Entrevista

"O que Le Pen quer dar aos franceses é sinistro”

Benoît Hamon, o candidato socialista às presidenciais francesas, veio a Lisboa numa viagem de estudo sobre o que faz a esquerda portuguesa, que o tem intrigado. António Costa, que conseguiu reunir as esquerdas desavindas para governar, é um dos seus modelos, a par de Bernie Sanders.

Benoît Hamon, candidato socialista às presidenciais francesas
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Benoît Hamon, candidato socialista às presidenciais francesas Miguel Manso

Benoît Hamon veio a Lisboa numa viagem de estudo. Quis perceber como conseguiram as esquerdas desavindas unir-se para governar.  “O que se passa em Portugal inspira-me tanto”, diz. A braços com a difícil tarefa de convencer o ex-socialista Jean-Luc Mélenchon a unir-se a dele, para tentar formar uma maioria de esquerda — que em teoria poderia ter mais votos do que a líder da extrema-direita Marine Le Pen — Hamon reuniu-se com o primeiro-ministro, o socialista António Costa, com o Bloco de Esquerda, e com as centrais sindicais. As presidenciais francesas realizam-se em duas voltas, a 23 de Abril e a 7 de Maio.

Vem estudar a chamada “geringonça”, para tentar reproduzir uma aliança das esquerdas em França para as presidenciais?
Queria que a minha primeira deslocação ao estrangeiro fosse a Portugal. É uma escolha política. É um país dirigido por um governo de esquerda, apoiado por uma coligação de esquerda, num país que virou as costas à austeridade. Observo o que se faz em Portugal há anos, por exemplo, no que toca à despenalização do consumo das drogas, que faz parte do meu programa. Com o primeiro-ministro, António Costa, vou discutir [a reunião foi ontem] um projecto de tratado orçamental para os países da zona euro e outro sobre a energia, para relançar o projecto europeu, no qual está a trabalhar o economista Thomas Piketty. A Europa é como uma bicicleta, que cai quando deixamos de pedalar, e há muito tempo que os dirigentes europeus deixaram de pedalar.

Ganhou novas perspectivas para negociar uma aliança com Jean-Luc Mélenchon (o segundo candidato mais bem qualificado da esquerda, com cerca de 11% de intenções de voto)?
Ah! Em Portugal a esquerda decidiu que queria ganhar, por isso uniu-se e governa. Eu quero ganhar e reunir a esquerda para governar, mas não posso decidir por Jean-Luc Mélenchon.

Mas em Portugal a esquerda juntou-se depois das eleições, em França terá de juntar-se antes de ir votos para ter alguma hipótese.
Sim, é diferente. Mas as sondagens dizem que para os eleitores de esquerda, eu sou o candidato mais bem colocado [tem cerca de 17% das intenções de voto], para poder falar à esquerda moderada e à radical. Se adicionarmos os votos todos da esquerda, meus, de Mélenchon e dos ecologistas, ficamos à frente de Marine Le Pen. Só devemos olhar em frente, porque o risco da extrema-direita é demasiado grave.

Poderia abandonar a corrida eleitoral para Mélenchon, se ele persistir em não retirar a sua candidatura, para conseguir a unidade da esquerda?
Isso quereria dizer que o mais bem colocado para ganhar abandonaria a corrida. Estou muito aberto, não me imponho a ninguém, mas há um princípio de realidade — é preciso ver quem teria mais hipóteses de bater Marine Le Pen na segunda volta.

Qual é a sua estratégia para recuperar os eleitores de esquerda que fugiram para Marine Le Pen ao longo dos anos?
Foram as nossas renúncias que tornaram Marine Le Pen tão forte como é hoje: nos serviços públicos, nos salários, nas condições de trabalho. Sempre que a República Francesa falha em garantir a igualdade de direitos — no acesso à educação, no acesso à saúde, à habitação —, a extrema-direita propõe um discurso violento e brutal, mas que responde às angústias e cólera dos franceses. Não podemos combater Le Pen com um projecto morno, que continue a oferecer soluções de ontem. É preciso “propulsionar”, como ela diz, um projecto político forte, a que chamo “a esquerda total”, contra a “direita total” com um imaginário poderoso, a longo prazo.

Incluo aí as taxas sobre os robôs, o rendimento de existência, a reconversão ecológica do nosso modelo económico, a VI República, como um projecto político coerente que dê prioridade aos cidadãos, que corresponda às mutações do trabalho. Pensar numa nova Segurança Social e mudar a forma como produzimos e consumimos, porque estamos a destruir a saúde do planeta.

São propostas polémicas. Tem a certeza de que conseguirá unir o seu próprio partido?
Quando François Hollande se candidatou às primárias, eu não votei nele. Mas defendi-o, porque essa é a regra do jogo das primárias. Não posso obrigar ninguém a apoiar-me. Mas acho perigoso ficar em casa, escondermo-nos no momento em que Marine Le Pen se torna um perigo real para o país. Os meus amigos políticos que decidirem não fazer campanha por mim são livres de o fazer. Se tiver de ser sem eles, será sem eles.

Fala-se do norte-americano Bernie Sanders e do britânico Jeremy Corbyn como inspirações do seu programa.
Sanders mais do que Corbyn. Mas António Costa também. O que se passa em Portugal inspira-me tanto. Analiso todos os países onde a esquerda está com a cabeça à tona de água porque se assume de esquerda. Todas as esquerdas que conheceram a experiência do poder na Europa, mas que decidiram converter-se ao liberalismo no plano económico — à redução dos custos do trabalho e da despesa pública, à política de austeridade — foram castigadas nas urnas: o Pasok (Grécia), Matteo Renzi (Itália), Hollande, que termina o seu mandato em condições difíceis, os trabalhistas britânicos que não apoiaram Ed Miliband.

Mas isso não quer dizer que tenha chegado o tempo de uma esquerda radical, é antes momento de uma esquerda que deve olhar para o mundo tal como é, e não como era. O que me interessa é o horizonte, e não fazer ajustes de contas. Interessa-me prestar atenção às mutações do trabalho — Bill Gates diz que os governos devem taxar os robôs que roubam trabalho às pessoas, Barack Obama alerta que a digitalização da economia vai traduzir-se na supressão de milhares de empregos. Quero concentrar-me no que será um futuro desejável e espero captar o interesse de uma maioria dos franceses, porque o futuro de Marine Le Pen é um futuro sinistro.

O que tem a dizer aos investidores que estão com medo de pôr dinheiro em França por causa de Marine Le Pen e agora também estão com medo de si, na eventualidade de conseguir fazer uma aliança de esquerda?
Foram os mercados financeiros que criaram Marine Le Pen, à força de fazerem os Estados pagar as consequências de um sistema que enlouqueceu em 2008. (Bate a mão na mesa para dar ênfase.) Criaram Le Pen, criaram Viktor Orbán, criaram essa gente toda. Hoje precisamos de regulação, para evitar a pior das desordens, que seria a chegada da extrema-direita ao poder.

É preciso mudar de prioridades e tomar decisões correctas — a principal dívida é a dívida ecológica, estamos a tornar o nosso planeta inabitável. E não podemos negociar com o planeta. É preciso tomar as decisões correctas, ainda que sejam contra os mercados. Eu defenderei a reestruturação e a anulação de parte das dívidas.

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