Trump num ninho de espiões e a “russificação” da América

O desvario da Casa Branca não parece ter limites. Quanto mais mentem, mais negam os factos e acreditam na mentira.

Robert Littell, um antigo jornalista americano e autor famoso de romances de espionagem (como A Companhia, uma viagem no interior da CIA), admite que o Presidente criança (ou estagiário), como chama a Donald Trump, poderá ser destituído na sequência das inconfidências da comunidade dos serviços secretos que ele vem hostilizando, depois de os ter associado à Alemanha nazi. O mesmo se passa com o sistema judicial ou os media, repetidamente insultados: ainda anteontem, pelo menos oito órgãos de informação, entre os quais a CNN, o The New York Times ou a BBC, foram excluídos de uma conferência de imprensa na Casa Branca. Littell lembra, a propósito: a comunidade dos serviços secretos consiste em 17 organismos ou entidades – sendo a CIA e a NSA os mais célebres – que empregam 850 mil pessoas. Sim, 850 mil!

A conexão entre esses ódios de estimação de Trump pode precipitar a sua queda. Segundo Littell, num artigo traduzido por Le Monde, “os jornalistas políticos baseados em Washington, que mantiveram contactos, ao longo dos anos, com a comunidade dos serviços secretos, farejam um novo Watergate. Eles terão a sua carreira assegurada nos meses e anos que se seguem se conseguirem infligir um golpe no ego superdimensionado de Donald Trump ou, ainda melhor, obrigar os eleitos republicanos reticentes na Câmara dos Representantes a fazer passar o país antes do seu partido e a destituí-lo”.

Littell insiste: “Donald Trump está em grande dificuldade. Sabe-se que, desde há anos, vende bens imobiliários a russos ricos. Sabe-se que tenta, até agora em vão, instalar a marca Trump em Moscovo. (Teve visivelmente mais sucesso com a China: agora que retomou o princípio da “China única”, Pequim concedeu à sua empresa a possibilidade de utilizar a marca Trump na China). Ao recusar-se a tornar pública a sua declaração de impostos – contrariamente a todos os candidatos à presidência nos últimos quarenta anos –, Donald Trump alimenta a suspeita de que o seu império comercial é financiado por bancos russos. A sua falta de pressa em criticar as violações dos direitos humanos pelo Kremlin, a sua recusa em admitir que a Rússia interveio para ajudá-lo a ganhar as eleições, o número de pessoas do seu séquito com relações duvidosas com Moscovo (…), tudo isso suscita a desaprovação”. Além disso, a comunidade dos serviços secretos americanos “confirma, apesar dos desmentidos de Trump, a existência de contactos repetidos entre responsáveis dos serviços secretos russos e membros da equipa de Trump no decurso da campanha presidencial”.

É para isso que um colunista do New York Times, Roger Cohen, chama a atenção: “a russificação da América sob Trump está a processar-se rapidamente. O autoritarismo machista de Vladimir Putin, o seu desdém pela imprensa e o seu escárnio face à verdade instalaram-se nas margens do Potomac”. Apesar das tentativas de distanciação e moderação ensaiadas pelo vice-Presidente e o secretário da Defesa nas suas recentes visitas à Europa, a trajectória cada vez mais errática de Trump não assegura qualquer coesão e consistência na sua Administração. E já ninguém confia neles.

Depois de, há algumas semanas, a sua conselheira Kellyanne Conway (a dos “factos alternativos”) ter inventado um massacre imaginário no Kentucky e Trump reincidir nos últimos dias com um atentado terrorista na Suécia que nunca existiu, ambos para justificarem a cruzada em curso contra os imigrantes, o desvario da Casa Branca não parece ter limites. Quanto mais mentem, mais negam os factos e acreditam na mentira. Eles só se revêem na realidade paralela dos factos inventados até ficarem definitivamente convencidos e reféns deles. Mas Littell avisa: “Mesmo se ele não chegar ao termo do seu primeiro mandato, a democracia americana conseguirá sair indemne ou ficará definitivamente deformada pela candidatura e, depois, pela presidência de um presidente criança?”.