Movimento contra Jogos Olímpicos serve de lançamento a partido anti-Orbán

Grupo consegue 260 mil assinaturas e leva Governo a recuar na candidatura de Budapeste aos Jogos de 2024. Assume que este é um primeiro passo e que o objectivo são as eleições de 2018.

O movimento Momentum começou com um grande sucesso na recolha de assinaturas para um referendo contra a candidatura húngara às Olimpíadas
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O movimento Momentum começou com um grande sucesso na recolha de assinaturas para um referendo contra a candidatura húngara às Olimpíadas LASZLO BALOGH/Reuters
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A luta (bem-sucedida) contra a candidatura de Budapeste aos Jogos Olímpicos de 2024 está a servir de rampa de lançamento para um novo movimento político na Hungria.

O Fidesz, firmemente no poder e favorito para as eleições do próximo ano, não pensava que o grupo, formado por jovens e a operar numa cave, conseguisse as 138 mil assinaturas necessárias para forçar o município de Budapeste a levar a questão a referendo. Mas o grupo conseguiu isso e mais: esta quarta-feira, anunciava no seu site mais do que 266 mil assinaturas e horas depois o Governo admitia que Budapeste vai desistir da candidatura aos Jogos de 2024, por falta de unidade nacional em torno do projecto.

O Movimento Momentum é liderado por jovens advogados, professores, jovens licenciados em ciências humanas ou informática, nascidos por volta de 1989, a altura em que o regime comunista acabou. Juntou-se em 2015, mas só quis mostrar-se agora, depois de ter constituído uma base.

O seu primeiro alvo foi a candidatura às Olimpíadas, que os seus líderes dizem representar um gasto incomportável (cerca de 2,5 mil milhões de euros, entre 7 a 9% do PIB anual da Hungria, segundo as primeiras estimativas) e favorecer um grupo de empresários ligados ao Fidesz. Ainda na fase preliminar já foram noticiadas irregularidades e o organismo de fiscalização (semelhante ao Tribunal de Contas) já alertou para o risco de corrupção.

“Ninguém perguntou aos húngaros se querem estas Olimpíadas”, disse um dos fundadores do movimento, Andras Fekete-Gyor, ao diário Financial Times, explicando que não houve um debate nacional antes de qualquer eleição, quer as legislativas quer as municipais de Budapeste. “Estas não seriam as Olimpíadas do povo, mas sim do Fidesz”, diz uma responsável do movimento, Anna Orosz.

O recuo

O movimento conseguiu aprovação legal para uma campanha de recolha de assinaturas e para a pergunta do referendo. Com uma equipa de 140 voluntários nas ruas, conseguiu as assinaturas necessárias e tinha sondagens a dar uma maioria contra a realização dos Jogos. Neste cenário de sondagens desfavoráveis, contestação política e forte concorrência de cidades como Paris e Los Angeles, o Governo de Victor Orbán acabou por recuar na candidatura, uma decisão anunciada nesta quarta-feira após uma reunião entre o primeiro-ministro, o autarca de Budapeste e o Comité Olímpico Húngaro.

As últimas Olimpíadas lucrativas foram as de Los Angeles em 1984, e havia quem temesse consequências desastrosas para a economia húngara após um gasto tão elevado. O Momentum não queria apenas criticar, e apresentou um manifesto com cinco áreas em que devia ser feito investimento em vez dos Jogos: saúde, educação, habitação, condições de vida, e transportes.

Político mas não ideológico

Apesar de ser político – o movimento declara que o seu objectivo é concorrer, como partido, às eleições do próximo ano contra o partido do Governo – o Momentum declara-se não-ideológico: “A esquerda tem de aceitar consciência nacional, e a direita tem de aprender o que é a solidariedade”.

Mas critica o sistema político “falhado” que leva os jovens a sair do país em números recorde da Hungria (não por acaso, o grupo tem escritórios em Londres, Paris, Bruxelas e Berlim), que leva quem vai ao hospital a estar preparado para pagar por baixo da mesa para ser atendido, ou a alunos e professores das escolas públicas a comprar do seu bolso o giz para as salas de aula. “Começámos a perceber que as iniciativas civis por si só não resultam e que é necessário um movimento político”, disse Fekete-Gyor citado pelo site de notícias húngaras em inglês Budapest Beacon.

“O pós-cortina de ferro na Hungria foi uma época de sonhos por cumprir”, diz o manifesto do movimento. “Atrevemo-nos a sonhar”, continua: “A política ainda tem futuro na Hungria”.