Reportagem

"As pessoas estão fartas. Do preconceito. Das notícias. Das promessas"

É no Funchal que se concentram as pessoas sem-abrigo do arquipélago. O governo contabiliza 57, mas no terreno fala-se de uma população flutuante que aparece e desaparece quando as respostas sociais acabam.

Hora de servir refeição no Mercado dos Lavradores
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Hora de servir refeição no Mercado dos Lavradores Gregório Cunha

Existe uma linha frágil que nos separa dali, da porta do Mercado dos Lavradores, no Funchal, onde três dezenas de pessoas, entre gargalhadas sonoras e conversas pequenas, matam o tempo à espera que a carrinha do Centro de Apoio ao Sem Abrigo (CASA) chegue.

Passam poucos minutos das dez e meia da noite. A porta do mercado, a mesma por onde algumas horas depois irão desembocar caixotes azuis de peixe fresco, continua fechada. Ao lado, numa das paredes, alguém improvisou um graffito: Obrigado CASA, e um smiley. É ali, todas as noites, sem excepção, que quem vive nas ruas da capital madeirense encontra uma refeição completa e quente.

É também um momento de encontro para as pessoas que deambulam pela cidade, sem destino certo. Conhecem-se todas pelo nome, e por isso o voyeurismo da câmara fotográfica, mesmo que imóvel e caída, provoca desconfiança e olhares cruzados. 

“As pessoas estão fartas. Do preconceito. Das reportagens. Das notícias. Das promessas”, justificava mais tarde Sílvia Ferreira, coordenadora do CASA na Madeira. “Sentem que nada é feito por elas. Que são uma espécie de atracção de circo”, acrescenta. “E sabe, elas têm razão…”

Trabalha junto dos sem-abrigo há quase nove anos, desde que a delegação da CASA abriu no Funchal, e é ela que fala da tal linha frágil que nos separa a todos de uma situação de sem-abrigo. Numa palavra: um emprego. Ou a falta dele. O caminho para chegar à rua é feito de várias histórias. Algumas têm álcool, outras drogas. Problemas mentais. Um contratempo. Todas têm um tronco comum. “A perda do emprego, ou a dificuldade em encontrar um trabalho”, adianta Sílvia Ferreira, contabilizando em três dezenas a população sem-abrigo no Funchal.

Existem mais. A Secretaria Regional da Inclusão e Assuntos Sociais (SRIAS) fala em 57 pessoas a pernoitar na cidade, onde se concentra esta problemática no arquipélago. “É uma população flutuante”, nota a coordenadora da CASA, mas fixos são cerca de 30. Os problemas de toxicodependência, alcoolismo ou saúde mental levam ao internamento temporário de alguns, o que explica a flutuação nos números, mas não resolve o problema.

“As pessoas recebem tratamento e depois alta. Mas não têm para onde ir, e por isso regressam à rua”, observa, reclamando um programa a médio/longo prazo para lidar com esta situação. São necessários assistentes sociais. Psicólogos. Médicos. “Não dá votos, nem terá resultados imediatos, talvez por isso falte vontade política.”

A Secretaria Regional da Inclusão e Assuntos Sociais promete mais acção. A Madeira, por ter os serviços regionalizados, esteve fora da Estratégia Nacional de Integração de Pessoas Sem Abrigo, e vai continuar assim. Mas, para este ano, o executivo regional prevê a implantação de um programa específico para “proteger e reinserir” as pessoas nestas condições, em articulação com as instituições particulares que intervêm no terreno. No total, foram investidos perto de 600 mil euros em 2016 entre apoios a IPSS e programas específicos. Para este ano, a verba é sensivelmente a mesma.

Além da CASA e do Centro Porta Amiga da AMI, o Funchal conta com a Associação Protectora dos Pobres, ou ‘Sopa do Cardoso’, como é conhecida em honra ao fundador, avô de Alberto João Jardim. Além de refeições tem um centro de alojamento de emergência, um centro de ocupação, espaços de alojamento para inserção, e equipas multidisciplinares nocturnas com assistente social, psicólogo, enfermeiro e voluntários. “Os projectos sociais são delineados de forma a corresponder às necessidades individuais de cada pessoa em situação de sem-abrigo”, diz ao PÚBLICO fonte do gabinete de Rubina Leal, a Secretária Regional da Inclusão e Assuntos Sociais.

No terreno, Sílvia Ferreira confessa o desânimo e a desconfiança. Quando começou, em Agosto de 2008, eram três voluntários a distribuir café quente e sandes. Agora, são perto de 250 voluntários, divididos por equipas, para que todos os dias, “faça chuva, faça sol”, as refeições não faltem. É verdade que têm agora melhores condições. Já estiveram na rua. Agora têm um espaço com mais dignidade para receber as pessoas. “Até ao final do mês vamos inaugurar a nossa cantina, num espaço cedido pela câmara municipal”, diz satisfeita.

Para já, é ali no Mercado dos Lavradores que as refeições são servidas. A carrinha acaba de chegar com cinco voluntários e duas mãos cheias de embalagens largas de comida, recolhida instantes antes numa unidade hoteleira de cinco estrelas. “Funcionamos sem apoios públicos, na base do voluntariado e das doações”, explica.

José Manuel Amaro, é o responsável pela equipa da noite. É ele que abre a porta. Carlos, 39 anos, dois a dormir ao relento, é dos primeiros a entrar no mercado. Enche o prato desafiando a gravidade, enquanto nos fala do pai e da mãe que vivem longe. Do emprego que tinha e perdeu. Da rua e da dignidade que não quer perder. Do futuro, que será diferente. Melhor.

“Estou aqui a falar, e estou quase a chorar.“ Faz uma pausa. Aponta ao coração. Continua. “Sou inválido. Quero trabalhar mas não posso. Faço uns biscates por aí, para ter algum dinheiro no bolso”, diz sonhando com algum apoio, mesmo que pouco, que dê para alugar um quarto. “Sempre era mais digno, não é?”

Dignidade é o que se procura por ali. Um homem entra acompanhado por um cão. Rastas apanhadas e a cair sobre o casaco descosido. Mochila a tiracolo. Sacos de plástico numa das mãos. E um caminhar, largo, confiante, quase ensaiado, como quem se sente observado.

Apresenta-se com um “boa noite” despreocupado, que é para todos e para ninguém em particular. Chama o cão,‘alvi-negro’ – nome pelo qual é conhecido o Nacional, um dos clubes do Funchal - , e aproxima-se da mesa onde quatro voluntários vão enchendo os pratos até cima. Não diz o nome – “não dou entrevistas” -, come em silêncio e desaparece na noite.

A máquina fotográfica, com cuidados mil, vai andando por ali, por entre as mesas, capuzes enfiados e rostos virados .