E o Óscar vai para... Donald Trump?

A noite dos prémios da Academia é a noite do cinema, mas também o clímax da relação de Hollywood com o seu público – a imagem que quer projectar embateu, este ano, nas políticas do Presidente dos EUA.

Foto

Esta pode ser a noite em que finalmente Donald Trump vê cumprido um dos seus desejos - um espectador tão ávido quanto crítico dos Óscares, em 2014 já pedia (no Twitter, claro) que o deixassem apresentar os prémios da Academia para os tornar grandes outra vez. Há um ano, discutia-se a diversidade nos prémios da Academia pela ausência de nomeados não-brancos. Agora, a política de representação foi substituída pela pura política como tema dominador dos Óscares. Esta noite, Trump pode tomar conta da cerimónia?

Ou não. Robert J. Thompson não arrisca fazer previsões de qualquer tipo “desde que ele desceu aquelas escadas rolantes em Junho de 2015”. Ele é Donald J. Trump, o homem do momento, recordado no dia em que aparecia para anunciar a sua candidatura à presidência dos EUA pelo professor da Universidade de Syracuse. Não pedimos previsões ao director do Bleier Center for Television and Popular Culture, com quem o PÚBLICO falou há um ano sobre o debate que ficou resumido numa hashtag, OscarsSoWhite, mas ele antevê uma noite politizada. Hollywood parece estar em modo de campanha contra a jovem presidência de Trump e decisões como a suspensão de vistos para pessoas e refugiados de países como o Irão ou a Síria, suscitou uma vaga de indignação hollywoodesca.

Fez-se ouvir nos Globos de Ouro, com o discurso sobre empatia de Meryl Streep (nomeada nos Óscares por Uma diva fora de tom), ou nos prémios do Screen Actors Guild (SAG) com a história pessoal de um muçulmano negro como o favorito ao Óscar de Actor Secundário Mahershala Ali (Moonlight). E mesmo com alguma calmaria nas últimas semanas e com a suspensão do chamado Muslim Ban, aponta-se para um clímax nos Óscares, esse pináculo do ano cultural popular em que Hollywood projecta a imagem que quer dar de si mesma.

Mas a indignação dessa comunidade artística tida como progressista e inclinada à esquerda “nem sempre se manifesta como esperaríamos”, diz Thompson, lembrando que para cada Beyoncé a evocar os Black Panthers no Superbowl de 2016 há uma Lady Gaga patrioticamente neutra no jogo de 2017. Sendo os Óscares “uma forma particularmente detestável de publicidade”, como os descreve ao PÚBLICO Jonathan Rosenbaum, crítico de cinema americano e autor do livro Movies and Politics, e “incrivelmente tradicionais - às vezes parece que estamos em 1958”, como desabafa Thompson, eles são “um ritual e também um púlpito. E é a esse lado que toda a gente está a prestar atenção este ano”, constata o perito em televisão.

“Em 2017 quase tudo, especialmente quando falamos de grandes acontecimentos culturais, é dominado por esse evento cultural em si que é a nova presidência”, diz Thompson. E se o professor de Cinema Emanuel Levy já postulava em 2001 que, “em última análise, o programa dos Óscares é mais importante que os prémios dos Óscares” no seu livro The history and politics of the Academy Awards, em 2017 o evento televisivo é tão ou mais importante do que os nomeados para uma fatia da audiência.

Anos houve em que se queria saber que América retratavam os filmes nomeados, ou que cinema, mais indie ou mais industrial, se fazia no maior mercado cinematográfico e exportador do mundo. Houve anos com demasiados nomeados daqueles que ficam para a história, e outros sem memória. Mas, no fundo, a ideologia esteve sempre lá. “Hollywood é, como postula Richard Maltby, uma ‘instituição social’”, lembra Ian Scott, professor de Estudos Americanos e autor de American Politics in Hollywood Film. Aliás, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas é em Hollywood, mas a sede da poderosa Motion Pictures Association of America, que representa os seis grandes estúdios, é em Washington.

Anos houve também em que os Óscares eram um jantar para perto de 300 convidados no Roosevelt Hotel com uma dúzia de prémios para vencedores avisados com três meses de antecedência. Era o nascimento dos Óscares, em Maio de 1929. Quase 25 anos mais tarde, os Óscares tiveram de ceder ao “inimigo”, como classifica Steven Pond em The Big Show: High Times and Dirty Dealings Backstage at the Academy Awards: a televisão. Transmitidos pela NBC em 1953, foram logo o maior êxito de audiências de sempre – a televisão também só existia há cinco anos.

E anos houve em que os Óscares se mantiveram assim, no topo, imperdíveis, como quando Marlon Brando recusou o Óscar por O Padrinho e enviou uma nativa-americana ao palco (1973), ou quando Bert Schneider leu um telegrama do líder dos Vietcong (1975) e Vanessa Redgrave chamou “rufias sionistas” aos que a boicotavam por apoiar a Organização de Libertação da Palestina (OLP) (1978). Já eram menos aglutinadores quando Susan Sarandon, Tim Robbins e Richard Gere criticaram a detenção de refugiados seropositivos e a política de direitos humanos da China (1993), e menos ainda quando, três dias depois da invasão do Iraque pelos EUA Michael Moore gritou “shame on you, Mr. Bush” (2003).

A multiplicação de canais e depois plataformas televisivas retirou poder aos Óscares enquanto momento de televisão, mas eles nunca deixaram de gerar reacções — seja a ira do apresentador histórico Bob Hope com a audácia de Bert Schneider e as desculpas que obrigou Frank Sinatra a apresentar em nome da Academia ou os apupos do público ao realizador de Bowling for Columbine, quer a indignação de alguns espectadores quando Ann Bancroft deu um beijo no rosto ao primeiro negro a receber um Óscar, Sidney Poitier, ou os tweets exasperados de Donald Trump. Mas lá iremos. “Desde que são um acontecimento televisivo”, os Óscares são “mais centrais na consciência colectiva”, frisa Robert J. Thompson.

Um "voto político" em O vendedor

Depois do escândalo de 2016 em torno da raça, o monólogo de abertura de Chris Rock nos 88.ºs Prémios da Academia era quase tão esperado quando o Óscar para Leonardo DiCaprio, e o palco encheu-se de pessoas de todas as cores para apresentar prémios e diluir o boicote apoiado por alguns actores e realizadores. A noite não foi assim tão marcada pela afirmação da diversidade nos discursos. O espectáculo continuou. Em Janeiro, a presidente da Academia Cheryl Boone Isaacs estava feliz por ter um recorde de seis actores negros nomeados e filmes com protagonistas não-brancos como Vedações, Elementos secretos ou Moonlight e Lion - A longa estrada para casa a competir com o patriotismo militar de O herói de Hacksaw ridge e Hell or high water - Custe o que custar!, com a classe trabalhadora de Manchester by the sea ou a ficção científica humanizada de O primeiro encontro. O favorito, claro e apesar de toda a influência que a campanha anti-Trump e a campanha dos próprios filmes pode ter na votação dos membros da Academia, é La la land: melodia de amor com 14 nomeações, o escapismo musical de Damien Chazelle, Emma Stone e Ryan Gosling.

“Este ano os nomeados são mais interessantes e desafiantes do que o costume”, assinala Jonathan Rosenbaum, que ainda assim gostaria de ver filmes como Paterson, de Jim Jarmusch, na corrida.  “Quando os americanos se sentem bloqueados politicamente, como claramente se sentem no presente, as escolhas culturais tornam-se mais importantes, mesmo se se tornam parcos substitutos de uma mudança política genuína.”

Uma das categorias que mais atenção despertou, devido ao Muslim Ban entretanto suspenso (e que agora pode ser substituído por uma ordem ainda mais restritiva), foi a de Filme Estrangeiro, com O vendedor do iraniano Asghar Farhadi a tornar-se “um verdadeiro filme do momento” para Eric Kohn, crítico principal do IndieWire, e votar no filme a tornar-se num “acto político”, como diz o New York Times. Primeiro foi a sua actriz Taraneh Alidoosti a recusar-se a viajar para os EUA em protesto contra o Muslim Ban, depois Farhadi. Os participantes sírios da curta documental White Helmets também não estarão nos Óscares.

Na competição em geral, “mesmo se nenhum vencedor fizer um discurso carregado, os Óscares são sempre um evento inerentemente político simplesmente com base nas obras que distinguem. Este certamente não é o ano para a Academia ignorar essa responsabilidade”, avisava há dias David Sims, editor de Cultura da Atlantic. Houve quem pedisse “cancelem os Óscares”, como Todd VanDerWerff no site Vox, pedindo um acto inédito a uma Academia que tem nas suas directivas não assumir posições políticas. E que só adiou, por dois dias e um dia respectivamente em 1968 e 1981, a cerimónia devido ao assassinato de Martin Luther King e à tentativa de assassinato de Ronald Reagan. 

Mas ver Hollywood, outra vez, erguer-se contra um político com quem não concordam é útil? Não é pregar aos convertidos e, como assinala Owen Gleiberman, crítico-chefe da Variety, “um dos motivos pelos quais Donald Trump foi eleito: a percepção - correcta ou errada - de que as pessoas na indústria do entretenimento estão num pedestal a dizer ao resto das pessoas o que pensar”? Muitos comentadores conservadores reagiram, saturados, exactamente assim às intervenções recentes em Hollywood.

Porém, o efeito que se procura não é dentro da sala, desloca Robert Thompson. “A república federal que são os EUA baseia-se na lógica de que devemos governar-nos a nós mesmos” e perante uma audiência de dezenas de milhões de pessoas “sente-se a obrigação de cidadania de dizer algo – o que é, até, corajoso”. Além de que nunca se sabe quem pode estar a ver.

Trump, o elitista de Hollywood

O 45.º Presidente dos EUA reagiu aos comentários de Streep nos Globos, classificando-a como “uma das actrizes mais sobrevalorizadas”, da mesma maneira que em 2014 tweetou: “Eu devia apresentar os Óscares só para mudar um bocado. Isto não é bom”. Já em 2013 tinha dado a sua opinião sobre o Óscar de melhor filme, “Django libertado é o filme mais racista que já vi, é uma trampa!”; em 2015 escreveu que “os Óscares são uma anedota triste, muito como o nosso Presidente. Tantas coisas erradas!”, e quando Alejandro G. Iñárritu venceu com Birdman, lamentou que “os Óscares foram uma grande noite para o México & porque não - estão a roubar os EUA mais do que qualquer outro país”.

Donald Trump parece fazer hate-watching dos Óscares e por isso uma jornalista perguntou na quarta-feira ao porta-voz da Casa Branca se o Presidente ia ver a cerimónia e se iria responder a “um momento tipo Meryl Streep”. Sean Spicer, ele próprio uma vítima já caricaturada pelo show business, respondeu que “é um país livre” e que “Hollywood é conhecida por ser bastante à esquerda nas suas opiniões”, mas depois lembrou que este domingo o casal presidencial é o anfitrião do Governors Ball e que isso sim será o foco da sua atenção.

O acontecimento televisivo terá muitas vozes — a primeira é a do anfitrião Jimmy Kimmel, apresentador do late night que admitiu ao New York Times, admitindo que “pode ser demais” deixar a tensão política dominar um espectáculo que tantos produtores dos Óscares e outras figuras do establishment defenderam ao longo das décadas como um espaço para o entretenimento e glamour, ponto final.

A relação do cinema com a política é evidente nos seus temas e na sua representação histórica, de Peço a palavra a Filadélfia e de O nascimento de uma nação a Estado de Guerra ou W. A relação de Donald Trump com a televisão, o meio que tornou os Óscares “mais centrais na consciência colectiva” para Robert Thompson, é inegável — cita mais a televisão do que os livros, foi estrela de um reality show durante 14 anos e, como lembrou George Clooney esta semana, “Trump tem 22 créditos como actor na televisão e recebe uma pensão de 120 mil dólares anuais do SAG. Ele é um elitista de Hollywood”, disse ao Canal +.

É, como cristalizou Owen Gleiberman, o “primeiro presidente do Estado do Entretenimento Americano”. Os Óscares enquanto espectáculo televisivo global são “o púlpito perfeito para abordar a já ofuscante calamidade moral da presidência de Donald Trump” e para “combater show business com show business”.