Quem diria que há mais de 245 milhões de anos um réptil já dava à luz

Encontrado na China em 2008, o fóssil de um Dinocephalosaurus trouxe uma grande novidade: um antepassado distante dos crocodilos já não chocava ovos.

Reconstituição de um <i>Dinocephalosaurus</i> com um embrião no abdómen
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Reconstituição de um Dinocephalosaurus com um embrião no abdómen Dinghua Yang/Jun Liu

Afinal, já havia alguns répteis arcossauromorfos que davam à luz as crias há cerca de 245 milhões de anos. Enganaram-nos bem, estes répteis marinhos extintos que pertencem a um grupo que mais tarde deu origem aos dinossauros, às aves modernas e aos crocodilos. Até agora, pensava-se que chocavam os ovos, tal como as aves e os crocodilos. Mas um fóssil encontrado na China não deixou que esta questão ficasse em claro na história evolutiva. Tudo graças à posição da cabeça de um embrião “dentro” do fóssil.

De pescoço bem longo e formados por um grande número de vértebras cervicais, um grupo de répteis arcossauromorfos do género Dinocephalosaurus nadava pelas águas superficiais do Sul da China há mais de 245 milhões de anos. Estávamos no Triásico, período geológico entre há 235 e 195 milhões de anos. Este animal marinho andava sempre em busca de presas em pleno mar. Aliás, a forma como as comia é uma pista importante para o que virá a seguir. O arcossauromorfo começava por comer a cabeça e depois o corpo das presas, para conseguir digeri-las melhor. Mas voltemos ao presente, ou à forma como este réptil, entre os antepassados distantes das aves, dos crocodilos e de dinossauros extintos, voltou ao presente.

Em 2008, um fóssil do género Dinocephalosaurus foi encontrado em escavações no Geoparque Nacional de Luoping, na província de Yunnan, no Sudoeste da China. Cheio de calcário, o fóssil estava dividido em três blocos, devido ao desgaste provocado por solo. Feita a descoberta, foi levado para os Serviços Geológicos da China, em Chengdu, para ser preparado e estudado. É aqui que entra Jun Liu, paleontólogo da Universidade de Tecnologia de Hefei, na China, e dos Serviços Geológicos chineses. Foi ele que preparou o fóssil.

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Geoparque Nacional de Luoping, onde foi descoberto o fóssil DR

A preparação terminou em 2011 e foi então que o paleontólogo teve uma grande surpresa: “Fiquei tão empolgado quando vi pela primeira vez que o fóssil tinha um embrião dentro de si.” Mas com o entusiasmo vieram também as dúvidas: “Não tinha a certeza se este embrião era a última refeição do réptil ou uma cria ainda por nascer.” Esta questão não foi resolvida de imediato. Jun Liu estava a preparar também a sua tese de doutoramento e foi para a Austrália durante um tempo. Apenas voltou à China e ao réptil em 2014 – e, até 2016, tentou perceber se o embrião estava por nascer ou se era uma presa.

Olhou com atenção para o embrião e onde estava alojado. Reparou que estava na caixa torácica do réptil e tinha a cabeça para cima, virada para a garganta do arcossauromorfo. Ora, como vimos, as presas comidas por estes répteis estavam com a cabeça para baixo, porque comiam primeiro a cabeça e depois o resto do corpo. Portanto, o embrião dentro do arcossauromorfo ainda estava por nascer. Isto quer dizer que estes répteis já desenvolviam o embrião dentro se si, tal como acontece com as cobras e os lagartos. Juntamente com colegas que ajudaram a desvendar este fóssil, Jun Liu publicou este trabalho na revista Nature Communications.

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Fóssil de Dinocephalosaurus com o embrião em destaque DR

“É a primeira prova de sempre de que um grupo de animais, que antes só se pensava que chocava ovos, afinal dava à luz”, afirma ao PÚBLICO Jun Liu, acrescentando que, até agora, só se conheciam arcossauromorfos que punham ovos 50 milhões de anos mais novos do que o Dinocephalosaurus.

Determinação do sexo em mar aberto

Mais questões foram levantadas com este trabalho: como é que o sexo dos arcossauromorfos era determinado? Hoje em dia, sabe-se que répteis, como os crocodilos, determinam o sexo das crias através da temperatura do ninho, enquanto as aves e os mamíferos o determinam geneticamente. Para resolver este enigma, Chris Organ, biólogo da Universidade Estadual do Montana (EUA), especializado em paleontologia e genética, foi contactado para ajudar a desvendar esta questão. Assim, foi possível perceber que o arcossauromorfo definia o sexo das crias através da genética.

Já em estudos anteriores havia sido observado que a determinação do sexo tinha sido facilitada pela passagem da terra para a água dos animais amniotas (animais cujos embriões estão rodeados por uma membrana amniótica) e pela evolução do parto. A nova descoberta trouxe agora ao de cima uma peça essencial para perceber o processo evolutivo que os amniotas tiveram de fazer para “reinvadir” os habitats existentes em mar aberto.

“No mar aberto, as temperaturas são relativamente estáveis. Este tipo de ambiente beneficia os amniotas, que dependem das temperaturas para determinarem o seu sexo. Portanto, os répteis que determinam o seu sexo geneticamente adaptam-se melhor ao mar aberto”, explica Jun Liu. “A nossa descoberta reforça a hipótese de que a determinação do sexo é facilitada pela transição da terra para a água dos amniotas e pela evolução do parto”, acrescenta o paleontólogo.

Esta nova descoberta traz assim mais pistas sobre a reprodução deste grupo de arcossauromorfos e da própria evolução dos amniotas. Mais uma vez, algo que pensávamos tão certo, como um réptil antepassado das aves e dos crocodilos a chocar um ovo, foi quebrado. Quem diria…

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