Opinião

O eterno retorno da política portuguesa

Se a esquerda se limita a dezenas de reuniões, pode ser que o arrependimento venha mais tarde.

Olha, afinal há vida para além do défice. Só é pena que politicamente seja tão parecida com a vida que havia aquém do défice: casos com ministros e debates sobre o novo aeroporto de Lisboa.

O que aconteceu esta semana em Portugal foi um fenómeno muito interessante, embora inteiramente expectável: o retorno da velha política portuguesa do tempo anterior à crise europeia. Ainda se lembram? Era o tempo em que um ministro da Economia era demitido por causa dos indicadores — só que não eram indicadores económicos. Eram os dedos indicadores, usados para fazer uns corninhos no Parlamento. Era o tempo em que o grande assunto nacional era onde se instalaria o novo aeroporto de Lisboa. Na Ota? Em Alcochete? No Montijo? Portela+Beja? Portela+1, Portela+2? Tudo menos Portela? Alcochete “jamé”?

Éramos felizes e não sabíamos. Ou antes: já éramos infelizes, mas ainda não sabíamos. Porque — como escrito aqui pouco depois dessa altura — Portugal pode ter um problema orçamental, Portugal pode sofrer de um problema económico, mas Portugal é um problema político.

Já lá iremos. Antes disso, pensemos porque regressou a velha política feita de casos e comentada por dez milhões de cidadãos/técnicos de aeroportos (incluindo já aqui os formados por Passos Coelho para aeródromos inexistentes). O que se passou foi muito simples: o Diabo não colaborou. Os planos de uma boa parte da política portuguesa estavam dependentes da comparência de um antagonista, sob a forma de um projeto europeu incompatível com a trajetória portuguesa. Hoje podemos estar a discutir os SMS de um ministro, mas há um ano estávamos a receber SMS de rádios, TV e jornais avisando-nos de que a Comissão e o Eurogrupo nos iam “cair em cima”. Lidos os artigos que vinham com os alertas, via-se que os temores (ou, para ser mais especulativo, as esperanças) de sanções e suspensões não tinham fundamento. O grande confronto foi sendo adiado, até desaparecer.

Estamos agora com um pré-anúncio de saída do procedimento por défice excessivo e — o que ninguém nota — boas notícias económicas que não só para nós, mas para toda a zona euro e UE.

Se o “inimigo externo” não colabora, portanto, o famoso horror ao vazio de que padece a política tem de nos sugar para uma internalização dos nossos inimigos. O PSD e o CDS, não podendo contar com Bruxelas, têm de fazer a mais tradicional das oposições — a de tentar fazer cair ministros. Pena que pouco passem disso. Também à esquerda, onde BE e PCP apostavam mais ou menos discretamente numa incompatibilidade entre a política de esquerda e o projeto europeu, a dinâmica negocial com o Governo vai ter de ser transferida para o território mais doméstico e plausível de saber como se pode fazer uma política de esquerda contra os bloqueios da nossa economia e os atavismos da nossa oligarquia. E entre os comentadores — e isto é que é lamentável — prevejo que iremos passar rapidamente de debitar opiniões tão pouco informadas quanto possível sobre a Europa para o regresso da fase em que se dizia “as pessoas não querem saber da Europa para nada” e se passava adiante.

Ora, isto é problemático. O que os nossos debates revelam é que Portugal é um problema político no sentido de não termos constituído uma sociedade que saiba deliberar em conjunto com qualidade e responsabilização, o que, por sua vez, ocorre em primeiro lugar por causa do enquistamento da classe partidária nacional e da enormíssima preguiça dos seus atores, habituados que estão a fazer política quotidiana sempre da mesma forma: fechados no Parlamento e virados para as televisões.

A grande inovação que permitiu resolver um dos maiores problemas da nossa política foi, sem dúvidas nenhumas, a “geringonça”. Mas, se, mesmo aí, a maioria de esquerda se limita a constituir-se nas dezenas de reuniões que os partidos têm todas as semanas e se escusa a envolver o resto de política que há na sociedade, pode ser que o arrependimento venha mais tarde. E que, em vez de sermos felizes sem o sabermos, sejamos, como antes ocorreu, já infelizes, não o imaginando ainda.