Portugal está a reconstruir a economia. Mas é sustentável?

Os números a divulgar esta quarta-feira pelo INE para o quarto trimestre de 2016 devem apontar para uma recuperação do investimento, confirmando alguns sinais positivos principalmente na construção. A dúvida é se a tendência será sustentável.

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A construção está a dar sinais de retoma em indicadores como o emprego ou a compra de materiais Enric Vives-Rubio

Depois da surpresa do crescimento forte do terceiro trimestre de 2016 e de uma aparente confirmação dos resultados nos últimos três meses do mesmo ano, as expectativas de um regresso da economia portuguesa a um ritmo de actividade mais alto e sustentável aumentaram. No entanto, há uma peça que ainda está em falta: o investimento. Poderá ser agora que, após desilusões passadas, este indicador recupera do marasmo dos últimos quinze anos?

Se há coisa em que os economistas de vários quadrantes conseguem concordar é que para que a economia portuguesa possa aspirar a uma retoma económica sustentável, é necessário que o investimento volte a crescer. Isso é algo que tem faltado a Portugal durante os últimos 15 anos, contribuindo de forma decisiva para a manutenção do crescimento potencial da economia em mínimos históricos.

O investimento tem registado, quase sem interrupções, uma trajectória descendente desde 2001. E entre 2011 e 2013, a queda acentuou-se, período ao qual se seguiu uma ligeira subida em 2014 e na primeira metade de 2015, compensada imediatamente por ligeira quebra entre meados de 2015 e o terceiro trimestre de 2016. Neste momento, o investimento está, em termos nominais, cerca de 35% abaixo daquilo que se registava em 2008, quando se iniciou a crise financeira internacional e ainda está 10% abaixo do nível de 1995.

Neste momento, dentro da zona euro, Portugal é o terceiro país com um peso mais reduzido do investimento no seu PIB, com um valor de 15,3% em 2015, que fica abaixo dos 19,7% que são a média dos países da moeda única e superando apenas Chipre e a Grécia.

Este cenário resulta de uma combinação de factores, de onde se destacam o elevado nível de endividamento das empresas, que limita o investimento empresarial, e das famílias, que dificulta a compra de habitações, as restricções orçamentais do Estado, que colocam o investimento público a um nível baixo, as fragilidades da banca que tornam a concessão de crédito mais rara e a incerteza em relação à evolução da economia, que afasta potenciais investidores estrangeiros.

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Esperança na construção

Compreende-se por isso que o investimento teime em não arrancar. Mas agora, tal como aconteceu algumas vezes durante a última década, atravessa-se uma fase em que, principalmente entre os responsáveis do Governo, existe alguma esperança de que possamos finalmente estar a assistir a uma inversão da tendência. Para o último trimestre do ano passado, os números oficiais do investimento serão divulgados esta quarta-feira, mas o Instituto Nacional de Estatística (INE) já assinalou, na estimativa rápida para o PIB que apresentou no início do mês, que se assistiu em Portugal entre Outubro e Dezembro do ano passado a “uma recuperação do investimento”, que contribuiu de forma decisiva para o crescimento do PIB em cadeia de 0,6% e para a aceleração da economia para uma variação homóloga de 1,9%.

É certo que, mesmo confirmando-se este resultado, estaremos apenas perante um trimestre de boas notícias, um período insuficiente para se chegar a qualquer conclusão em relação à sustentabilidade desta recuperação. Mas em simultâneo, há outros indicadores, alguns deles referentes ao arranque deste ano, que apontam para um sentido positivo. Especialmente no sector da construção.

Em Portugal, aquilo que tem vindo a acontecer ao investimento tem uma ligação muito estreita com a evolução do sector da construção. Na viragem do milénio, quando o investimento atingiu o seu ponto máximo, a construção representava cerca de 70% do total. Depois disso, esse tipo de investimento caiu mais do que o investimento total e actualmente o seu peso está já abaixo de 50% do total.

Há pequenos sinais nos indicadores que vão sendo revelados pelo INE que dão grandes esperanças à fileira da construção para acreditar que o ano de 2017, e também o de 2018, vão ser anos de crescimento. 

José de Matos, presidente da Associação Portuguesa dos Comerciantes dos Materiais de Construção (APCMC), recorda que a recuperação da fileira da construção, a braços com um pesado ajustamento há quase uma década, deu os primeiros sinais em 2014 e teve um ano de franca recuperação em 2015. Mas a forma como se comportaram esses mesmos indicadores durante o primeiro semestre de 2016 levaram-nos a temer o pior: “a maior parte dos empresários registava volumes de vendas muito inferiores a 2015”, afirma o presidente da APMC, recordando que o investimento público sofreu “um corte gigantesco de mil milhões de euros”, e que as obras do Portugal 2020 demoravam a ver-se no terreno.

O que já se conhece do último trimestre de 2016 permite-lhes, porém, respirar com algum alívio. “Acreditamos que no ano de 2017 e de 2018 já vamos registar taxas de crescimento entre os 5 e os 10%. Continuamos a sofrer os problemas de um país que continua ‘ligado à máquina do BCE’, e muito dependente de questões externas, mas não podemos negar que o que temos pela frente são sinais muito positivos”, argumenta José de Matos.

E que sinais são esses que animam o sector da construção? As notícias positivas não vêm tanto do aumento dos consumos, do ferro ou do cimento – que ainda assim registaram uma tendência ascendente na segunda metade de 2016, mas que devem ficar no total do ano abaixo do ano 2015 - mas mais dos  pedidos de licenciamento de obras para construção nova (cresceu 13,2% face ao quarto trimestre de 2015), dos anúncios de obras públicas e do número de contratos celebrados (variações anuais positivas de 42% e de 12%, respectivamente). 

O presidente da APCMC sublinha a “inércia” que sempre vive o sector, referindo-se ao tempo que estes sinais levam para se sentirem no terreno. “Vai dar-se como no caso da reabilitação. Andamos há anos a falar dela, mas só agora é que ela se tornou visível, sobretudo nos centros das grandes cidades”, recorda José de Matos. 

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Pode ter demorado tempo, mas a reabilitação urbana parece mesmo querer liderar este processo de retoma. O barómetro organizado pela AICCOPN-Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas confirma-o, apontando para que esta área da construção tenha terminado o ano com uma variação positiva de 10,1%. José de Matos recorre às estatísticas internas para sublinhar que entre os vários sectores de empresas de comércio que representa, é o subsector retalhista (aquele que vende mais produtos de acabamentos, relacionados com a reabilitação e os equipamentos) que cresce bem mais do que o subsector armazenista ( mais relacionados com a logística das empreitadas de obras públicas). 

Aqui, o turismo tem desempenhado um papel fundamental para esta nova dinâmica que já se sente na construção. O aumento do investimento privado em imobiliário é visível, e explicado pela captação de investidores estrangeiros (o poder da atractividade dos vistos gold e do regime de tributação de residentes não habituais),  mas também face a um contexto de baixas taxas de juro para remunerar investimentos e à fragilidade do sector financeiro. “Os investidores preferem aplicar as suas poupanças mais no imobiliário do que na banca”, sintetiza o presidente da Confederação e do Imobiliário, Manuel Reis Campos. 

Para já, o peso da construção no investimento não tem sofrido grandes alterações, continuando a representar ligeiramente menos de metade do total da recuperação no último trimestre, mas mantendo-se negativo em 2016. Contudo, outro sinal visível de uma recuperação do sector pode ser aferido na criação de postos de trabalho. O sector da construção e do imobiliário vai encerrar o ano de 2016 com a criação líquida de 22.994 novos postos de trabalho face ao ano anterior e com 75.834 desempregados registados nos centros de emprego - o número mais baixo dos últimos oito anos.

Reis Campos diz que se a evolução ao nível do investimento público não fosse negativa, o efeito positivo ao nível do crescimento económico e da criação de emprego teria sido muito maior. “A verdade é que apesar das dificuldades que o sector ainda atravessa, em 2016 a construção e imobiliário já representaram 28% do emprego líquido criado. Ou seja, concretiza Reis Campos, “foi responsável por um em cada quatro novos postos de trabalho criados em 2016”.

Este tipo de esperança acabou, noutras ocasiões, por não superar o teste da realidade. A última vez foi em 2015, quando depois de conhecidos os dados da evolução do investimento no primeiro semestre, se pensou que este indicador tinha finalmente encontrado um novo rumo. Mas a partir do terceiro trimestre desse ano registaram-se números que voltaram a desiludir.

Impulsos positivos como aqueles que estão a ser dados pela onda de turismo e investimento imobiliário, ou que podem vir a surgir de uma aceleração da execução do programa de fundos comunitários, podem ser demasiado pequenos para contrariar as forças negativas geradas pelo elevado nível de endividamento da economia que está ainda por resolver. Até porque o investimento que mais impacto poderá ter no crescimento potencial da economia é aquele que for capaz de aumentar a produtividade do país e acelerar a capacidade das empresas para competirem com o exterior.

Uma coisa é certa: na discussão entre as instituições da troika - que consideram que a retoma não é sustentável e que Portugal crescerá pouco acima de 1% nos próximos anos – e o Governo – que acredita que estamos a assistir ao regresso do país a taxas de crescimento mais elevadas –, o factor mais decisivo será o rumo que for seguido pelo investimento.