Tumores malignos já são responsáveis por um quarto das mortes

Num século, a esperança de vida à nascença mais do que duplicou em Portugal.

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Rui Gaudencio

“Portugal assistiu a dois tipos de transições, a demográfica e a epidemiológica, como é típico das sociedades mais desenvolvidas”, assinala o presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, Ricardo Mexia.

Se antes se morria muito em Portugal por doenças transmissíveis e agudas, actualmente predominam as doenças crónicas e degenerativas, sobretudo as cardiovasculares, os tumores malignos e a diabetes, e o sistema de saúde ainda não foi “reorientado” para esta realidade, nota Ricardo Mexia. “O sistema de saúde ainda é muito hospitalocêntrico, ainda se gasta muito pouco em prevenção”, lamenta o médico.

De que se morre hoje em Portugal? Sobretudo ainda de doenças do aparelho circulatório (cerebro e cardiovasculares), apesar da acentuada redução da mortalidade por estas causas que se tem vindo a registar nas últimas décadas (ainda na década de 80 do século passado estas patologias eram responsáveis por 45% do total dos óbitos).

A segunda causa de morte, que se tem vindo a aproximar-se gradualmente da primeira, são os tumores malignos -  em 1955, representavam apenas uma fracção reduzida dos óbitos (7,6%).  Em 2015, de acordo com os últimos dados que o Instituto Nacional de Estatística divulgou na semana passada, os tumores malignos foram o motivo de 24,5% do total de óbitos, enquanto as doenças respiratórias continuavam a ser a terceira causa de morte em Portugal (12,4%).

A diabetes tem igualmente relevância na mortalidade, sendo responsável por mais de 4% dos óbitos, uma proporção quase idêntica à das doenças do aparelho digestivo. Para combater este cenário, prescreve Ricardo Mexia, é preciso "apostar na actividade física, na melhoria da dieta, na visita regular aos médicos, na cessação tabágica". 

A boa notícia é a de que, ao longo de todo o século XX e na primeira década deste século, a esperança de vida à nascença mais do que duplicou em Portugal. Se, em 1920, a esperança de vida à nascença se ficava pelos 35,82 anos para os homens e 40,06 para as mulheres, em 2014, segundo os últimos dados disponíveis, estes valores passaram para 77,4 anos e 83, 2 anos, respectivamente. Em 2015, havia já mais de quatro mil portugueses com 100 ou mais anos.

Foi uma recuperação fenomenal, porque Portugal partiu de uma posição muito desfavorável e encontrava-se numa etapa de combate à mortalidade muito mais atrasada face a outros países da Europa Ocidental. A mortalidade infantil foi descendo ao longo dos anos de uma forma impressionante, sendo hoje uma das mais reduzidas do mundo.

É este aumento da esperança de vida que acaba por se reflectir também no progressivo envelhecimento da população. Em 2015, Portugal era o quinto país com o índice de envelhecimento (número de pessoas com 65 e mais anos por cada 100 pessoas menores de 15 anos) mais elevado da União Europeia, a seguir à Itália, Alemanha, Grécia e Bulgária. Um envelhecimento que não tem sido compensado pelo aumento das taxas de natalidade e de fecundidade, nem pela entrada de imigrantes, que poderiam ajudar ao rejuvenescimento da sociedade portuguesa.