John Oliver não é jornalista, mas é tudo menos fake

Last Week Tonight voltou para a sua quarta temporada e vai passar na RTP3 à sexta-feira. O seu autor-apresentador faz a promessa: não vai ser só Trump.

Foto

John Oliver não é um jornalista. O britânico das West Midlands é um actor e um comediante e não gosta que lhe chamem jornalista. E o seu Last Week Tonight também não é uma redacção de jornal. Mas não dá notícias falsas e apresenta mais factos em meia-hora semanal do que qualquer briefing diário do director de comunicação da Casa Branca que há um mês tem um novo ocupante chamado Donald J. Trump. Então, o que faz John Oliver? Em poucas palavras: comédia de investigação. E voltou para uma quarta temporada, que nos EUA passa, sem pausas para publicidade, na HBO, e que, em Portugal, passa às sextas-feiras (20h) na RTP3.

Oliver tinha feito o seu último programa da terceira temporada pouco depois das eleições presidenciais norte-americanas que designaram Trump como o sucessor de Barack Obama, terminando esse episódio com um “Fuck 2016”, não apenas porque morreu Ali, Bowie e Prince, mas sobretudo por Trump. Tornou-se viral, como quase tudo o que Oliver faz, porque mete tudo no YouTube (num canal oficial do programa e sem qualquer restrição geográfica), sendo que o vídeo mais visto (sobre Trump quando ainda era candidato) ultrapassa 31 milhões de visualizações.

O primeiro episódio da quarta temporada foi sobre Trump Presidente, e, para os anfitriões do late night (Stephen Colbert, Samantha Bee, Trevor Noah, entre outros), Trump é o elefante bronzeado e de cabelo duvidoso na sala e impossível de ignorar, ou seja, uma fonte de material inesgotável e êxito de bilheteira garantido – o Saturday Night Live (SNL), programa de comédia em formato de sketches, está com as melhores audiências dos últimos cinco anos graças à imitação de Alec Baldwin, que o Presidente detesta.

A quarta temporada do Last Week Tonight não vai ser só sobre Trump, porque não é essa a natureza do programa. “Oiço muitas vezes de pessoas bem-intencionadas, ‘Wow, tens o programa feito. Não te vai faltar material para os próximos quatro anos’. Em termos de comédia, pode ser mais difícil, porque há muita fruta que é demasiado fácil de apanhar. Especialmente com ele [Trump]”, dizia Oliver numa entrevista recente à revista Rolling Stone. Last Week Tonight” só dá uma vez por semana e não pode ter os mesmos ângulos dos diários Late Show (Colbert) e Daily Show (o que era de Jon Stewart e que foi temporariamente de Oliver, e que agora é de Trevor Noah).

Não é uma versão alternativa do mesmo ciclo noticioso diário. É mais do que isso e, muitas vezes, até é sobre coisas que as pessoas não sabiam que eram importantes. “Se apenas gozamos com as pessoas ou usamos sound bites, apenas estamos a atacar o que está à vista e isso dá uma satisfação com pouca substância. […] As piadas mais fáceis já foram mais ou menos feitas. A carcaça já está quase limpa. É por isso que temos de fazer coisas diferentes”, refere o britânico na mesma entrevista.

Oliver tem com ele uma equipa de pessoas que, simultaneamente, escrevem comédia e fazem investigação de histórias que são revelantes sem serem de actualidade – a pesquisa para alguns dos episódios leva meses a fazer, tal como uma boa investigação jornalística. Como o episódio sobre o marketing de rede, que denunciava empresas como a Herbalife como elaborados esquemas de pirâmide. E muito antes de Trump fazer disso uma prioridade da sua presidência, Oliver falou da fraude eleitoral, concluindo, com factos, que tal não existiu.

Oliver não precisa de ser imparcial e pode ter uma opinião – também se posicionou, por exemplo, contra o "Brexit" do Reino Unido. Não se sabe se Trump é um dos espectadores de Last Week Tonight (já tweetou sobre isso), mas, para o caso de não ser, Oliver já arranjou uma maneira de chegar directamente ao Presidente: comprou espaço publicitário nos programas noticiosos da manhã da MSNBC, CNN e Fox News (que Trump vê religiosamente) para educar Trump (na verdade, é mesmo para gozar com ele) sobre alguns assuntos sobre os quais ele parece menos esclarecido, como, por exemplo, o arsenal nuclear dos EUA.

Não corre o risco de Trump lhe chamar “fake news” (como fez à CNN) ou de lhe dizer que não tem piada (como diz do SNL). Oliver não é jornalista, mas não é “fake”. E é hilariante.