Opinião

Repensar o Ensino Superior em função dos estudantes

Deve-se promover e garantir que as instituições de ensino superior consigam trabalhar mais com as comunidade estudantis.

A educação e a prioridade que lhe foi dada no desenvolvimento do país é uma das principais marcas dos 42 anos da democracia em Portugal. Sinal disso mesmo é a circunstância de todos os Governos Constitucionais após o 25 de Abril de 1974, terem colocado o Ensino Superior entre as suas prioridades programáticas. As estatísticas comprovam os resultados desse esforço nacional e, a título de exemplo, penso que é representativo o facto de nos últimos 25 anos ter quadruplicado o número de licenciados em Portugal.

Contudo, a Educação Superior e a forma como ensinamos não se desenvolveram como a investigação durante o mesmo período. Este facto foi confirmado pelo ranking Europeu, U-Multirank, que mostra que as universidades portuguesas são muito mais fortes a investigar do que a ensinar. Isso deve-se naturalmente a várias razões. Uma das razões relaciona-se com o sistema que, durante este período, se centrou demasiado no professor e nos investigadores e não tanto na dimensão “estudantes”. Acresce que o próprio estatuto da carreira docente universitária enfatiza, talvez em demasia, os resultados da investigação, menosprezando e desvalorizando a atividade de ensinar e, dessa forma, o relacionamento com os estudantes. Não significa isto, naturalmente, que a investigação não é importante, pelo contrário, ela é crucial.

O Ensino Superior nacional tem ainda um longo caminho a percorrer para dar uma resposta mais efetiva aos anseios e necessidades da sociedade portuguesa, particularmente numa época em que as famílias se vêem desafiadas por um desemprego jovem recordista, por dificuldades crescentes de integração profissional e por novas vagas emigratórias. Assim, qualquer instituição de ensino superior só cumprirá a sua função na sociedade quando a sua orientação – científica, pedagógica e mesmo administrativa – estiver focada no estudante e na sua integração na comunidade.

Em primeiro lugar, uma visão de instituição que tenha como eixo central “o estudante” permitirá e facilitará o desenvolvimento cabal da missão académica. Tal implica considerar o estudante no seu todo: a sua vocação, o seu perfil académico e as suas dificuldades, mas acima de tudo, o seu potencial. Mais do que uma fixação absoluta nos resultados e na produção de papers, uma instituição de ensino superior deve conseguir atender ao potencial de desenvolvimento das competências e capacidades de cada Estudante, num caminho de dois sentidos: dando resposta quando surgem as dificuldades, nomeadamente de insucesso escolar; mas também, em cada momento propondo novas estratégias para levar mais longe as capacidades dos estudantes de maior potencial, caminhando-se cada vez mais para um paradigma de educação personalizada.

Em segundo lugar, a centralidade do estudante requer que a organização da instituição não seja feita tendo em conta prioritariamente os interesses dos seus docentes e investigadores, mas antes colocando a orientação do desenvolvimento das suas carreiras ao serviço da missão central da instituição que deve focar-se no estudante.

Em terceiro lugar, há que considerar que o objetivo fundamental de uma instituição focada no estudante não passa apenas por ministrar com qualidade os conhecimentos de cada área científica, mas igualmente permitir e facilitar o desenvolvimento de um conjunto de competências pessoais, sociais e éticas que tornem os estudantes, além de profissionais capazes, em cidadãos ativos, plenos e atuantes sobre o mundo que os rodeia.

Em quarto e último lugar, é importante termos bem presente que uma cultura de ensino focada no estudante, antes de qualquer outra qualidade, requer muita exigência e rigor, responsanbilizando cada vez mais os estudantes, fazendo-os superarem-se a si mesmos. Devemos procurar criar condições para que o estudante desenvolva todo o seu potencial através de um conjunto de respostas estruturadas às suas necessidades e possibilidades, e aos seus interesses e exigências. O estudante deve ser a figura central no sistema de ensino superior, pelo que se deve promover e garantir que as instituições de ensino superior consigam trabalhar mais com as comunidade estudantis para que, garantindo-se uma formação técnica e especializada, a universidade incorpore métodos e práticas que envolvam mais os estudantes e estimulem uma cidadania mais ativa e um ensino mais humanista.

Reitor da Universidade Europeia