Francisco é “inimigo da Europa”, diz padre que tentou matar Papa

Juan Krohn, o espanhol que tentou apunhalar João Paulo II em 1982, vive em Bruxelas e procura manter-se longe dos jornalistas. Deixou de ser padre, mas continua no seu blogue as invectivas contra a Igreja.

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Krohn recusou alegar insanidade mental durante o julgamento Inácio Ludgero Visão/Reuters

Vive em Bruxelas, alimenta um blogue sobre temas de religião e até publicou um livro chamado “Krohn, o padre Papacida – Confissão e Apologia”. Juan Fernández Krohn, o padre espanhol que tentou assassinar o Papa João Paulo II, em 1982, em Fátima, deixou há muito de envergar a sotaina sacerdotal. Desde a capital belga, vai comentando a actualidade política e religiosa e, nas raras vezes em que se deixou entrevistar, assumiu que a intenção foi matar o Papa, embora se diga feliz por tal não ter acontecido. “Fi-lo e não me arrependo. Mas fico feliz por as coisas terem acontecido assim e por ter as mãos limpas. Não me manchei com sangue”, declarou, numa entrevista que a RTP transmitiu, em 2010.

Vivia por esses anos numa residência universitária em Bruxelas, onde, reconvertido em especialista em literatura, se dedicava à sua tese de doutoramento sobre o escritor espanhol Francisco Umbral, vencedor do prémio Príncipe das Astúrias em 1996 e do Prémio Cervantes, quatro anos depois. A sua esperança era então, uma vez terminada a tese, encontrar trabalho como professor. Ao longo dos últimos 35 anos, arrostou com o seu “gesto de Fátima” - como costuma chamar ao atentado – e fez de quase tudo para sobreviver: contabilista, advogado, agricultor, mecânico de bicicletas. “Nunca tive uma situação estável, por causa do meu passado. Perseguiu-me sempre, sem parar”, declarou, em Setembro de 2016, numa entrevista ao blogue http://soldadosdeunaidea.blogspot.pt. Quanto às razões que o levaram a apontar a baioneta a João Paulo II, enquadrou-as numa espécie de “reacção ingénua e desesperada para tentar remediar os males da Igreja” e a sua “autodestruição”. Foi assim uma “espécie de sacrifício”, nas suas próprias palavras.

Karol Wojtyla era, na cabeça do então jovem padre, um agente comunista infiltrado no Vaticano para destruir a Igreja Católica. Nascido no seio de uma família profundamente católica, em Madrid, Krohn tinha sido ordenado sacerdote em 1978 por Marcel Lefèbvre, fundador da ultraconservadora Fraternidade Sacerdotal Pio X, que recusava todas as mudanças instauradas pelo Concílio Vaticano II. Tinha acabado de fazer 30 anos quando é apanhado a gritar “Morte ao Comunismo, abaixo o Concílio Vaticano II”, de baioneta apontada a um aparentemente impávido João Paulo II, que, naquele 12 de Maio de 1982, estava em Fátima para agradecer o facto de ter sobrevivido ao atentado de que fora vítima um ano antes, em Roma, perpetrado pelo turco Mehmet Ali Agca.

As imagens de arquivo das televisões mostram Krohn alto, magro, já encurralado, de cabeção desapertado e sotaina desabotoada por causa da pressão feita pelos seguranças que protegiam João Paulo II. Então julgou-se que a lâmina passara a escassos centímetros do Papa e que o sangue que alguém vislumbrara pertencia a um dos polícias envolvidos na operação de protecção. Só mais tarde, em 2008, três anos depois da morte de João Paulo II, é que o seu antigo secretário pessoal, o cardeal Stanislaw Dziwisz, quebra uma reserva mantida durante 26 anos para sustentar que Wojtyla fora efectivamente apunhalado por Krohn.

O padre espanhol nega que tal tenha acontecido. E alega que as revelações que Dziwisz faz no seu livro “Uma Vida com Karol”, não passaram de “uma montagem pré-fabricada, uma invenção desonesta” que visaria distrair a opinião pública da conivência e da colaboração havida entre a Cúria Romana e altos funcionários do regime comunista polaco, durante o pontificado de João Paulo II. Ei-lo em discurso directo à Reuters: “Não será que o que se pretende é desviar por todos os meios a atenção da opinião pública no seu país em estado de choque desde há um ano, aquando das revelações de que altos membros da hierarquia eclesiástica polaca tinham serviço na polícia secreta do regime comunista?”. 

Naquela noite, o Papa prosseguiu com a visita. Já a vida de Krohn mudou radicalmente. Imediatamente detido foi julgado e condenado a seis anos e meio de prisão pelo tribunal de Vila Nova de Ourém. Contra o conselho do seu advogado, recusara alegar insanidade mental. Os médicos, de resto, declararam-no mentalmente são. Isto apesar de, durante o julgamento, se ter apresentado de pés descalços e sotaina verde, cingida por uma faixa vermelha em jeito de homenagem a todos quantos “se bateram contra o comunismo”. A dada altura terá mesmo puxado de um isqueiro para tentar queimar um poster vermelho com a figura de João Paulo II ao lado de uma foice e de um martelo.

Por ter chamado “fantoches, comunistas, assassinos” aos magistrados que lhe decretaram a sentença, foi condenado a mais sete meses de prisão. Durante o julgamento, repetiu que a sua intenção fora “atravessar o coração” de João Paulo II. Mas, ainda, antes de desferida a sentença, mostrava-se já menos combativo, apaziguado até. Numa entrevista ao El Pais, em 21 de Abril de 1983, explica que a sua intenção, mais do que matar o Papa, era dar testemunho das suas convicções, do tipo de espiritualidade em que cria: tradicionalista, avessa à mudança. Na prisão, “cada minuto que transcorre parece um século”.

Cumpriu apenas metade da pena. Durante os pouco mais de três anos de prisão, abandonou a sotaina primeiro, o sacerdócio depois. Nesse período terá, segundo a imprensa, iniciado um relacionamento amoroso com Maria Judite Lorena, uma portuguesa de 43 anos, divorciada, mãe de dois filhos e membro dos Adventistas do Sétimo Dia. Os dois ter-se-ão conhecido no locutório da prisão, onde um dos filhos de Maria Judite cumpria também pena. E terão equacionado casar-se no estabelecimento prisional, “com as condições mínimas de privacidade que o acto merece”. A informação, contudo, escorreu para a imprensa, o que os terá levado a desistir porque a publicidade então gerada era contrária ao “sentido altamente espiritual do enlace”, conforme noticiava em Julho de 1983 o diário espanhol El Pais. Aparentemente, os pais de Krohn também não terão gostado de saber dos planos matrimoniais.

Quando Krohn sai da prisão, recebe ordem de expulsão imediata do país. Sem qualquer hipótese de uma vida civil em Espanha ou mesmo em França, onde residia antes do atentado mas cujas autoridades negaram a sua entrada, optou por se radicar na Bélgica. Volta estar sob os holofotes quando, em 1999, é acusado de tentar incendiar uma sede do grupo separatista basco Herri Batasuna. No ano seguinte, em 2000, volta a ser detido pela polícia belga na sequência do seu protesto durante uma visita dos reis de Espanha à Bélgica.

Já com antecedentes por falsificação de documentos, é examinado por um psiquiatra que determina que não representava perigo social. Desta vez, quando foi libertado, terá prometido a seu filho manter-se longe de sarilhos. Ao que se sabe, tem conseguido manter a sua promessa. Mantém-se à distância dos jornalistas e não respondeu às tentativas feitas pelo PÚBLICO para o contactar. Tal não o impede de, a partir do seu blogue (juanfernandezkrohn.blogspot.pt) veicular as suas opiniões com contundência q.b. Numa das mais recentes, a propósito da vinda do Papa Francisco a Portugal, faz “um chamamento urgente a todos os espanhóis, católicos, agnósticos ou ateus” para que recusem uma (hipotética) visita a Espanha do Papa que apoda de “profeta da desgraça” e “inimigo da Europa”. “Não à visita do Papa. Ainda que me custe um novo mandado de captura internacional da Interpol como ocorreu há 17 anos (Maio de 2000) por ocasião da segunda visita de João Paulo II a Fátima”. Nos dias 12 e 13 de Maio, a polícia vai estar, uma vez mais, a seguir-lhe os passos.