A Rodrigues junta-se à lista das livrarias abatidas na Baixa lisboeta

Generalistas por necessidade, os alfarrabistas do Chiado gerem trunfos no mercado dos livros baratos em (mais do que) segunda mão e os livros raros de coleccionador. Há modelos vencedores e lojas que se arrastam. Outras que esperam reinventar-se a tempo.

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A Livraria Rodrigues tinha duas portas. Ocupava um grande espaço entre as ruas do Ouro e dos Sapateiros, na baixa pombalina, em Lisboa. Hoje nenhuma destas portas está aberta. Os vizinhos dizem que “migrou para o online.” Na internet, havia um pedido de ajuda.

“A primeira sede do modernismo em Portugal, a segunda mais antiga livraria de Lisboa está em risco.” São os últimos prenúncios publicados no Facebook da livraria fundada em 1863. Em baixo, uma petição, “SOS Livraria Rodrigues”, pedia assinaturas para levar a crise da livraria que foi sede da revista Orpheu a mais altas instâncias.

A petição não resultou. O risco anunciado concretizou-se. “Por execução de clausulado de contrato de arrendamento, a Livraria Rodrigues ficou reduzida a esta pequena parcela. Não é, neste momento, possível equacionar se poderá voltar a ter condições que lhe permitam funcionar”, lê-se na actualização da petição. O PÚBLICO não conseguiu chegar a fala com a proprietária. O site também já não está disponível.

Vender online, abrir a porta para entregar

Na Livraria Rodrigues, já se notava o quão longe estavam os tempos em que era editora de livros escolares. Nos últimos anos, tornara-se outlet, vendia apenas livros com mais de 18 meses, a partir de 50 cêntimos.

A proprietária já só “vinha de vez em quando”. Fazia as vendas online e na loja entregava em mão. João Fernandes conta a história, atrás do balcão da ourivesaria onde está há 15 anos. A Isaura, a sua loja, já ali está há mais de 70. Sempre vizinha da Rodrigues. Quando aqui chegou a livraria tinha “muito movimento”. Conhecia os três empregados permanentes. Também lá comprou muitos livros. “Havia oportunidades únicas.”

Nos últimos tempos, havia livros na montra e os clientes vinham perguntar à ourivesaria quando é que a livraria abria. João nem sabia responder. Eles iam à internet, ligavam e “resolviam a questão”.

O caso da Livraria Rodrigues é sintomático da rua do Ouro, como é da baixa pombalina. Também a João já lhe ofereceram para sair. “Ora uma pessoa está aqui a vida inteira, toma dez tostões e vai-te embora? Comigo não que quero para os meus filhos.” Nem todos se podem “dar a esse luxo”.

Das 26 livrarias do roteiro livreiro do Chiado feito pelo pelouro da cultura da Câmara de Lisboa em 2000, oito fecharam. Três saíram do Chiado.

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Generalista “por necessidade”

A Livraria Sá da Costa já não editava a famoso livro de culinária dos anos 20 “Doces e Cozinhados” de Isalita, desde 2006. Nesse ano ia já na 28º edição. Pedro Castro e Silva orgulha-se de agora o reeditar. “A Sá da Costa enquanto editora era muito popular”, chegou a editar mais de 70 livros, entre eles várias obras de Frei Luís de Sousa, Gil Vicente e Luís de Camões.

Alguns desses exemplares estão de volta às montras das ruas Garrett e Serpa Pinto. Mas esta livraria já não é uma editora. Ainda que não se queira desligar dessa história. 

Dois meses depois de completar 100 anos, a Sá da Costa fechava por insolvência. Era Julho de 2013, uma semana depois do encerramento da livraria do Diário de Notícias, no Rossio. A 30 de Maio de 2014 voltava a abrir portas à experiência, com outro dono, como alfarrabista. Três anos depois, o gerente, Pedro Castro e Silva, é categórico: resultou.

Pedro, terceira geração dos alfarrabistas Castro e Silva, está desde os anos 90 no mercado do livro usado. Não tem solução para a crise dos outros. O seu modelo resultou mas pode ser caso único, adianta. Junta o alfarrabista antigo com os “livros de ocasião”. Tem os livros mais baratos e mais usados e os raros, os que circulam "fora do mercado normal do livro antigo". Tenta não olhar só aos coleccionadores. É generalista “por necessidade.”

Estar no Chiado é determinante. "Se a livraria não estiver aqui, é difícil que as pessoas a vão procurar". Por outro lado, “para uma livraria que não se saiba reinventar”, as rendas tornam o negócio “inviável”. Ainda para mais um negócio que precisa de tanto espaço para armazém. "Só se tiver uma marca por trás é que consegue continuar activa”, acredita Pedro.

É essa mesma a razão por que Álvaro Brito está atrás do balcão de uma livraria. É da editora Sistema Solar (que já foi Assírio Alvim). A livraria, uma das mais recentes da baixa, abriu há nove anos, no fundo do largo que entra pelo número 10 da Rua do Carmo.

“Que se ande à procura do que ainda falta”

Claro que nada é como quando Pedro começou: Portugal acabava de entrar na Comunidade Económica Europeia (CEE), a maioria dos livros eram subsidiados, as empresas faziam publicações próprias e até tinha dificuldade em comprar livros. "Tudo o que aparecia à venda desaparecia logo. Tudo o que comprávamos vendia-se sempre”.

A Internet veio baralhar as contas. Os livros tornaram-se menos raros. Qualquer um pode ser alfarrabista de sofá e “um livro pode chegar do Japão em dois dias”. A concorrência explodiu. “É óbvio que só ajudou quem aderiu” e Pedro viu muitos colegas de profissão ficarem à margem. Compra a maioria dos livros online, mas a livraria ainda não tem site

"E se por um lado ganhamos muito tempo - a impressão pode ser feita em minutos em casa -, por outro perdemo-lo pela quantidade de coisas que temos para fazer", explica Pedro. Onde fica o tempo para ser criativo, "nesta área que pede todos os dias ideias novas"? Sem ter resposta, Pedro acha impossível começar hoje do zero no negócio dos livros.

Viu várias editoras fecharem a porta para ficarem só na Internet. Vê o mercado mais dependente das pequenas editoras. Conta, mais do que as livrarias, a crise das leiloeiras de livros. Já são raras em Portugal, diz Pedro. A maioria daquelas a quem compra são leiloeiras de antiguidades, não especializadas em livros.

Todos notaram um “medo do digital” que não se concretizou. “As pessoas amam o papel”, diz Álvaro Brito, 31 anos, ar de mais novo ainda, incluído nessa geração “que supostamente só ia ler livros no tablet.”

“Mas os espaços em Lisboa estão estagnados. Não há nova oferta.” É difícil arranjar quem concorra com a FNAC e a Bertrand. “Quem tem espaço para arrendar, não vai abrir lá uma livraria”, diz, mas talvez uma livraria-bar como a Menina e Moça que abriu a semana passada no Cais do Sodré. “Que se experimente e ande à procura do que ainda falta”, incita. Há sempre coisas a faltar.

Sair do Chiado, na opinião de Álvaro, pode ser uma solução: “Estando tudo muito concentrado, a concorrência vai sempre matar os novos e pequenos.” Foi o que fez a livraria e galeria Stuart com novo nome e morada: é a Livraria Alfarrabista de Eduardo Martinho no Largo de Santa Clara. Como a Livraria Histórica Ultramarina que trocou o Chiado pela Rua de São Bento e a Livraria Artes e Letras, agora na Avenida Elias Garcia.

Geração não se renova

José Teixeira da Mota, de 72 anos, está sozinho na loja, não tem vida para andar a correr ao correio para enviar livros. Também é da opinião que a migração total para a Internet seria o tiro fatal para o Antiquário do Chiado. "Vendendo livros a 5 euros nem dá para a renda de casa. Quanto mais a renda da loja."

Engenheiro civil, comprou a loja em 1990. Era difícil imaginar que iam acabar os tempos em que as dúvidas eram esclarecidas na enciclopédia e se tiravam os tamanhos aos livros para fazer prateleiras à medida. Diz que não deu para antecipar a chegada da Internet e dos novos hábitos de consumo.

A geração de coleccionadores não se renova. Aqueles que entravam na loja com uma lista dos livros que lhes faltavam, têm agora “mais de 50 anos" e filhos "já não têm sede de ler livros", quanto mais da colecção. Na Internet, praticamente só vende para o estrangeiro. São "os bons livros" que envia para bibliotecas, universidades ou "coleccionadores grandes como ainda há lá fora".

A loja está igual a essa altura em que se compravam gravuras e as prateleiras tinham o tamanho dos livros. Na loja de porta pesada, José senta-se numa cadeira ao centro, rodeado por livros, como que enterrado neles. A loja está cheia e escura. Havia mais uma livraria nesta rua, lembra-se, para além da Bertrand, a mais antiga do mundo, com quem quase partilha paredes.

Agora faz-se ali, na Rua Anchieta, todos os sábados uma feira de alfarrabistas, com livros muito baratos.

"Este mês que passou ainda vendi três ou quatro bem vendidos. Não fomos muitos, mas foram caros” - Este é um modelo que resulta para o dono do Antiquário do Chiado, garantem-lhe os 27 anos de profissão. "Quer saber porque é que estas lojas acabam? Nenhum livreiro tem um filho que queira vir para aqui." É mais uma geração que não se renova.

“A Fnac fica aberta e nós fechamos às 19h?”

A porta da livraria Ferin já pareceu ter o tamanho e um peso de um muro, a separar o frenesim da rua Nova do Almada de uma livraria parada no tempo. José Pinho, dono da Ler Devagar (uma livraria com café no Lx Factory), comprou há seis meses esta que é a segunda livraria mais antiga da Lisboa. Tem como garantido que “só a vender livros não dá nem para pagar a renda.” Afinal “há livros a pontapé nos supermercados, até nas bombas de gasolina.” Então as livrarias têm que oferecer algo que não há fora delas, diz.

Por isso, a 21 de Março, é apresentado o plano de actividades de “uma livraria renovada”. É a Primavera da Ferin. Por essa altura estará pronto o auditório e duas novas salas: uma com livros baratos e infantis, outra com livros raros. Os três novos espaços já existem, na cave – “estão ali para escritórios, sabe Deus porquê”. Nas traseiras – que poucos sabem que existem – vai nascer um café/bar com entrada pela Rua do Crucifixo, à porta do metro.

Para derrubar de vez o “muro” para a rua, a Ferin vai alargar o horário, pelo menos até à meia-noite ao fim-de-semana para acompanhar a dinâmica do Chiado. “A FNAC fica aberta e nós fechamos às 19h?”, interroga o dono.

É certo um adeus ao site da loja. José Pinho acha que o online é um negócio que as livrarias não sabem fazer. “Estas livrarias ou vendem livros aqui ou não têm razão de ser”, acredita.

A Ferin, que já chegou a facturar 600 mil euros por ano, agora factura metade. Tem três anos para dar a volta ao negócio e esperar uma mudança na lei das rendas: no fim do actual contracto de arrendamento, a renda pode escalar para 12 mil euros. Já foi avisado.

Mesmo assim, a Ferin prepara-se para remar contra a maré. Tem sete funcionários e quer crescer. 

Notícia corrigida: Dono da Ferin chama-se José Pinho, não Pinto como inicialmente escrito

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