Eles são o (primeiro) amor

Luca Guadagnino mostra um filme-surpresa em Berlim: Call Me by Your Name é uma pastoral romântica de verão transportada por Timothée Chalamet, actor à flor da pele

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Uma história de entrada na idade adulta dobrada de descoberta da sexualidade

Estávamos todos à espera que o próximo filme de Luca Guadagnino fosse a sua remake de Suspiria de Dario Argento (sacrilégio!) - mas eis que o realizador de Eu Sou o Amor nos corta as vasas com um idílio de verão sobre um primeiro amor terno e luminoso e, sim, proibido. Rodado na cidade natal do italiano, Crema, Call Me by Your Name (Panorama Special) ficou pronto em menos de um ano, apesar de esta adaptação de um romance de André Aciman ser um projecto que Guadagnino já orbitava há uma década. Primeiro, apenas como produtor, numa versão que acabaria por nunca ser filmada; agora, como realizador e co-argumentista com James Ivory (sim, esse James Ivory, o de Quarto com Vista sobre a Cidade ou Os Despojos do Dia, que é também produtor do filme).

Call Me by Your Name tornou-se assumidamente no filme final de uma “trilogia do desejo” que fora operática à sombra de Sirk e Visconti na obra-prima Eu Sou o Amor (09) e obsessiva à sombra de Antonioni no confuso Mergulho Profundo (15). Aqui, ora voltamos atrás a Renoir ora avançamos para a inocência do Amor de Juventude de Mia Hansen-Love, ora pensamos nos Juncos Silvestres de André Téchiné – este é um filme “francês” na sua desenvoltura e ruralidade, fotografado à flor da pele em luminosos exteriores italianos por Sayombhu Mukdeeprom (que trabalhou com Apichatpong Weerasethakul e filmou as Mil e Uma Noites de Miguel Gomes). É uma história de entrada na idade adulta dobrada de descoberta da sexualidade por parte de Elio (Timothée Chalamet, da série Segurança Nacional), filho de um professor americano e de uma herdeira italiana, que se aborrece na casa de férias da família à espera que o verão acabe, e vai flirtando com as miúdas giras que por ali também andam. Até chegar Oliver (Armie Hammer), um estudante americano que vem assistir o pai temporariamente durante mês e meio, bem-parecido, confiante, um encanto imediato, e o desejo se ergue dentro de Elio, que começa a perguntar-se se é da encantadora Marzia (Esther Garrel) ou do mais velho Oliver que realmente gosta.

Não é exactamente estragar a trama do filme dizer que tudo se passa em 1983, numa altura em que a aceitação da homossexualidade era diferente, mas Call Me by Your Name é muito mais uma pastoral que celebra um verão especial que mudou algumas vidas e que não tem nenhuma agenda em mente. O primeiro amor, independentemente da sexualidade, é sempre algo de mágico e memorável, e como diz o pai de Elio (um discretíssimo Michael Stuhlbarg cuja presença parece ser desaproveitada até uma cena extraordinária perto de final) o que Elio sentiu é algo que muitos nem sequer sonham.

Guadagnino filma tudo com o sensorialismo que se tornou na sua marca registada, e depois de endeusar Tilda Swinton em Eu Sou o Amor e de arrancar a Ralph Fiennes uma performance electrizante em Mergulho Profundo, entrega um papel em ouro a Timothée Chalamet e vê o jovem descolar até literalmente deixar para trás a barreira do som com brio e entrega. A energia e precisão do actor, que vive o deslumbre, a descoberta e a desilusão de Elio mais do que as representa, carrega aos ombros um filme que cai pontualmente num certo preciosismo cinéfilo, que se estica (por 2h15) para lá do que a história aguenta, que se compraz aqui e ali numa nostalgia eighties muito dandy (mesmo que seja sempre bom reencontrarmos os Psychedelic Furs). Mas, se Call Me by Your Name redime Luca Guadagnino do tropeção de Mergulho Profundo, não é outro Eu Sou o Amor. Mesmo que, aqui mais no que nos outros filmes, as suas personagens sejam efectivamente o amor.