Onde vivem as princesas quando acaba o conto de fadas?

No seu auto-exílio, Cristina já andou por Washington e Genebra. Em Espanha diz-se que se segue Lisboa. A Fundação Aga Khan em Lisboa desconhece.

Inñaki Urdangarin e Cristina de Borbón
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Inñaki Urdangarin e Cristina de Borbón Reuters

Onde vivem as princesas quando acaba o conto de fadas? Cristina de Borbón escolheu Lisboa. Em menos de hora e meia, poderá cruzar a fronteira e regressar ao país que já não é a sua casa — é no que acredita, que ali foi traída — mas onde terá que voltar, muitas vezes.

Cristina acreditou até ao fim que iria viver feliz para sempre. Enganou-se muitas vezes no caminho. Esta sexta-feira, foi absolvida no processo Nóos que envolvia corrupção e desvio de dinheiro público. Uma vitória que não é uma vitória — a vida, como diz o jornal espanhol El País, nunca mais será a mesma. O jornais espanhóis dão a mudança para Lisboa como certa. Será mesmo assim?

Quando o escândalo começou (o caso foi aberto em 2009), a infanta de Espanha e o marido previram o perigo e refugiaram-se em Washington. Queriam sair dos holofotes até o ruído passar, poupar os filhos à opinião pública e, sobretudo — dizem os comentadores espanhóis —, Iñaki Urdangarin queria manter-se na alta roda dos empregos de prestígio e muito bem remunerados. Iñaki, duque de Palma e genro de um rei — o genro perfeito, escreveu-se sobre ele durante anos — foi transferido pela Telefonica, onde era conselheiro internacional, para Washington. Quando o processo acelerou (Urdangarín foi indiciado no final de 2011) e a Telefonica se ressentiu da presença do duque que caía a grande velocidade em desgraça, os Urdangarin ensaiaram um regressa a casa (Barcelona), mas perceberam que a vida estava a mudar drasticamente. O palacete do bairro de Pedralbes sugava o dinheiro que já escasseava, os advogados levavam outra fatia e a opinião pública não estava disposta a esquecer as suspeitas de enriquecimento ilícito do casal e exigia justiça igual para todos.

Nova fuga — para Genebra, em 2013. O crime dos Urdangarin apanhou a monarquia num momento débil. A conduta do rei era posta em causa, com as polémicas das caçadas em África e a relação com uma aristocrata alemã que fazia tráfico de influência usando a relação com o rei espanhol. Acrescia o grande escândalo do genro, acusado de desviar dinheiro público. Juan Carlos propõe à filha o "mal menor" — salvar-se e preservar a monarquia, divorciando-se. Cristina recusa.

Em 2014, Juan Carlos abdica. Será ele a mediar as negociações entre o novo rei, Felipe VI, e a irmã. Cristina ofende-se, recusa abdicar do seu direito dinástico — permanece a 6.ª na linha da sucessão, mas o irmão retira-lhe o título; não será mais duquesa de Palma, não fará mais parte da família real, agora reduzida ao núcleo do monarca (Felipe, a mulher, as duas filhas e os reis eméritos, Juan Carlos e Sofia).

Cristina nunca perdoou ao pai por este abandono; mal se falam dizem as revistas do coração e confirmam os jornais de referência; a Felipe VI não dirige a palavra e quando visita a Zarzuela (o palácio real) só está autorizada a entrar na ala habitada pela mãe.

Graças ao pai, porém, deve o seu emprego bem pago na Fundação Aga Khan — Juan Carlos e o actual líder espiritual dos ismailitas são amigos desde a adolescência, quando estudaram juntos no internato suíço Le Rosey. Cristina, a única que recebe salário entre os Urdangarin, trabalha na Suíça para a Fundação Aga Khan.

Em Espanha circula que vai mudar-se para Lisboa, para onde a Fundação vai mudar a sua sede. Porém, o PÚBLICO sabe que a Fundação Aga Khan em Portugal não tem conhecimento de planos para a mudança de cidade ou de funções da infanta, que em Genebra é responsável pela ligação às agências da ONU ali sediadas.

A casa onde Cristina vive no centro de Genebra é a Fundação que a paga, a escola dos quatro filhos, é custeado por Juan Carlos.

Cristina nunca acreditou neste desfecho, têm contado algumas fontes à imprensa. Nunca acreditou que se tornaria uma figura tóxica, abandonada pelos seus. Urdangarin vai cumprir pena — seis anos e três meses. Esteja em Lisboa, em Genebra ou noutra parte do mundo, a filha de um rei que ajudou a empurrar para a abdicação e irmã de outro que não lhe fala, será um passageiro frequente para Espanha, onde tem um marido na prisão.