Os templos de Angkor estão a salvo (por agora) do colapso

No Norte do Camboja persiste a herança do Império Khmer, que hoje é Património Mundial da Humanidade. Mas será que é uma herança bem conservada, sem ameaças à espreita? O risco de queda dos seus edifícios foi agora avaliado.

Entre 1993 e 2013, o número de turistas em Angkor cresceu de dez mil para três milhões
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Entre 1993 e 2013, o número de turistas em Angkor cresceu de dez mil para três milhões por ano Chor Sokunthea / Reuters

O primeiro olhar ocidental sobre o complexo de monumentos de Angkor, no Camboja, foi português. Em meados de 1580, o frade capuchinho António da Madalena integrou uma missão pela província de Ayutthaya (na Tailândia) e terá seguido por florestas do Camboja, por onde depois terá chegado a Angkor. Esta era a antiga capital do Império Khmer, que se manteve entre os séculos IX e XV, em territórios da actual Tailândia, do Laos e Sul do Vietname. A partir desta missão, o frade fez um relato ao historiador Diogo de Couto, que o publicou em Os Cinco Livros da Duodécima Década da Ásia. António da Madalena tinha descrito Angkor como “a mais fermosa, mais bem servida e mais limpa [cidade] que todas as do mundo”. Passados vários séculos, a descrição deste sítio é agora diferente. Pressente-se que fez parte de um império, mas também que isso já aconteceu há muito tempo — como será o seu actual estado de conservação?

Localizado no Noroeste do Camboja, o complexo de Angkor ocupa 400 quilómetros quadrados e é conhecido pelos seus templos construídos com blocos de laterite e arenito e outros tijolos. A particularidade das suas construções sempre despertou interesse e, nos anos 20, foi um dos sítios fotografados por León Busy para a série fotográfica Arquivos do Planeta, realizada entre 1909 e 1931 e financiada pelo banqueiro francês Albert Kahn. Ao todo, vários fotógrafos percorreram 60 países em busca da multiculturalidade pelo mundo. Mas o reconhecimento de Angkor não se ficou pelo registo fotográfico ou literário: desde 1992 que é Património Mundial da Humanidade pela UNESCO, então considerado em risco de conservação. Depois de várias campanhas, em 2004 deixou de estar em risco.

Agora, um grupo de cientistas usou imagens de satélite de alta resolução para avaliar a estabilidade dos monumentos e a sua degradação. E vamos à pergunta que interessa: há algum risco de colapso nos monumentos de Angkor? “Tem havido uma conservação sustentável dos antigos templos do Khmer, assim como do ambiente envolvente”, responde ao PÚBLICO Fulong Chen, da Academia das Ciências da China e principal autor do trabalho, publicado na última edição da revista Science Advances. Ou seja, por enquanto, o sítio está a salvo e os seus templos não correm risco iminente de colapso.

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Monumento degradado em Angkor F.Cheng/Academia das Ciências da China

Mas os estudos sobre Angkor já não são novos. Desde meados do século XX que o sítio tem sido motivo de investigações científicas. O arqueólogo francês Bernard-Philippe Groslier, da Escola Francesa do Extremo Oriente, em Hanói (Vietname), cartografou a rede hidráulica de Angkor, pois este era um dos aspectos que suscitavam maior curiosidade no sítio. E nos anos 60, começou a existir a necessidade de mapear todo o local. Mas foi apenas em 1993 que surgiram as primeiras publicações, embora não constasse ainda a parte Norte de Angkor. Desde os anos 90, até porque foi então considerado Património Mundial da Humanidade, têm sido elaborados novos mapas do local com os templos principais, as áreas residenciais, os campos e as infra-estruturas. 

Em 2007, um grupo de cientistas coordenados por Michael Barbetti, da Universidade de Queensland, na Austrália, publicou na revista Proceedings of the National Academy of Sciences um estudo sobre a cartografia de Angkor e a sua rede hidráulica numa área de cerca de mil quilómetros quadrados (muito para lá do complexo). Com este estudo, Angkor foi assim considerado “o mais extenso complexo urbano do mundo pré-industrial”.

Visitas por satélite

No último estudo na revista Science Advances pretendia-se perceber as ameaças que põem em causa a sustentabilidade de Angkor. Para tal, a equipa usou imagens de satélites de observação da Terra, para visitar desta forma os templos do complexo arqueológico e ver, por exemplo, o efeito provocado pelas águas subterrâneas. Recolhidas pelos satélites europeus TerraSAR-X e TanDEM-X, que captam imagens de radar de alta resolução, as informações permitiram avaliar a deformação do solo e a instabilidade dos monumentos a um nível milimétrico, abrangendo 22 por 18 quilómetros do parque arqueológico de Angkor, entre 2011 e 2013.

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Um dos mapas de deformação do solo Chen/ <i>Science Advances</i>

O estudo mostrou assim que os monumentos se movimentaram cerca de três milímetros por ano, entre 2011 e 2013, e que não há sinais de destruição directa provocada pelas águas subterrâneas, como consideravam alguns cientistas. O trabalho também tornou mais claro que a degradação dos materiais dos edifícios, o crescimento da vegetação, as variações de temperatura e deformação do solo, provocado pela elevada precipitação na estação húmida, podem vir a originar a queda dos monumentos num futuro não muito distante. “As investigações no terreno demonstraram que a degradação dos monumentos é comum e, por vezes, é evidente a presença de fendas e desmoronamentos”, lê-se no artigo científico.

Com isto, Fulong Chen defende que o parque arqueológico de Angkor deve ser continuamente monitorizado com imagens de radar e análises geotécnicas, para que as derrocadas sejam evitadas. Para salvaguardar o local para as gerações futuras, em 1995 o governo do Camboja criou a Autoridade para a Protecção e Controlo de Angkor e da Região do Sião, que, segundo Fulong Chen, tem procurado melhorar as construções da rede hidráulica do sítio.

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Efeito da vegetação nos monumentos F. Cheng/Academia das Ciências da China

A equipa de Fulong Chen tem também planos futuros para Angkor: “Queremos investigar os impactos do crescimento do turismo na geologia dos templos e na sua periferia”, diz o investigador chinês. De 1993 a 2013, o número de turistas no local cresceu de dez mil para três milhões por ano, o que “pode aumentar a probabilidade e a frequência da queda dos monumentos”, adianta já este artigo científico.