Porque é que a América inventou o nigger?

I Am Not Your Negro quer ser o filme que James Baldwin nunca fez, a história da América a partir de três assassínios marcados pela luta racial. Recupera o Baldwin político e desafia a América a olhar-se no que tem de mais incómodo. A começar pela palavra proibida: Nigger.

James Baldwin, romancista, ensaísta, dramaturgo, activista dos direitos civis, volta a ser considerado de leitura obrigatória na América actual, país onde se voltam a ouvir palavras como medo e opressão
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James Baldwin, romancista, ensaísta, dramaturgo, activista dos direitos civis, volta a ser considerado de leitura obrigatória na América actual, país onde se voltam a ouvir palavras como medo e opressão Ulf Andersen/Getty Images

Em 1979, James Baldwin, romancista, ensaísta, dramaturgo, activista dos direitos civis, escreveu uma carta ao seu agente literário propondo-se contar a sua história da América a partir das vidas de três amigos seus assassinados num período de cinco anos. Os amigos eram Medgar Evans, activista afro-americano morto por um supremacista branco no Mississipi em 1963; Malcolm X, muçulmano, afro-americano, fundador da Organização Para a Unidade Americana e defensor do nacionalismo negro na América, morto em 1965 no Nebraska; Martin Luther King Jr., pastor protestante, activista político, morto em 1968 em Memphis. O livro chamar-se-ia Remember This House e nunca foi escrito. Quando morreu, em 1987, o escritor deixou trinta páginas com notas soltas. O realizador haitiano Raoul Peck pegou nelas e concluiu o projecto de Baldwin, um livro que deu um filme: o documentário I Am Not Your Negro que acaba de se estrear em Nova Iorque e recupera James Baldwin para o presente.

I Am Not Your Negro começa por uma tentativa de dar corpo e voz ao homem a quem Toni Morrison, Nobel da Literatura em 1993, agradeceu ter-lhe dado a linguagem. “Deste-me a linguagem onde morar, um presente tão perfeito que parece invenção minha”, disse no funeral de Baldwin, à época considerado um dos grandes intelectuais americanos da segunda metade do século XX, mas que foi quase esquecido durante os últimos trinta anos. A sua história e a da sua obra são a de um conflito com o país onde nasceu. É a partir daí que Peck explora a ideia de casa, uma que a dado momento se tornou insuportável.

James Baldwin abandonou-a em 1948, aos 24 anos, refugiando-se num exílio em Paris. Recusava-se a conviver com o preconceito numa América intolerante à diferença. Negro, homossexual, queria ser escritor e que a sua escrita fosse feita fora desse universo claustrofóbico e repressivo. “Deixei este país por uma única razão, uma só razão - não me importava para onde ia. Poderia ter ido para Hong Kong, poderia ter ido para Tombuctú. Acabei em Paris, nas ruas de Paris, com quarenta dólares no bolso, com a teoria de que nada pior poderia acontecer comigo lá do que já tinha acontecido comigo aqui (...) Os anos em que vivi em Paris fizeram uma coisa por mim: libertaram-me desse terror social, que não era paranóia da minha cabeça, mas um verdadeiro perigo social visível no rosto de cada polícia, de cada chefe, de toda a gente”.

Contou isto em 1968, numa entrevista no programa The Dick Cavett Show. Peck foi buscar esse excerto para dar a voz, mas também revelar o sorriso aberto, o porte, as mãos, o olhar vivo e tudo o que isso diz da figura de James Baldwin. É dessa matéria que é feita a sedução de I Am Not Your Negro e também aquela onde reside toda a sua força e que pode ser sintetizada numa frase-diagnóstico: “A questão não é o que acontece com o Negro aqui ou com o homem negro aqui (...), a verdadeira questão é o que vai acontecer com este país.”

Era deste mote que Raoul Peck precisava para transpor o pensamento de Baldwin para o presente: olhar o momento actual a partir de Baldwin.

O livro nunca escrito

O documentário começou com uma ideia vaga, há dez anos, quando Peck foi a casa de Gloria Karefa-Smart, irmã mais nova de James Baldwin, para lhe pedir permissão para consultar os arquivos pessoais do autor de obras como Another Country (1962) The Fire Next Time (1963) ou Tell Me How Long The Trains Been Gone (1968). Leitor de Baldwin desde os 15 anos, admirador não apenas da sua literatura, mas de modo como foi capaz de expor uma realidade que o realizador também conhecia do seu Haiti natal – o racismo e “a violência intelectual” -, Peck queria trabalhar a partir do legado de Baldwin sem saber bem como. A solução veio das mãos da própria Glória quando, passados quatro anos de conversas, ela lhe passou para as mãos o maço com trinta páginas e o título Notes Toward Remember This House.

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O cinema foi determinante no modo como Baldwin construiu um olhar sobre si e sobre a América
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O documentário recupera filmes como Imitação da Vida (John M. Stahl, 1934), The Defiant Ones (Stanley Kramer, 1958) e In the Heat of The Night (Norman Jewinson, 1967), exemplares na legitimação de um discurso nacional sobre raça

Seria aquela a história. Peck “só” tinha de a escrever a partir das notas que o escritor deixara e a que juntou entrevistas, ensaios, cartas. “O meu trabalho foi o de encontrar aquele livro nunca escrito. I am Not Your Negro é o resultado mais improvável dessa procura”, afirma o realizador na introdução do livro que deu origem a um filme narrado por Samuel L. Jackson, o actor que dá voz à que seria a voz de Baldwin tal como Peck a concebeu. Estamos sempre na primeira pessoa numa obra que mesmo antes de se estrear foi selecionada para a edição deste ano dos Oscares na categoria de melhor documentário - o filme foi comprado para exibição comercial em Portugal pela Midas, que também editará o livro.

É um filme sobre um discurso e a sua alegada intemporalidade que surge num momento em que a América está a recuperar o nome de Baldwin. Não apenas os seus romances, mas as peças de teatro e os ensaios onde está exposto o seu pensamento no contexto do movimento dos direitos civis que marcou a América na década de 60 e que parece ajustar-se ao presente no que têm de argumentação no combate à exclusão, na denúncia de todos o tipo de segregação: racial, sexual, de classe. É o momento pós-Ferguson, pós- Baltimore, pós-Staten Island, pós-Charlote onde americanos negros morreram vítimas do preconceito, o da consequente contestação protagonizada pelo movimento Black Lives Matter. Foi também o momento do segundo mandato do primeiro presidente negro, e o do ressurgir do racismo numa escala que não se via desde os anos 50 e 60 quando morreram nada mais do que Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King, Jr. Não foi por acaso que Barack Obama citou James Baldwin na inauguração do último Museu Smithsonian, em Washington, dedicado à história e cultura afro-americana. Foi a 23 de Setembro passado: "Enquanto a história de como sofremos, de como ficamos encantados, e de como podemos triunfar não for nova, ela deverá ser sempre escutada.” Ou seja, o pensamento de Baldwin continuava a fazer sentido no último trimestre de 2016. Peck sabe que faz ainda mais sentido neste arrancar de 2017.

Quando o documentário foi concluído, Donald Trump ainda não fora eleito sucessor de Obama na presidência dos Estados Unidos, mas as palavras escolhidas para o trailer de apresentação do filme parecem feitas para desafiar a nova administração americana. “Eu não posso ser pessimista, porque estou vivo. Ser pessimista significa que se concordou que a vida humana é um assunto académico, por isso sou forçado a ser otimista. Sou forçado a acreditar que podemos sobreviver no que quer que de nós deva sobreviver. Mas o Negro neste país... o futuro do Negro neste país é precisamente tão brilhante ou tão escuro quanto o futuro do país. Depende inteiramente do povo norte-americano e dos nossos representantes. Cabe inteiramente ao povo americano se vai ou não enfrentar e tratar e abraçar esse estranho que tem maltratado durante tanto tempo.” Baldwin disse isto em 1963, num programa da televisão pública chamado The Negro And The American Promise, o mesmo de onde Raoul Peck retirou o título do documentário, com uma pequena alteração que atenua o peso das palavras. “O que os brancos têm de fazer é tentar descobrir no seu íntimo porque é necessário ter um ‘nigger’ (...), porque eu não sou um nigger, sou um homem. Mas se acha que eu sou um negro, isso significa que precisa dele. A pergunta que tem que fazer, que a população branca deste país tem que se perguntar (...) é se eu não sou o nigger e o inventou, então tem que descobrir porquê. O futuro do país depende disso, quer seja ou não capaz de fazer essa pergunta.” A frase de Baldwin é I’m not your nigger. Ele diz a n word, a da injúria, do estigma, aquela que uma nação inteira não pode dizer, a não ser que seja a nação negra a usá-la como quem usa uma caricatura de si mesmo. Ao optar pela palavra Negro, em inglês, Peck não despe a injúria, apenas a torna um pouco mais suportável e incómoda.

Quando andava pelas ruas de Nova Iorque, criança, adolescente, jovem adulto, Baldwin sentira essa injúria, tentou esquecê-la em Paris, mas uma imagem reavivou-a. Era uma fotografia de jornal. Nela via-se Dorothy Counts, 15 anos, a primeira rapariga admitida no liceu de Harring Harding, em Charlotte, Carolina do Norte. Dorothy está sentada sozinha na primeira fila de um anfiteatro e atrás dela há muitos rostos a escarnecer. “Havia um orgulho, tensão e uma angústia indescritíveis no rosto daquela menina enquanto entrava nas salas de aula (...) Aquilo deixou-me furioso, encheu-me de ódio e de piedade. E deixou-me envergonhado. Alguém de nós deveria ter estado lá com ela! (...) Foi naquela tarde luminosa que eu soube que estava a deixar a França. Não poderia, simplesmente, ficar mais tempo sentado em Paris a discutir os problemas argelinos e dos negros americanos. Toda a gente estava a pagar as suas dívidas, era hora de eu ir para casa e pagar a minha.”

O documentário começa por aqui, pela decisão de Baldwin regressar aos EUA, em 1957. O mesmo preconceito que o expulsara fazia-o regressar. Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King, Jr. eram os homens que tinham ficado quando ele optou por sair. Voltar, e mais tarde partir deles para escrever a sua versão da história da América, era um modo de pagar a tal dívida, de tentar enfrentar o interdito.

Natural de Nova Iorque, do Harlem, onde nasceu em 1924, James Baldwin conta que viveu os seus primeiros anos pouco consciente da diferença. Era um americano admirador de George Washington e de John Wayne que aprendeu a admirar os livros e a apreciar o cinema com uma professora branca. Aos sete anos, viu Joan Crawford e apaixonou-se, viu Bette Davis e aprendeu a fumar como ela. Escreveu sobre tudo isso e muito mais em The Devil Finds Work (colectânea de ensaio e memória sobre a sua experiência enquanto espectador de cinema e um tempo de formação, publicada em 1976).

O cinema seria determinante e Peck quis explorar essa faceta para mostrar que Baldwin não rejeitara o mundo dos brancos. Foi com os livros e o cinema de autores brancos que aprendeu a olhar e a olhar-se. Baldwin diria muitas vezes que nunca sentiu ódio pelos brancos, que nunca fora racista ao contrário de muitos negros, mas aprendeu cedo a perceber que os amigos brancos o abandonavam à porta da escola. A amizade entre brancos e negros não saía da porta do recreio. “Quando uma criança põe os olhos no mundo tem de usar o que vê. Não há mais nada para usar.” Quando em Imitation Of Life, filme de 1934, a mãe de uma aluna vai à escola entregar o casaco à filha e a professora lhe diz que se deve ter enganado na sala pergunta porque não há ali nenhuma aluna de cor, a filha não lhe perdoa. E não perdoa porque sabe que naquele momento foi excluída. O ódio racial começava aí, ao descobrir-se, por exemplo, americano numa América que não o reconhecia como plenamente seu. “O Negro nunca foi tão dócil como os americanos brancos queriam acreditar. Isso era um mito. Nas folgas não estávamos sempre a cantar e a dançar. Estávamos a tentar manter-nos vivos; estávamos a tentar sobreviver num sistema brutal. O ‘nigger’ nunca foi feliz neste país.” E tudo isso fazia parte de uma narrativa maior que, outro exemplo, o cinema ajudara a sedimentar.

A palavra que não se diz

Peck faz uso disso, partindo dos ensaios de James Baldwin, utiliza os filmes como âncora. No que revelam e no que escondem vê-se a História que um país conta a si mesmo. Por exemplo, o diálogo entre Toni Curtis e Sidney Poitier que antecede uma tentativa de fuga, em The Defiant Ones (1951), e as palavras: “Não sou capaz! Não sou capaz!” É a história de uma relação de amizade improvável entre um negro e um branco supostamente racista, em que o negro sacrifica a sua liberdade em nome do amigo. Como se lê isto no documentário de Peck que escreveu o que Baldwin supostamente teria escrito? Sai assim na voz de Samuel L. Jackson: “É impossível aceitar a premissa da história, uma premissa baseada no profundo mal-entendido americano da natureza do ódio entre negros e brancos. A raiz do ódio do negro é a raiva, ele não odeia tanto os homens brancos como simplesmente os quer fora de seu caminho, e, mais do que isso, fora do caminho de seus filhos (...) Quando Sidney salta do comboio, os brancos liberais ficaram muito aliviados e alegres. Mas quando os negros o viram pular, gritaram: volta para o comboio, seu imbecil. O homem negro a fim de tranquilizar os brancos fazê-los crer que não são odiados.”

O cinema apelava à mesma pureza mítica, aquela que a América, ou uma certa América, queria ver legitimada, e que Baldwin volta a denunciar com outro filme, A Great Feeling (1949), “um dos mais grotescos apelos à inocência”. Como contraponto, ouvem-se canções de Bob Dylan ou Ray Charles e assiste-se às imagens da vida e da morte daqueles três homens: Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King, Jr. Há lágrimas e raiva e a vontade de não ver, coisa que Peck sublinha numa revisitação histórica que é outro olhar sobre a história. As imagens estão lá, mas sem deixar esquecer que são as palavras o que importa. Tudo à luz do presente que para já voltou a pôr os livros de Baldwin nos escaparates e nas montras das livrarias de Nova Iorque como de leitura obrigatória na América actual onde se voltam a ouvir palavras como medo, opressão, e a raça voltou aos discursos e a perseguição à diferença uma realidade.

É como se, ao intercalar imagens do passado com acontecimentos recentes, ecoasse uma pergunta: de onde vem o ódio?

O interdito continua e Raoul Peck puxou-o para capa. Para dizer o título do filme e do livro é preciso dizer a palavra que carrega raiva, culpa, preconceito: Negro. Há quem a diga bem alto, dose idêntica de provocação e de libertação, como o homem que pede moedas à porta da livraria Strand, em Nova Iorque: "I am Not Your Negro". Ele é negro, como são de um negro os olhos na capa do livro que acaba de ver nas mãos de uma mulher branca. "Não mo quer oferecer?", pergunta, e repete: "I am Not Your Negro", agora numa gargalhada rouca que se some no ruído da rua. O tom dele não é o tom triste, ainda que pouco resignado, de Richard Widmarck no filme No Way Out (1950): "Dizem que não é bonito dizer nigger. Nigger! Nigger! Nigger! Pobres crianças negras, amem as crianças negras. Quem me amou? Quem me amou?" Peck recupera esta fala para sublinhar o discurso de Baldwin e o modo como ele se foi socorrendo do cinema para exemplificar a legitimação do preconceito, no caso, o peso de uma palavra que carrega aquilo a que se convencionou chamar "the Negro problem". 

I am Not Your Negro é sobre isso. A dificuldade de uma parte da América saber como vive a outra parte, de conhecer a sua intimidade de modo a olhar-se como um todo. "Essa falha da vida privada teve sempre o efeito mais devastador na conduta pública da América e nas relações negros-brancos. Se os americanos não vivessem tão aterrorizados com seus eus privados, nunca se teriam tornado tão dependentes do que chamam The Negro problem", escreveu Baldwin nas suas notas dispersas que ganham aqui um corpo moldado à luz do presente. No livro isso não se vê. Há o texto, fotografias do escritor, imagens de filmes que servem para ilustrar o seu pensamento, fotografias de época, o contexto para o texto. Mas o documentário é feito de passagens entre o passado e o presente de modo a sublinhar uma ideia de profecia, ou seja, Baldwin a surgir enquanto profeta pela análise do seu tempo transposta para a cronologia actual, e pelo pessimismo com que vislumbrara o futuro de um país com o qual sempre teve uma relação ambígua, a mesma que se tem numa casa onde impera o conflito. Quando diz que o modo de vida americano falhou, quando diz que o sonho americano, quando existiu, foi à custa do sofrimento dos negros, quando refere que olhar à volta nos EUA de então era suficiente para fazer chorar profetas e anjos. “A verdade”, escreveu, “é que este país não sabe o que fazer com a sua população negra, sonha com qualquer coisa como ‘a solução final’.”