Crítica

O troll e a sua filha

Um buddy movie entre opostos: um pai em stand up permanente e uma filha sem tempo para comédias. Eis Toni Erdmann, um retumbante sucesso crítico do final do ano passado, bem posicionado para o Óscar de melhor filme em língua estrangeira.

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O estardalhaço, voluntário e involuntário, que um pai (Peter Simonischek) traz a uma filha (Sandra Huller)
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O estardalhaço, voluntário e involuntário, que um pai (Peter Simonischek) traz a uma filha (Sandra Huller)

Alvo de retumbante consagração no ano transacto, com menções de “melhor filme de 2016” em inúmeras publicações, bem posicionado para o Óscar de melhor filme em língua estrangeira, Toni Erdmann é o momento mais saliente na obra de Maren Ade, realizadora alemã nascida em 1976 e hoje (à parte Christian Petzold, mais velho) o nome mais proeminente do grupo de cineastas revelado em princípios dos anos 2000 sob a designação da “escola de Berlim”.

Dela já se tinha estreado em Portugal Todos os Outros, filme mais discreto  mas onde pontificavam várias das linhas de força do seu cinema: a intimidade e as relações, o confronto com a estranheza cultural ou geográfica, uma atenção “realista” aos gestos e aos acontecimentos do quotidiano. Mas em Toni Erdmann a escala é diferente, e percebemo-lo logo na primeira cena, quando o enorme Peter Simonischek (actor de corpanzil tipo Depardieu) começa a dominar o filme. É um velho solitário, mas afável e sociável, e possuidor de peculiar sentido de humor, espécie de troll de bom coração que parece vier num número de stand up permanente, a que não faltam os adereços: almofadas de puns, cabeleira falsa, uma dentadura postiça que podia ter vindo do estojo de caracterização de Lon Chaney. É com este arsenal que o Sr. Conradi (assim se chama a personagem) se transforma no seu alter ego Toni Erdmann, como se Maren Ade ensaiasse uma variação esparsa e longínqua em torno das figuras do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde.

A apresentação desta personagem, sempre “em comédia”, retarda a entrada da outra, que é o seu contratipo: a filha do Sr. Conradi (Sandra Huller). A filha não tem tempo para comédias, é uma encarnação da estereotípica sisudez alemã ou de um ideal muito moderno de eficácia que nunca baixa a guarda. Trabalha nos escritórios de Bucareste de uma empresa alemã e todo o seu tempo é dedicado ao emprego e à sua componente social (os “contactos”, boa caricatura de um tempo em que as relações humanas tendem a pautar-se pelo seu valor “material”). Como num buddy movie entre opostos, fica dado, a partir do momento em que o Sr. Conradi chega a Bucareste para uma visita-surpresa à filha, o sangue que anima Toni Erdmann.

Que é o sangue de uma comédia da “disrupção”, sobretudo naquelas primeiras cenas em Bucareste em que o filme fica a ver o estardalhaço, voluntário e involuntário, que o pai traz à vida da filha, em cenas longas e tensas a que a mera presença do Sr Conradi/Toni instila uma sensação de caos iminente. Maren Ade trabalha bem o conforto e o desconforto dos pontos de vista – há um momento em que se fica só com a filha, parece que o pai se vai embora, e o espectador sente um certo desamparo com a frieza da rapariga, mesmo que seja também a altura em que essa frieza começa a abrir brechas (as lágrimas dela enquanto o pai entra no táxi). Toni Erdmann passa a ser um “super-herói”, os seus adereços como “capa”, a zelar na sombra e com os métodos menos ortodoxos pelo bem-estar da filha.

Apesar de o filme fazer um desenho discretamente caricatural dos meios em que a rapariga se move (com um mínimo de comentário político: a influência económica alemã no Leste europeu ou o avanço do capitalismo moderno num país como a Roménia, algo bem sugerido pelo episódio com um camponês perto de um campo petrolífero), o essencial é uma história de libertação. A naked party perto do final é uma rima directa para todas as óptimas cenas anteriores em que víramos a filha em luta com as suas indumentárias, seja uma camisa aonde caiu uma nódoa no mais inoportuno dos momentos seja um vestido que não se deixa vestir, e muito menos despir, com facilidade (gag por gag, e na acepção mais burlesca do termo, é a melhor cena de todo o filme). Talvez, sobretudo a partir daí (ou de uma cena anterior, o tour de force que é uma interpretação impromptu de uma canção de Whitney Houston) Toni Erdmann tenda para uma retórica reiterativa. Num filme com duas horas e quarenta é possível que se trate de um risco assumido, até porque desde o princípio que a peculiar economia narrativa, o esticar de certas cenas, a compressão de outras, é um traço distintivo da mise en scène. Mas que Toni Erdmann se conclua a testar o cansaço do espectador é, porventura, a derradeira partida do sangue de troll que o faz viver.