Opinião

Dia do Presidente

Hoje, segunda-feira 20 de fevereiro, os EUA celebram o feriado a que chamam Dia do Presidente, criado em 1879 para celebrar o aniversário de George Washington. O problema é que agora todos os dias nos EUA são Dias do Presidente. E, sendo os EUA o que ainda são, todos os dias para o resto do mundo são Dias do Presidente dos EUA.

Não há nenhum dia que não seja dia de Trump. A rotina começa de madrugada, com os seus primeiros tuítes, provavelmente ainda na cama, atacando os jornalistas como "inimigos do povo" ou gabando-se da sua vitória, "a maior desde Ronald Reagan".

Levantamo-nos. Vamos trabalhar. À hora de almoço, perguntamo-nos "o que é que ele fez agora?". É difícil estar atualizado: pode ser um novo conflito de interesses, um novo nomeado corrupto, uma nova derrota nos tribunais. À tarde, Trump decide dar uma conferência de imprensa para se animar: ao longo de mais de uma hora de ataques incoerentes a tudo o que mexe, um momento mais revelador é quando um jornalista lhe pergunta sobre como pode dizer que a sua vitória foi a maior desde Reagan se — além de ter tido menos três milhões de votos do que a sua adversária — mesmo no colégio eleitoral Bill Clinton, George W. Bush e Obama todos tiveram vitórias maiores do que ele. "Não sei! São números que andam para aí! Há muita gente que diz que a minha vitória foi a maior". Chegada a noite e os americanos às suas casas, as próximas horas na televisão são ocupadas a discutir o que o Presidente fez e disse durante o dia. Na manhã seguinte, o ciclo repete-se.

A memória a reter, se alguma fica, é que o Presidente mente. Mente sobre coisas importantes, sobre coisas banais, sobre coisas facilmente verificáveis, mente por necessidade e mente desnecessariamente. À sua volta, todos mentem. O seu porta-voz mente mais ou menos competentemente, a sua conselheira mente descaradamente — perdão, apresenta "alter-factos" —, o seu vice-presidente mente sonsamente. Quando são apanhados, têm uma escapatória fácil: chamar à imprensa "fake news", notícias falsas (do original alemão "lügenpresse" ou "imprensa mentirosa", inventado nos anos 30 por aqueles tipos que, é claro, não têm nada a ver com o trumpismo).

No meio, há coisas importantes que ninguém consegue apanhar. Durante a campanha, quando foi obrigado a apresentar algum programa político, Trump fez uma promessa clara: "no meu primeiro dia como presidente, declararei oficialmente que a China é um país manipulador monetário", o que seria o tiro de partida para uma guerra comercial global. Passado uns dias, Trump admitiu não reconhecer a soberania da China sobre Taiwan. Passado um mês, ambas as questões foram metidas na gaveta. O que terá acontecido entretanto? Um facto que pode ou não estar relacionado é que Trump ganhou no seu primeiro mês na Casa Branca uma rara atribuição de marca comercial na China, sobre o seu nome, durante dez anos — um negócio potencialmente muito lucrativo.

Ninguém pode ter a certeza, nem sequer seguir a história até ao fim, nem talvez lembrar-se dela durante muito tempo. Se há efeito que Trump tem é o equivalente a uma doença na memória coletiva. Sem memória, a distinção entre verdade e mentira torna-se irrelevante. Sem memória, a democracia torna-se impossível. A certa altura, milhões de cidadãos vão ter de decidir o que fazer com as suas vidas se não quiserem viver permanentemente na cabeça de Trump. A revolta é uma possibilidade. Mas a apatia e a indiferença são probabilidades maiores.

Entretanto, diz-nos muita coisa sobre a criatura que atualmente têm o dedo no botão do maior arsenal nuclear do mundo que as nossas melhores esperanças sobre ele possam ser apenas que ele seja muito venal, muito corrupto, muito incompetente, muitíssimo vaidoso — e não mais do que isso.