísticas e pormenorizadas, cenas de boxe são, durante grande parte do filme, os únicos momentos em que a violência passa ao acto. Apenas ali, no ginásio e no ringue, entre as cordas e os códigos do boxe, como uma zona onde a violência pode ser mantida sob controlo. “O boxe é isso, tem muito mais a ver com o controlo do que com a falta de controlo”, diz, reforçando com a ideia de que os boxeurs devem ser dos desportistas mais “leais” que existem. Boa parte da narrativa do filme – a partir do momento em que Jorge começa a trabalhar para a empresa de cobranças – tem a ver com o desconforto da personagem, a quem é pedida uma violência a ser exercida fora dos códigos e fora de um território (física mas sobretudo moralmente) controlado. É Nuno quem diz que a personagem pode até ser “muito cobarde” nesse desconforto, salientando o confronto entre o lado interior e o lado exterior. É uma personagem que “aguenta”, que está sempre a “aguentar”: os impropérios e os abusos do pai (José Raposo), a desconfiança e a distância da mulher (Mariana Nunes), a prepotências dos seus colegas ou patrões na empresa de cobranças. Ou que se indigna com o nível de vida dos que vivem bem “mas devem dinheiro a toda a gente”. Mas vai “aguentando”.

É por isso que a construção de São Jorge trata a personagem como uma panela de pressão – e quando a tampa finalmente salta e vemos mesmo um espancamento o seu alvo não é só a pessoa especificamente espancada: “é um punchbag”, diz Nuno, e “ele está basicamente a bater no poder”, no poder difuso que o condena à vida que tem mas também no pai, por exemplo. “É um momento de revolta, uma explosão de ressentimento” que aponta em todas as direcções, ou em direcção nenhuma, como se Jorge batesse também em si próprio.

Na sessão de ante-estreia na Cinemateca o realizador Marco Martins apontou Pedro Costa como uma das pessoas a quem o filme deve a sua existência. Filmicamente, pelo menos, é indesmentível que São Jorge colhe na experiência lançada pelos filmes de Costa no Bairro das Fontainhas, e pela forma como transforma isso, a convivência com os lugares (os Bairros da Bela Vista e da Jamaica) e com os seus habitantes, numa espécie de happening onde o cinema – ou a presença da equipa, das câmaras, dos actores profissionais – faz acontecer alguma coisa. “Há diálogos no filme”, diz Nuno referindo-se aos desabafos e recriminações de algumas personagens secundárias, “que seria impossível termos escrito”, são algo de espontâneo, de revelação potenciada pela presença do cinema. Até “porque nunca pensaram impor um guião” àquelas pessoas. Aproveitaram a tensão (mais “na Jamaica, onde a certa altura começou a haver uma certa fricção, do que na Bela Vista”), procuraram que o filme se embebesse dela. Nuno Lopes, que já tem um rasto considerável de papeis marcantes e registos (mais teatrais ou mais naturalistas, mais cómicos ou mais sérios), diz que isto “é o mais próximo daquilo que gostava de fazer”, e sente-se bem a saltar entre estilos diferentes. “Se não, sinto-me num emprego das 9 às 5, e um papel destes obriga-me a abanar a estrutura toda”.