Embaixador de Angola e o caso Manuel Vicente: "Quem acusou é que sabe por que o fez"

Marcos Barrica não quer que a acusação atrapalhe a relação institucional entre Portugal e Angola.

Manuel Vicente, vice-presidente de Angola
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Manuel Vicente, vice-presidente de Angola DR

O embaixador de Angola em Lisboa remeteu nesta sexta-feira para a justiça portuguesa a justificação da acusação ao vice-presidente angolano, mas separou o caso das relações institucionais entre os dois países.

"Quem acusou é que sabe porque é que o fez, mas nós não estamos aqui para comentar isso", afirmou o embaixador Marcos Barrica, à margem de um Fórum de Agricultura Portugal-Angola, organizado em Lisboa.

"Hoje estamos aqui a tratar de questões de cooperação Angola-Portugal na agricultura, pecuária e florestas. É isso que nos interessa hoje", disse o embaixador.

Ainda antes dos comentários do embaixador Marcos Barrica, o ministro da Agricultura angolano, Marcos Nhunga, declarou à imprensa que desconhecia o caso.

"Eu nem me apercebi disto. Nem me apercebi, nem vim cá a Portugal para resolver estas questões", disse o ministro ao ser questionado pela agência Lusa sobre a acusação a Manuel Vicente.

Marcos Nhunga insistiu que apenas faria comentários sobre agricultura.

O Ministério Público português acusou na quinta-feira o procurador Orlando Figueira, o vice-presidente de Angola (e ex-presidente da Sonangol) Manuel Vicente, o advogado Paulo Blanco e o arguido Armindo Pires no âmbito da Operação Fizz, relacionada com corrupção e branqueamento de capitais.

Uma nota da Procuradoria-Geral da República (PGR) adianta que Orlando Figueira, que exerceu funções como magistrado do Ministério Público entre Setembro de 1990 e Setembro de 2012, foi acusado de corrupção passiva, branqueamento (em co-autoria com os outros três arguidos), violação de segredo de justiça e falsificação de documento (em co-autoria com os restantes arguidos).

Manuel Vicente, à data dos factos presidente da Sonangol e actualmente vice-presidente de Angola, é acusado de corrupção activa (em co-autoria com os arguidos Paulo Blanco e Armindo Pires), de branqueamento de capitais (em co-autoria com os restantes arguidos) e falsificação de documento (também em co-autoria com os restantes arguidos).

O arguido Armindo Pires, representante em Portugal de Manuel Vicente, foi acusado de corrupção activa (em co-autoria com os arguidos Paulo Blanco e Manuel Vicente), branqueamento de capitais (em co-autoria com os restantes arguidos) e falsificação de documento (em co-autoria com os restantes arguidos).

A Operação Fizz investigou o recebimento de contrapartidas por parte do magistrado do Ministério Público, Orlando Figueira, suspeito de favorecer interesses de terceiros, em dois processos.

Segundo a PGR, três arguidos estão acusados de, em conjugação de esforços, terem pago a Orlando Figueira, que, na altura, trabalhava no DCIAP, cerca de 760 mil euros e de lhe terem dado outras vantagens, designadamente, a colocação profissional numa instituição bancária.

Em troca, o magistrado arquivou dois processos, favorecendo o presidente da empresa angolana, Manuel Vicente.

O vice-presidente angolano será notificado do despacho de acusação através de carta rogatória dirigida às autoridades angolanas para depois o Ministério Público se pronunciar sobre medidas de coacção a aplicar.

Em Outubro de 2013, o Presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, anunciou a suspensão da parceria estratégica entre Angola e Portugal, devido às investigações judiciais em curso em Portugal a várias entidades angolanas, designadamente o vice-presidente Manuel Vicente e o Procurador-Geral da República.