Opinião

O nacionalismo contra a globalização

Para muitos perdedores, o nacionalismo é solução para os seus males, não um problema. A globalização deu novo ímpeto à chama nacionalista. Não vai ser fácil apagá-la.

1. O espectro do nacionalismo ameaça de novo a Europa e o mundo. O que aconteceu nos anos 1920 e 1930 pode voltar a repetir-se. Esta é a percepção de muitos ao assistirem aos conturbados tempos que vivemos. Acontecimentos como a ascensão dos partidos populistas e radicais um pouco por toda a Europa, a vontade de saída britânica da União Europeia e a chegada de Donald Trump ao poder na primeira potência mundial — com o slogan “América primeiro” —, criaram inquietude e apreensão. A trágica história europeia de primeira metade do século XX dá fundados motivos para uma desconfiança e receio face ao regresso do nacionalismo. Até um passado recente, estava largamente descredibilizado, quer no plano político, quer no plano económico (pelo menos na Europa / Ocidente). Parecia estar até esquecido no “caixote do lixo” da história. O que tornou o nacionalismo atractivo, de novo, para uma parte importante da população? Estamos perante algo fundamentalmente similar aos anos 1920 e 1930, ou a analogia histórica é inapropriada?

2. O nacionalismo consiste no enaltecimento das virtudes de uma determinada nação vista como única. Para todos os que dela fazem parte, a pertença deve ser motivo de grande orgulho. O nacionalismo reveste-se de múltiplas tonalidades e graus, desde os mais suaves aos mais agressivos — na realidade não há um nacionalismo, mas nacionalismos, no plural. As suas manifestações resultam da forma como a própria nação se define: pela etnia, pela língua, pela religião, pela história, etc. Uma das mais comuns é desejo de independência política. A nação deve ter o seu próprio Estado: no mundo de hoje é essa, por exemplo, a ambição dos nacionalistas da Catalunha ou da Escócia. Para além da vontade de soberania, pode levar a manifestações mais extremas ao pretender vincar a identidade e diferença nacional, sobretudo quando isso é associado a um espírito "messiânico": aí o nacionalismo poderá originar sentimentos de xenofobia (medo ou aversão aos estrangeiros), de racismo (superioridade face a pessoas de outros grupos étnicos), de arrogância cultural (menosprezo do "outro") e de vontade de domínio político de diferentes povos (imperialismo).

3. Aqueles que vêm no mundo de hoje características similares às dos anos 1920 e 1930 acentuam similitudes problemáticas: em termos políticos, a tendência para o populismo, a xenofobia, o racismo e as ideologias autoritárias; no plano económico, a tendência para a protecção da produção e do emprego nacional, erguendo barreiras ao livre comércio internacional. Mas há diferenças de relevo entre estes dois períodos históricos. Uma primeira é que as questões territoriais eram a maior causa de conflitos agressivos, com múltiplas e contraditórias reivindicações nacionalistas: a Alsácia-Lorena (disputa entre a França e Alemanha), a região dos Sudetas (disputa entre a Alemanha e a Checoslováquia), o Trentino-Alto Ádige ou Tirol do Sul (disputa entre a Itália e o Império Austro-Húngaro e depois com a Áustria), são exemplos clássicos de conflitos nacionalistas dessa época. Uma segunda grande diferença é a demografia. Na época os europeus tinham uma enorme dinâmica demográfica e eram os maiores exportadores de população para o resto do mundo. No caso nacionalismo alemão, estes dois aspectos — o territorial e o demográfico —, misturaram-se de forma explosiva. A ideia do espaço vital (Lebensraum) exemplifica-a: seria necessário para assegurar as necessidades alimentares e de expansão industrial da nação alemã. Os inimigos da Alemanha queriam asfixiá-la. O nazismo e Hitler levaram esse sentimento de medo ao extremo, instrumentalizando-o para uma agressiva guerra de expansão e conquista.

4. No mundo da primeira metade do século anterior não existiam nem integração europeia, nem globalização, pelo menos com os contornos da actual. Isso faz toda a diferença numa comparação histórica apropriada. Paradoxalmente, quer a integração europeia, quer a globalização, são, ao mesmo tempo, travão e causa maior do nacionalismo de hoje. No caso da globalização — o único aqui analisado —, o seu impacto negativo em partes muito significativas da população europeia (e dos EUA), voltou a tornar a nação e o nacionalismo atractivos, mas não necessariamente da mesma maneira. Quando comparados com os anos 1920 e 1930, os actuais nacionalismos europeus / ocidentais estão numa atitude politicamente mais defensiva. Não é a expansão territorial, nem o domínio de outros povos que os motiva, como no período imperial e colonial. O que os move é a vontade de controlo soberano do seu próprio território e população, excluindo a influência estrangeira: estão em rota de colisão com o cosmopolitismo. A frase que capta a sua visão do mundo é esta: “na nossa casa mandamos nós.” Vêm a globalização (e a própria integração europeia) como agressiva da economia, emprego e identidade nacional. Para além da economia, no cerne da questão está a demografia. A Europa é agora destino de fluxos migratórios de massa do resto do mundo. Na óptica nacionalista isso descaracteriza culturalmente a nação e destrói-a politicamente.

5. O mundo imaginado por pacifistas-cosmopolitas-globalistas como John Lennon, na sua música de 1971 — Imagine there's no countries / It isn't hard to do [...] ("Imagina que não há nenhum país / Não é difícil imaginar [...]") —, é um cenário de horror nacionalista. Tal como é um pesadelo o fim do Estado-nação anunciado pelos entusiastas (neo)liberais da globalização como Kenichi Ohmae, em The End of the Nation State: The Rise of Regional Economies / "O Fim do Estado-nação...", 1995). Não foi a utópica visão de John Lennon — de um mundo em paz, sem fronteiras, sem religiões e nacionalidades, onde a cobiça de bens materiais estaria ausente —, que se impôs nas últimas décadas. Impôs-se antes a visão (neo)liberal apologeticamente defendida por Kenichi Ohmae e outros, que acentuou a primazia do económico. Os Estados foram suplantados pelos mercados e subordinaram-se à sua lógica. Num mundo (quase) sem fronteiras, os bens, o capital e a mão-de-obra foram postos a circular livremente. Os governos nacionais, por gosto ou a contragosto, adoptaram boas práticas de governação: leia-se uma governação baseada em ideias (neo)liberais, afastando outras opções políticas. Os resultados são assimétricos. As elites cosmopolitas e as partes da população mais qualificada e adaptada ao mundo (neo)liberal sem fronteiras tiraram benefícios, de maior ou menor grau. Ao mesmo tempo, criou perdedores em massa e um profundo ressentimento, por razões económicas, culturais e demográficas. Para muitos perdedores, o nacionalismo é solução para os seus males, não um problema. A globalização deu novo ímpeto à chama nacionalista. Não vai ser fácil apagá-la.