Salgado terá desviado 7,75 milhões do alegado saco azul do GES para contas suas

Revelação é feita pela revista Visão que, como o Observador e a Sábado, teve acesso a interrogatório a Ricardo Salgado. Ex-banqueiro confrontado com cerca de 50 milhões de euros transferidos para Bava e Granadeiro.

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Zeinal Bava e Henrique Granadeiro PEDRO CUNHA

O Ministério Público descobriu que Ricardo Salgado, antigo líder do Grupo Espírito Santo (GES) e do respectivo banco, transferiu da Espírito Santo Enterprises, o alegado saco azul do grupo, 7,75 milhões de euros destinados à Savoices, uma offshore detida pelo próprio Ricardo Salgado. A revelação foi feita nesta quinta-feira pela revista Visão que teve acesso ao interrogatório a Ricardo Salgado, em Janeiro passado, onde o ex-banqueiro foi confrontado com os novos elementos recolhidos pelos investigadores.

O ex-banqueiro não negou as transferências, tendo justificado os movimentos para conseguir entrar, em 2010 e 2011, nos aumentos de capital do Banco Espírito Santo (BES), que então liderava. Salgado terá dito que só não devolveu a totalidade do dinheiro por não ter outros "recursos" para pagar a caução de três milhões de euros decretada no âmbito do processo Monte Branco, como bem saberia o procurador que lidera a Operação Marquês, Rosário Teixeira, igualmente o titular do Monte Branco. "Congelou-me as contas na Suíça!", queixou-se o antigo banqueiro, citado pela Visão.

Ricardo Salgado também foi confrontado com os cerca de 50 milhões de euros que a Espírito Santo Enterprises transferiu para os antigos administradores da Portugal Telecom (PT), Henrique Granadeiro e Zeinal Bava, entre 2007 e 2012. Tanto a revista Visão como o Observador revelam em pormenor os movimentos efectuados, que totalizam 24,5 milhões de euros (uma das transferências, feita em 2011, em francos suíços, foi convertida em euros de forma aproximada) para Granadeiro e 25,2 milhões para Bava.

Em 2007, foram transferidos cerca de 13,2 milhões de euros para os dois administradores da PT. A primeira transferência, dirigida a Granadeiro e no valor de seis milhões de euros, foi realizada a 9 de Julho desse ano. A 7 de Dezembro são encaminhados para o mesmo gestor 468 mil euros. No mesmo dia, Bava recebe na sua conta 6,7 milhões de euros. 

É o antigo presidente do BES que associa a Granadeiro uma conta no banco suíço Pictet, onde entraram, entre 2010 e 2012, cinco transferências que somam, no total, 18 milhões de euros . Em Janeiro de 2011, Bava recebe, por sua vez, 8,5 milhões de euros numa conta em Singapura de uma offshore. Em Setembro desse ano são remetidos mais 10 milhões de euros.

A revista Sábado, que também teve acesso ao interrogatório de Salgado, revela a justificação apresentada pelo último sobre estes movimentos financeiros. Em relação a Bava, o antigo banqueiro diz que o dinheiro transferido em 2011 se destinava a compensar a equipa que ia com o gestor para o Brasil reorganizar a operadora brasileira Oi, onde a PT entrara, um negócio que se demonstrou ruinoso para a empresa portuguesa.

Isto é, Salgado afirma que pensou, juntamente com Bava, numa “modalidade na qual se estabelecia uma operação fiduciária, que se destinava a constituir a âncora para segurar colaboradores portugueses que fossem para o Brasil”. Por essa altura, conta Salgado, pensava-se que o montante necessário podia chegar “a 20 ou 30 milhões”. Estas verbas transferidas para Bava acabaram por ser devolvidos pelo gestor à massa falida do grupo no Luxemburgo. Sem explicação ficaram os 6,7 milhões transferidos em 2007.

Transferências de Salgado para o Brasil

Quanto a Granadeiro, Salgado diz que uma parte dos valores transferidos foram para pagar uma colaboração que este deu ao GES, antes de ir para a PT, na "reorganização da área agrícola do grupo relacionada com a Comporta". Referiu ainda, segundo o Observador, uma consultadoria a José Manuel Espírito Santo e aos seus irmãos na reversão de maus investimentos na indústria cerâmica e a aquisição por parte da ES Enterprises de uma participação numa herdade vinícola de Granadeiro. Qual quinta? Não sabia. Que participação? Não se lembrava. E o contrato? Não chegou a ser redigido, disse Salgado, citado pela Visão.

No interrogatório Salgado foi também confrontado com os alegados pagamentos realizados a José Dirceu, braço-direito do então Presidente brasileiro Lula da Silva, e que foi já condenado a 23 anos de prisão no processo Lava-Jato.

Segundo a Visão, Salgado terá levado a administração da PT a realizar um pagamento de 500 mil euros ao responsável brasileiro, através de "pretensos contratos" de prestação de serviços com a sociedade de advogados Abrantes Serra, que já foi alvo de buscas no âmbito deste processo. Cerca de 1,2 milhões de euros terão igualmente chegado a Dirceu através da Espírito Santo Financial, outra empresa do grupo. Para tal, diz o Ministério Público, terão sido encenados outros contratos de prestação de serviços com o mesmo escritório, que justificavam uma avença mensal de 30 mil euros. Salgado garantiu que os montantes não tinham como destinatário Dirceu, mas o escritório de advogados.

Bataglia transferiu dinheiro a Santos Silva a pedido de Salgado

A Sábado transcreve parte substancial do interrogatório ao empresário luso-angolano Hélder Bataglia, onde este revela os “favores” que fez a Ricardo Salgado realizando pagamentos, a pedido deste, alegadamente ao amigo de infância de José Sócrates, Carlos Santos Silva. Bataglia relata que Salgado lhe pediu se podia “fazer um favor, porque tinha uns compromissos em que tinha de pagar cerca de 12 milhões de euros”. Questionado sobre se tinha conhecimento de que o destinatário era Santos Silva, o empresário diz que sim. “Ele [Salgado] perguntou-se se conhecia o Carlos Santos Silva e que era para entregar ao Carlos Santos Silva, exactamente”, cita a Sábado.

Apesar disso, Bataglia garante que desconhecia o objectivo da referida transferência, até porque, diz, naquela altura “era coisas que não se perguntavam ao dr. Ricardo Salgado”, informando que decidiu fraccionar ao longo do tempo as transferências.

Defesa de Sócrates: "A decência há muito que desapareceu do Ministério Público"

Em reacção às publicações da Sábado e da Visão, os advogados de José Sócrates, João Araújo e Pedro Delille, acusam em comunicado o Ministério Público de oferecer “uma cacha e os seus óbvios proveitos a jornais amigos, os mesmos que ajudaram a montar a chamada Operação Marquês”.

Denunciando que foi dado “aos jornalistas amigos o que se recusa aos advogados de defesa”, os representantes legais do antigo primeiro-ministro atiram: “De tão escandaloso parece que já não escandaliza ninguém. A decência há muito que desapareceu do Ministério Público."

A nota escrita termina dizendo que “depois de tanta investigação, estes novos depoimentos esclarecedores, apenas vêm confirmar que nenhuma ligação ao Engenheiro José Sócrates aos tantos milhões noticiados existe”. A defesa de Sócrates argumenta ainda que a “tese de uma fortuna escondida” foi também desmentida através das revelações publicadas nesta quinta-feira, bem como “a alegada proximidade com as pessoas interrogadas, aliás desmentidas por ambos”.