Entrevista

“Há um conflito de interesses estrutural no desporto”

Investigador do IRIS e autor de obras sobre viciação de resultados, Pim Verschuuren aponta a pressão externa como essencial no combate à corrupção: “Não podemos esperar que a mudança venha de dentro”.

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Há cerca de três anos, Pim Verschuuren participou num seminário sobre manipulação de resultados desportivos, em Lisboa, e mostrou-se francamente optimista quanto à abertura e ao comprometimento de Portugal com uma estratégia alargada de combate à corrupção no desporto. Face à escalada do fenómeno, o investigador do IRIS (Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas), sediado em Paris, falou ao PÚBLICO sobre os muros que se erguem em contextos muito fechados e sobre a imprescindível necessidade de uma cada vez maior consciencialização: “Há uma década, as forças de segurança não sabiam sequer o que era a viciação de resultados”, anota o coautor do livro Apostas desportivas e corrupção, publicado em 2012.

Até onde é que já se conseguiu chegar no combate à viciação de resultados no desporto?
Demoraria três horas só a responder a esta pergunta, mas o que posso dizer é que estamos a trabalhar neste tema há oito anos. E é um trabalho conjunto, que envolve organizações como a FIFA e a UEFA, parceiros como a Sportradar e a Federbet, federações nacionais, forças de segurança, operações de vigilância feitas por antigos polícias. Para além disso, trabalhamos de forma preventiva, na sensibilização dos jogadores e dos agentes desportivos. No caso do ténis, a operacionalização torna-se um pouco mais fácil, porque temos informação sobre os contactos móveis dos atletas [através da Unidade de Integridade no Ténis], enquanto no futebol isso não acontece. Mas temos de ter em conta que as organizações mafiosas já começaram a operar a um outro nível, em campeonatos e torneios com menos visibilidade e noutras paragens que não apenas a Europa. Há um aumento de casos em África e na América Central.

O número de casos suspeitos tem crescido, mas é resultado de uma investigação mais eficaz ou fruto de um boom real nas teias de corrupção?
Esse boom surgiu há cerca de 10 anos, neste momento já passámos para outro patamar. Temos mais formas do que nunca de detectar movimentos suspeitos, há um terreno mais fértil para denúncias, porque tem crescido o número de agentes das forças de segurança com maior expertise na matéria. E isto é uma grande ajuda. Há uma década, as esquadras de polícia não sabiam sequer o que era a viciação de resultados e hoje a Europol já evidencia um nível elevado de especialização.

Imagino que os elementos de prova sejam a principal dificuldade. Especialmente porque, em certa medida, é um caso em que não há vítimas.
Neste combate precisamos de três tipos de protagonistas: as organizações desportivas, as organizações que operam no mundo das apostas e as forças de segurança. No que respeita às provas, é de facto muito difícil. Ou temos um depoimento a admitir a participação num esquema de viciação de resultados, ou trabalhamos em cima de escutas telefónicas. E é esta segunda via que se tem provado mais eficaz e que, de resto, desencadeou o célebre caso de Bochum, em 2009-10, que teve o condão de lançar um alerta global sobre este fenómeno.

As parcerias que têm sido estabelecidas, com diferentes entidades, estão a dar frutos?
Em termos de cooperação, diria que estamos a caminhar no sentido correcto e que o nível de especialização hoje é muito mais elevado do que há uns anos. A nível global, tivemos alguns escândalos e, nos principais países, a polícia está bem informada. No que respeita à justiça, o caso muda de figura, porque os magistrados, muitas vezes, não sabem exactamente do que estão a tratar, não estão familiarizados com estes esquemas.

Alguns dos reguladores, como a Federbet, dizem que o problema não se resolve com slogans vazios. Tem havido um esforço real da parte dos Governos europeus?
Temos de reconhecer que, a nível político, este tema não é uma prioridade. Os Governos têm preocupações maiores, que passam pelo desemprego, pelo crescimento económico, pela luta contra o terrorismo… Mas a verdade é que a Europol e a Interpol têm sido capazes de formar agentes para este combate, e isso tornou-se mais evidente justamente depois do caso que referi, da procuradoria de Bochum.

Há também a ideia de que o mundo do desporto é um círculo fechado, o que presumo que dificulte as denúncias.
É tremendamente difícil combater esse sentimento de omertà que existe no desporto. É cultural. Mesmo em Portugal, com a paixão que existe pelo futebol, imaginem o que é para um jovem atleta denunciar um abuso ou uma ilegalidade junto das autoridades ou da imprensa. Em quem é que ele poderá confiar? É difícil denunciar. Por outro lado, o desporto é uma família muito mediatizada e isso também dificulta a investigação, devidas às constantes fugas de informação.

Muitas vezes, as organizações e federações também são juízes em causa própria...
É verdade, há um conflito de interesses estrutural no desporto e em muitos casos essa lógica torna praticamente impossível o combate à viciação de resultados. O que temos de fazer é mostrar a essas autoridades, a esses agentes, que é do seu interesse proteger o desporto que representam, mas temos consciência de que esse é um trabalho que vai levar anos. E que provavelmente implica uma mudança geracional nas lideranças. No futebol isso é por demais evidente, é um clima muito conservador.

Os últimos escândalos de corrupção, desde o doping à manipulação de resultados, não contribuem para acelerar essa mudança de mentalidade?
Creio que isso está mais dependente de uma acumulação de escândalos. Ainda não houve mudanças significativas. No ciclismo, depois dos escândalos de 1998 [caso Festina] e da confissão de Lance Armstrong, houve uma mudança na abordagem da organização, mas na verdade o que esses casos geraram foi grande desconfiança do público em geral. Não acredito em mudanças profundas no curto prazo. Não podemos esperar que a mudança venha de dentro, terão de ser as autoridades públicas a pressionar mais as organizações desportivas. A nível interno, com o financiamento público, a pressão é maior, mas a nível internacional há um vazio total, em organizações financeiramente poderosas como a UEFA, a FIFA ou o Comité Olímpico Internacional.