O raposão saiu da toca

O mal das quintas-feiras é ser um dia depois da quarta e antes da sexta, o que vale dizer que há mais dias na semana.

O raposão saiu do covil. Veio com o crepúsculo que é a hora dos predadores; Quando a luz se esvai. No olhar trazia uma carga de ressentimentos. Deixou o trono amargurado e voltou atormentado pelas boas contas que o país vai fazendo à nova maioria.

Bem desfraldou as bandeiras da NATO e da União Europeia sobrepondo-as às de Portugal; os portugueses não o satisfizeram. Ele não queria o novo governo, não queria mesmo e não indigitou o primeiro-ministro, indicou-o. Ele é que sabia quais as escolhas do país e saiu carregado de rancores, despeitado, sofrendo por causa da normalidade restabelecida. O rasto ali está, sempre o mesmo, o de um homem que se crê acima dos outros. O Professor de York. E há os que o acham. É o que ele quer ouvir. Está-lhe na massa do sangue.

Envergava o traje seráfico de madeira carcomida por dentro. Ele que já envergou vários consoante as estações. Quem pode esquecer o exuberante fato da cooperação estratégica com o homem das quintas, então cheio de força e apoio…Para subir a Belém e aí viver mais dez anos, o homem que não fazia política e decidia sempre bem e com conhecimento de causa e sem se enganar não lendo jornais, uns anos antes.

Antes, muito antes, também chegou à Figueira da Foz professoral e seraficamente despachou o doutor Salgueiro para vários circuitos junto dos bancos.

O raposão é o mesmo que a certa altura no governo do homem das quintas entendia que não eram suportáveis os sacrifícios dos PECs e já não achava insuportáveis, mais tarde, os múltiplos cortes da dupla dos sempre em pé, aguentando-os mesmo quando o comprador de submarinos quis subir uns furos na hierarquia governamental.

Não é que fosse capaz como o famoso autor do livro intitulado O Príncipe, mas o homem de Boliqueime que andou por York tinha no ADN a ambição desmedida de determinar o curso da política e sobretudo satisfazer dissabores e levar avante as suas vinganças que o consumiam por dentro da alma negra de miso.

Calculou o tempo do salto, antes de 17 de março, mas não muito próximo para não parecer o que era. Diz o senhor professor que são memórias…poder-se-á chamar memórias aos assuntos de anteontem? Pelos vistos, apesar da mornidão do relatado. 

Pelo regougo veio à grande cidade dizer que sabia umas coisas sobre as quintas-feiras que é o dia do qual ele se lembra num certo período, antes da chegada da dupla dos sempre em pé, essa sim, uma séria, europeia, vocacionado para os combates da NATO, submissa aos mercados e disposta a fazer os portugueses pagarem os prejuízos dos bancos.

Segundo a personagem tinha contas a prestar e dentro desta lógica de contas o importante tinha a ver com as quintas-feiras, um dia como os outros não fora os atrasos do hóspede que tanto arreliavam o anfitrião.O mal das quintas-feiras é ser um dia depois da quarta e antes da sexta, o que vale dizer que há mais dias na semana. Os raposões de tão espertos negligenciam o que os outros sabem e nem o melhor disfarce veda a possibilidade de memórias mais antigas que envolveram a entourage de Sua Excelência.

Rodeou-se de grandes empreendedores que de tão empreendedores empreenderam viver à custa de meios que lhes não pertenciam e hoje aguardam a sua prestação de contas nos diversos Domus Justitiae, naturalmente cavalheiros que nunca tiveram o desplante de chegar atrasados não só ao chefe; apenas eram afoitos no abocanhar a tempo o que era de outros.

Deve esclarecer-se para bem da verdade que tudo isto se passou ao ritmo dos sete dias que o calendário Gregoriano, o que se seguiu ao Juliano, nos deu de segunda ao domingo; daí que nos outros dias que estão para além da quinta acólitos do Santo raposão se tivessem aproveitando para chegar bem cedinho, pela alba, ao pé daquelas instituições que abarrotam de vil metal.

Nada disso o atormenta. Deixa-os cair com o estrondo que se sabe, nalguns casos o som é abafadíssimo pelos amigos dos amigos. Vai em frente. Se pesam, que caiam. Ele é que não pode cair. Os homens providenciais de tão de assim serem têm sempre à mão os seus homens, incluindo os descartáveis.

O raposão saiu do covil para dizer que existe e não perdeu o olhar carregado de ressentimento por não fazerem o que ele queria que se fizesse. O rasto até ao local da apresentação da existência é o dele. Cuidado.