Sócrates regista “consonância entre insinuações de Cavaco e suspeitas da Operação Marquês

“Um homem que é capaz de fazer isto é capaz de fazer tudo”, disse Sócrates de Cavaco, referindo-se ao caso das escutas a Belém de 2009.

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Sócrates foi entrevistado na noite desta segunda-feira na TVI LUSA/ANDRÉ KOSTERS

Numa entrevista em que usou palavras muito duras para responder às críticas de Cavaco Silva, cujo livro Quinta-feira e outros dias descreveu como “um vil e mesquinho ataque” contra si, José Sócrates disse esta segunda-feira, em entrevista à TVI, que reparou, a dado momento, numa “certa consonância entre as insinuações do [antigo] Presidente da República e as suspeitas do Ministério Público, que o visam na Operação Marquês, em que é suspeito de corrupção, fraude fiscal e branqueamento de capitais. E defendeu a ideia de que Zeinal Bava e Henrique Granadeiro foram constituídos arguidos neste processo apenas para lhe darem um aspecto de “substância”, aproveitando o facto de estarem já a ser investigados num outro, o caso Rio Forte (sobre transferências de verbas entre a então PT que administravam e o Grupo Espírito Santo).

Sócrates garantiu nunca ter intervindo na Caixa Geral de Depósitos (CGD) para esta, enquanto accionista da PT, votar contra a Oferta Pública de Aquisição (OPA) da Sonae sobre a empresa de telecomunicações. Também vincou que, mesmo que a CGD tivesse votado a favor da OPA, os votos do banco público não teriam chegado para que a tentativa de aquisição tivesse sucesso. Com isto, pretendeu evidenciar que não faria sentido o ex-líder do Banco Espírito Santo, Ricardo Salgado (também arguido na Operação Marquês) corromper o primeiro-ministro para influenciar a Caixa a adoptar uma posição que era irrelevante.

José Sócrates também garantiu que a única vez que interveio na gestão da PT foi quando se pôs a hipótese de a empresa vender por completo a participação na Vivo, por o antigo primeiro-ministro considerar estratégico para o interesse nacional manter a presença no mercado brasileiro.

PÚBLICO -
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Sócrates mostrou impressão de um email trocado entre dois jornalistas do PÚBLICO DR

Vítima de "um padrão"

O ex-chefe de Governo disse-se vítima de “um padrão” no comportamento da “direita política” portuguesa, comportamento que estendeu a Cavaco Silva e ao Ministério Público: quando não consegue vencer o adversário com melhores políticas, argumentos ou retórica, ataca-lhe o carácter. Sócrates disse, aliás, que é o que tem acontecido com o actual Governo PS, a quem reconhece “um indiscutível sucesso” que leva a oposição de direita a atacar o carácter do actual primeiro-ministro, chamando reiteradamente “mentiroso" a António Costa.

A afirmação, de Cavaco, no livro Quinta-feira e outros dias, de que o Governo de Sócrates teria pedido à Caixa Geral de Depósitos para conceder uma garantia a uma empresa concorrente à construção da Auto-Estrada Transmontana, é para Sócrates, uma falsidade facilmente refutável. A reunião sobre esse assunto aludida por Cavaco é por este situada em 2009, quando o concurso para a auto-estrada tinha sido lançado em 2007.

Mas é sobretudo a propósito do caso das escutas a Belém, também de 2009, que Sócrates ataca Cavaco com mais violência. Afirma que o email do jornalista do PÚBLICO revelado pelo DN, um email privado cujo fac-símile o antigo primeiro-ministro leu na entrevista, o livro do ex-assessor de Cavaco, Fernando Lima, são duas “provas” de que o ex-Presidente “arquitectou uma tramóia”, uma “conspiração”, que visava difundir a ideia de que o Governo de Sócrates espiava electronicamente Belém. “Um homem que é capaz de fazer isto é capaz de fazer tudo”, sentenciou Sócrates.