Opinião

A fraude do amor romantizado

A forma como o amor é maioritariamente representado em telenovelas, filmes, canções ou livros dá que pensar, surgindo quase sempre como inevitabilidade, algo absoluto, uma essência e nunca uma construção.

Calma. O amor-próprio, o amor pelos outros, o amor pelo que é humano, o amor pelo planeta, o amor como superação do desencanto, o amor universal, o amor como forma de lidar com a morte, o amor urdido com constância a dois ou até o amor como gesto político são primordiais. O embuste é o amor romantizado.

Há semanas via um episódio de uma telenovela portuguesa e eis que dois personagens chocavam na rua e se apaixonavam. Anteontem passava os olhos por uma outra e eis que deparei com o mesmo tipo de ritual. Conclusão: se deseja enamorar-se, o que tem a fazer é ir para a rua e esbarrar com um desconhecido.

Quando a chamada "química" se estabelece, tudo é possível, parecem querer comunicar-nos. É algo estranha esta forma de nos contarmos. Como acontece com o Natal. Ninguém acredita realmente no Pai Natal, mas todos nos comportamos de forma a fingir que acreditamos. Pelo menos assim o continuamos a reproduzir ano após ano. No caso do amor sucede o mesmo.

A forma como ele é maioritariamente representado em telenovelas, filmes, canções ou livros dá que pensar, surgindo quase sempre como inevitabilidade, algo absoluto, uma essência e nunca edificação. Não surpreende que existam tantas pessoas por aí a desiludir-se ou a culpabilizar-se, vendo as suas expectativas constantemente defraudadas. E quem agradece é a crescente indústria de auto-ajuda.

Desde praticamente que nascemos que nos fazem acreditar numa série de idealizações. Exemplos? É normal conhecer alguém e de imediato sentir uma atracção especial por ela. Devemos guiar-nos apenas pelos sentimentos sem considerações práticas. É possível entendermo-nos intuitivamente sem falar muito. Sexo satisfatório é sinónimo de uma boa relação. Nunca devemos sentir-nos atraídos por mais ninguém. Ou uma relação duradoura tem de conter ao longo dos anos os atributos excitantes que associamos à transitoriedade da paixão.

Como é evidente, estas são ideias encantadoras. E é bem possível que muitas relações se consigam elevar a partir destes pressupostos. Mas são uma minoria. A realidade relacional da larga maioria é muito diferente, bem mais complexa e não se compadece com este tipo de concepções, que em grande medida são elaborações sociais ou culturais que, por mais que nos custe aceitar, acabam por influenciar as nossas decisões mais íntimas. 

A história mostra-nos que existem muitas aproximações ao amor, diferentes percepções de como os casais se devem relacionar e diversas formas de interpretar o que sentimos quando sentimos. É preciso pois criar um outro guião para o amor, substituindo este modelo por uma visão mais madura. Algo que nos leve a assumir que nem sempre encontramos tudo na outra pessoa e vice-versa. Que discutir questões práticas não é trair o relacionamento. Que nos encontramos no outro através da partilha das potencialidades, mas também, e até essencialmente, de fragilidades. Que teremos de fazer diligências para nos compreendermos mutuamente e para isso é preciso saber verbalizar as emoções.

Da mesma forma é preciso ter presente que é normal as pessoas seduzirem-se e que a única forma de evitar adultérios é precisamente ter consciência disso para o melhor saber gerir. Ou que todas as ligações passam por flutuações. Ou que já não vivemos na era em que as relações eram determinadas pelos pais, mas ainda assim as ligações que estabelecemos são condicionadas pelos grupos de sociabilidades. Agora até parecem ser os algoritmos que definem com quem nos devemos encontrar.

As relações a sério exigem perseverança, noção de avanços e retrocessos, perceber que os momentos de harmonia coabitam com o desacordo, da mesma forma que existem fases de efervescência mas também de acalmia, tantas vezes confundida com monotonia. Por paradoxal que possa parecer, talvez seja necessário abraçar o amor como um percurso e não como um acontecimento para o salvar, assumindo que devemos aprender a pensar os afectos.

E, mesmo assim, isso não é garantia de nada.