Opinião

O novo PREC

O que mais me custa neste desnorte educativo da esquerda no poder é a falta de um projecto a pensar em quem mais precisa da escola.

Quando Tiago Brandão Rodrigues foi nomeado ministro da Educação saudei-o pois vi nele alguém novo, descomprometido com a situação educativa, que poderia trazer tranquilidade às escolas, depois de um período agitado. Não me pediu conselho mas dei-lho: era preciso incutir ânimo aos professores, saturados e desmotivados, transmitindo-lhe apoio e confiança.

Mas o ministro não trouxe tranquilidade às escolas nem ânimo aos professores. Num gesto que, infelizmente, tem tradições entre nós, fez tábua rasa do legado dos seus predecessores, iniciando o PREC, Processo de Reforma da Educação em Curso. Está no terreno uma nova reforma como se não estivéssemos todos nós – escolas, professores, famílias – fartos de mudanças educativas. O governo começou por extinguir, de supetão, as provas do ensino básico no final dos ciclos que serviam para conhecer melhor a realidade escolar. Para meu espanto ouvi o ministro dizer que os alunos não deviam ligar a provas: “Ninguém tem de se preparar para as provas de aferição”. Não demorou o anúncio da reforma curricular, um vendaval que envolve todas as disciplinas. O ministro quer fazer um “emagrecimento curricular”, como se a educação fosse uma gordura e ele um Dr. Tallon.

Do alto do seu andar da 5 de Outubro decidiu, sem avaliação ou estudo, encurtar os programas, designadamente os de Português e Matemática, em 25%, em favor de actividades participativas e lúdicas. Tal significa que, dos 12 anos de escolaridade obrigatória, três anos completos de Português e Matemática vão ser cortados, deixando que as escolas organizem a seu bel prazer a ocupação dos novos tempos livres dos infantes. Em suma: um aluno vai sair do 12.º ano apenas com o 9.º. Um momento simbólico do PREC foi a auscultação dos alunos sobre os currículos feita pelo próprio ministro numa escola de Leiria. Concluiu ufano: “Quando chegarem à altura de ter filhos vão saber que contribuíram para o que estão a aprender.” Em espantoso contraste, o ministro não queria ouvir as sociedades científicas, tendo apenas recuado logo que o silenciamento dos cientistas se tornou um escândalo público (uma, a de Matemática, ainda está excluída). Uma outra etapa do PREC foi a concatenação de um conjunto de conceitos gerais e abstractos, intitulado “Perfil dos alunos para o século XXI”, que deveriam ser o telhado da casa, a construir depois. Li no Expresso (18/2/2017) o anúncio do “homem novo” que estaria a nascer em Portugal, pitorescamente ilustrado pelo homem de Vitrúvio, e não acreditei: entre as dez “competências-chave” estavam as tecnologias mas não a cultura científica. Esperava tudo menos a secundarização da ciência por parte de um ministério encabeçado por um cientista. O documento aponta para o passado e não para o futuro.

Procurei algum fundamento lógico para o frenesim educativo, mas debalde. Os recentes resultados do TIMSS e PISA, que nos contentaram a todos, não fornecem qualquer base para uma reforma tão radical. O ministro fala pouco mas, quando o faz, não é pedagógico, preferindo repetir slogans. Por exemplo, fala do “Serviço Nacional de Educação”, sem que ninguém perceba o que isso quer dizer. Parece sobretudo obcecado pelo confronto político, ao exacerbar as diferenças em relação a Nuno Crato. Quer resumir tudo à dicotomia esquerda-direita. É óbvio que o anterior ministro cometeu erros, mais e mais graves na ciência mas também na educação, como a menorização da educação artística e da educação física e o exame de Cambridge. Estou à vontade para o dizer porque o critiquei na altura: nem tudo o que fez é mau. Por que há-de mudar toda a educação sempre que muda o ministro?

O meu coração bate à esquerda. Regozijei-me com a geringonça após os penosos anos da troika. O que mais me custa neste desnorte educativo da esquerda no poder é a falta de um projecto a pensar em quem mais precisa da escola. As vitimas da reforma anunciada serão, para além dos professores (desde há largos anos “carne para canhão”, isto é, munições na guerra política), os alunos, designadamente os das famílias mais pobres. Para estes uma escola mais pobre – menos avaliação, menos conteúdos, menos ciência - só lhes vai acrescentar pobreza, condenando-os à sua sorte. Menos, caro Tiago, nunca é mais, é sempre menos.