Torne-se perito

Administração Trump não se livra das dúvidas sobre a influência de Moscovo

Revelação de encontros entre Jeff Sessions e o embaixador russo, durante a campanha presidencial, reacendem polémica. Democratas exigem demissão, republicanos pedem dispensa das investigações à interferência da Rússia nas eleições.

Procurador-geral Jeff Sessions considerou Alegações "incríveis e falsas"
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Procurador-geral Jeff Sessions considerou Alegações "incríveis e falsas" LUSA/MICHAEL REYNOLDS

Por mais que se esforce por enterrar o assunto sob a designação de fake news, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, continua assombrado por suspeitas de ligações impróprias à Rússia. Depois de ter sido forçado a demitir o general escolhido para dirigir o conselho nacional de segurança, Michael Flynn, que mentiu sobre os seus contactos com o embaixador russo em Washington, o Presidente corre agora o risco de perder o seu Procurador-geral e mentor político, Jeff Sessions, acusado de mentir ao Senado sobre encontros com o mesmo representante de Moscovo, que manteve em segredo.

Tal como aconteceu com Michael Flynn, a Casa Branca saiu imediatamente em defesa do aliado do Presidente. Resta saber se a Administração conseguirá suportar a pressão (da oposição em bloco e também dos aliados republicanos) para manter no cargo equivalente a ministro da Justiça um homem cuja integridade está ferida por ter mentido sob juramento – num episódio que volta a levantar dúvidas relativas à suposta influência da Rússia sobre a Administração.

Os democratas não perderam tempo e assim que saiu a notícia no The Washington Post, segundo o qual o Jeff Sessions reuniu duas vezes com o embaixador Sergei Kisliak, em Julho e Setembro de 2016, exigiram a demissão do Procurador-geral. No período em causa, que é quando arranca em força a campanha eleitoral, as sondagens mostravam uma vantagem significativa da concorrente democrata, Hillary Clinton, cuja candidatura viria a sofrer mais tarde com a divulgação de mensagens pirateadas pela Rússia dos servidores do comité nacional do Partido Democrata e da sua campanha.

A notícia caiu como uma bomba não só porque o nome de Sessions não estava incluído na lista de personalidades ligadas ao Presidente Donald Trump que são suspeitos de uma excessiva proximidade a Moscovo, mas principalmente porque o Procurador-geral detém a supervisão das investigações às alegadas manobras russas para interferir com o resultado das eleições presidenciais dos Estados Unidos. A porta-voz do Departamento de Justiça já veio admitir que as reuniões aconteceram, mas desvalorizou as críticas da oposição às “omissões” de Jeff Sessions nas audiências do Senado.

Durante o processo de confirmação para o cargo de Procurador-geral, Sessions foi questionado, verbalmente e por escrito, sobre contactos com representantes do regime russo durante a campanha eleitoral. “Não”, negou o republicano. A sua porta-voz, Sarah Isgur Flores, esforçou-se por justificar essa resposta como verdadeira, dizendo que os contactos de Jeff Sessions com o embaixador russo decorreram no âmbito da actividade do comité de Forças Armadas e não como conselheiro da campanha de Trump – embora o primeiro encontro reportado pelo Washington Post tenha decorrido à margem da Convenção Nacional Republicana que indicou o magnata como candidato presidencial.

“Não me encontrei com nenhum russo, em nenhuma altura, para discutir campanhas políticas. Não sei de onde vêm estas alegações, que são falsas, mas não tenho mais nada a dizer sobre o assunto”, reagiu Jeff Sessions à NBC. O Procurador-geral disse estar disponível para pedir escusa da investigação do FBI à pirataria informática ou às ligações da equipa de Trump à Rússia, se “fosse necessário”: num sinal óbvio do incómodo que o caso está a gerar entre a maioria republicana no Congresso, vários senadores e congressistas vieram já dizer que isso é o mínimo que pode fazer.

Para não ter de se juntar ao coro pela saída de Sessions do governo, os republicanos apoiam a proposta dos democratas de nomeação de um procurador-especial e independente para dirigir a investigação ao papel da Rússia ao longo da campanha e à teia de interesses e ligações entre Moscovo e membros da Administração Trump.

Mas a polémica está lançada. “Embora as justificações do Procurador-geral possam estar correctas, no sentido jurídico, não parecem muito honestas ou reveladoras. Parece que ele continua a esconder qualquer coisa, que é a última coisa que o responsável máximo pela aplicação da lei deve fazer”, escrevia o conservador Washington Examiner.

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