A Argentina mostra-se sem nostalgia, mas não esqueceu Borges

A Argentina organizou uma embaixada de artistas à Arco Madrid como não se via há muito na Europa. Depois de Kirchner, quer ser contemporânea. Mostra muita pintura e a escrita ainda é sagrada.

Foto
A esfera suspensa de Julio Le Parc na Arco Madrid LUSA/EMILIO NARANJO

Julio Le Parc, um veterano da arte cinética e da Op art argentino, dá como que as boas-vindas a quem chega ao recinto da Arco Madrid, a feira de arte contemporânea que esta quarta-feira já começou para os visitantes profissionais, como os coleccionadores e a imprensa, e que este ano tem como país convidado a Argentina. Este nome histórico deste país da América Latina, de 88 anos, que vive em França e foi redescoberto há três anos com uma grande retrospectiva no Palais de Tokyo, em Paris, é impossível de ignorar ao lado da sua bela e gigante esfera suspensa, um dos destaques da Arco Madrid, onde ensaia várias poses, enquanto alguém regista o momento.

“Não faço ideia”, responde quando lhe perguntamos o que esta embaixada de arte contemporânea argentina pode significar para o seu país. “Convidam um país novo todos os anos, não é?” Ao final do dia, Julio Le Parc há-de inaugurar as actividades do stand da Argentina na primeiras das entrevistas públicas feitas aos nomes fundamentais da arte argentina, numa feira que espera ter 100 mil visitantes. 

A expectativa é mostrar que a Argentina é, exactamente, um país contemporâneo e não nostálgico de um passado, segundo tem dito o ministro da Cultura argentino, Pablo Avelluto, à imprensa espanhola. Não é só literatura, teatro, música ou cinema, mas tem uma cena vibrante nas artes plásticas. A feira será oficialmente inaugurada na quinta-feira de manhã pelos reis de Espanha e pelo Presidente da Argentina, Mauricio Macri, cuja própria mulher, Juliana Awanda, é coleccionadora de arte.

Aqui chegaram 12 galerias argentinas (menos do que as 13 portuguesas), todas de Buenos Aires, uma representação geográfica que a curadora que fez a escolha está consciente ser o espelho de um país muito centralizado. Inés Katzenstein, numa conversa com a imprensa internacional, explicou que os 23 artistas que se podem ver na feira até domingo (a Arco Madrid abre ao público oficialmente na sexta-feira) não pretendem representar nenhuma “identidade”. Tentou mostrar outros nomes para além dos artistas que mais circulam internacionalmente. Vão dos anos 60 até aos emergentes e usam todo o tipo de linguagens, completando os mais conhecidos incluídos num programa especial, intitulado Diálogos, a cargo das curadoras María de Corral, Catalina Lozano e Lorena Martínez de Corral.

Mas ao olhar para a sua própria selecção Katzenstein reconheceu que se pode falar de três tendências: “A incrível e surpreendente insistência na pintura, a importância da escrita e da linguagem e o interesse de muitos artistas no seu corpo e sexualidade.”

“Esse interesse pela escrita é muito generalizado e cruza todas as idades, de Ricardo Carreira [1942-1993] a Leticia Obeid, que é muito jovem”, respondeu quando lhe perguntamos se esse é um traço mais presente nos artistas mais velhos. “A questão da escrita, que é muito importante, espelha a centralidade da escrita na nossa cultura. É normal encontrar artistas que também escrevem.”

Não muito longe da esfera de Julio Le Parc, ainda nos projectos especiais do programa Diálogos, encontramos um exemplo dessa tendência no trabalho de Jorge Macchi na galeria suíça Peter Kilchmann. O artista, que também tem uma exposição no CA2M incluída no programa paralelo à Arco em Madrid, mostra aqui uma instalação composta por desenhos. Intitulada Shy, são na verdade seis folhas em branco que é preciso levantar para se encontrarem escondidos os seus desenhos feitos a lápis directamente na parede da galeria. Num deles descobrimos a reprodução de uma folha pautada.

“A literatura é um lugar sagrado para a Argentina, um pouco como para os portugueses”, afirma a artista Leticia Obeid, 41 anos, que encontramos na Galeria Isla Flotante e que concorda com a visão da curadora da Argentina. “Diria que é uma herança colonial e o resultado da história do século XX, como a modernidade aconteceu”, continua a artista, que vive em Buenos Aires. O país dos escritores Jorge Luis Borges e Julio Cortázar continua a ter uma voz forte na poesia e no romance. A Madrid Leticia Obeid trouxe um trabalho que reproduz a escrita manuscrita de Walter Benjamin, o filósofo e crítico alemão fundamental para a história de arte do século XX, a época da reprodução. “Comecei a copiar quando estava a estudar Walter Benjamin. É uma homenagem e tem a ironia de estar a copiar a escrita do grande teórico da cópia.”

Mesmo ao lado, na Galeria Henrique Faria, vemos a obra do artista e escritor Ricardo Carreira, este artista que dizem ser responsável pela introdução da arte conceptual na Argentina através do carácter semiótico das suas obras. A galeria mostra também A Mancha de Sangue, em que o artista, com resina e pigmento vermelho no chão, explora a literalidade numa homenagem ao Vietname em 1966. Na Galeria Ruth Benzacar, Fabio Kacero, também artista e escritor, nascido em 1961, mostra uma cópia do manuscrito de Pierre Menard, autor del Quijote, de Borges, numa lengalenga de autorias, ao lado de um livro que contém milhares de palavras inventadas.

Fontana é argentino!

A artista Sol Pipkin, com uma obra que explora vários meios, mostra uma pintura sobre a parede da Galeria Slyzmud, num mural intitulado Fundo de Parede. Os desenhos a carvão de Eduardo Stupia estão na Jorge Mara, enquanto as pinturas com cerâmica de Juan Tessi estão na Nora Fisch. O artista, que também tem obras numa colectiva do Museu Thyssen-Bornemisza, apresenta um conjunto de telas com peças de cerâmica acopladas. As próprias telas, que mostram apenas um traço, não têm pintura – a cor vem da sobreposição dos tecidos – e é na cerâmica que Tessi considera ter usado a técnica. “É pintura sem ser mesmo pintura. Estou muito interessado na ideia de amador, usar alguma coisa para a qual não fui treinado”, explicou num encontro com os jornalistas na inauguração da colectiva na véspera, que junta, além de obras de Tessi, pinturas de Lucio Fontana, Guillermo Kuitca e Alejandra Seeber. E lembrem-se, dizia alguém, Fontana e os seus famosos cortes feitos na tela, que marcaram a arte do século XX, são argentinos.

Nas suas “frotagges” que recorrem à utilização de imagens de jornais em exposição na Galeria Ignacio Liprandi, Pablo Accinelli, um artista multimedia com pouco mais de 30 anos que vive em São Paulo, explora a noção de espera, mostrando filas de pessoas em várias situações. “É uma tautologia com a ideia desta técnica, cuja execução é muito demorada. A ideia de espera está em todas as obras.” Num vídeo que mostra um sapato a rodar lentamente numa montra, no bastão preso à parede que é afinal uma bengala, em dois tapetes que geralmente se colocam nas entradas aqui encostados a uma parede e parcialmente desconstruídos. “Eu gosto da ideia de intermeio. Um trabalho não tem de ter um meio. O tapete é uma escultura ou um desenho no chão?”

O que também não sabe é se a Arco pode fazer muito pela internacionalização das artes plásticas argentinas, que estão longe de ter a visibilidade da literatura ou do teatro. “Não espero muito, porque uma feira também não é o sítio ideal para mostrar o trabalho de um artista. Não é como uma bienal.” Uma feira é um evento comercial, mas acrescenta que tudo acaba por ser um ganho, diz aquele que é um dos jovens artistas com circulação internacional.

Leticia Obeid, pelo contrário, está muito optimista naquela que é a primeira iniciativa do género de um governo da Argentina na área das artes visuais. “Individualmente os artistas argentinos viajam muito. Mas precisamos de sair mais e mostrar de uma forma colectiva o nosso trabalho, porque estamos muito longe e isolados geograficamente. Ao contrário da literatura, do cinema, do teatro, a produção das artes visuais nunca foi sublinhada pelo Governo.”

A última vez que houve uma embaixada artística da Argentina na Europa, lembram os jornais espanhóis, foi em 2010 na Feira do Livro de Frankfurt. Foi na era de Cristina Kirchner e celebravam-se os 200 anos de independência do país sul-americano.

O PÚBLICO viajou a convite do Turismo de Espanha