Kaurismäki mais Kaurismäki não há

O cineasta finlandês não mudou nada no seu cinema para falar dos refugiados em The Other Side of Hope — e mais do que uma conferência de imprensa, deu uma masterclass de cidadania e comédia stand-up.

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Sherwan Haji, Nuppu Koivu, Janne Hyytiäinen, Sakari Kuosmanen e Ilkka Koivula em The Other Side of Hope Malla Hukkanen © Sputnik Oy
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Sherwan Haji e Simon Hussein Al-Bazoon em The Other Side of Hope Malla Hukkanen © Sputnik Oy
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Sherwan Haji, Simon Hussein Al-Bazoon e Sakari Kuosmanen Malla Hukkanen © Sputnik Oy
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Aki Kaurismäki na conferência de imprensa em Berlim Reuters/AXEL SCHMIDT
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O realizador Aki Kaurismäki Malla Hukkanen © Sputnik Oy

“Eu queria mudar o mundo, mas as minhas capacidades políticas não são suficientemente boas”, diz Aki Kaurismäki à imprensa reunida no salão de conferências do Hyatt. “Por isso acho melhor começar por mudar a Europa. Primeiro mudamos a Europa, depois mudamos a Ásia.”

É a primeira vez que Aki Kaurismäki está a concurso em Berlim — depois de nove passagens no Fórum — e percebe-se porquê: se o certame alemão é o “festival do tema” e se há um ano deu o seu Urso de Ouro a um documentário sobre a crise dos refugiados, Fogo no Mar de Gianfranco Rosi, o realizador finlandês cai que nem ginjas nessa postura política com o novo The Other Side of Hope. História de um sírio que fugiu de Aleppo, procura asilo em Helsínquia e dá por si a trabalhar num restaurante nas lonas dirigido por um antigo vendedor de camisas, The Other Side of Hope é perfeito para Berlim, mas lá por ter feito um filme “do seu momento”, deste momento específico em que é feito, não pensem por um segundo que Kaurismäki mudou um milímetro que seja no seu cinema. 

A depuração rígida dos planos e da encenação, o rock’n’roll finlandês, o humor seco da solidariedade proletária, o humanismo esparso e tocante, desenhado com três linhas e já está, os acasos cruéis do destino que troca as voltas, a dedicatória final ao falecido mestre da escrita e da história do cinema Peter von Bagh; Kaurismäki mais Kaurismäki não há. (E é, aliás, o único filme da competição este ano a ser projectado em película de 35mm.) 

Ao melodrama enxuto e sóbrio de Khaled, o estranho a tentar sobreviver numa terra estranha, contado com aquela redução ao essencial de que o finlandês é capaz, contrapõe-se a comédia em câmara lenta das tentativas de Wikström, o ex-caixeiro-viajante, de dar a volta por cima à Caneca Dourada, o bar-restaurante nas lonas que comprou por tuta e meia (com empregados incluídos). (“Uma boa escolha”, aconselha uma cliente. “As pessoas bebem muito quando os tempos vão mal e ainda bebem mais quando os tempos vão bem.”)

Os contrastes tocam-se, iluminam-se mutuamente, o filme ganha uma ressonância contemporânea, uma urgência temática; é o segundo filme da planeada trilogia portuária iniciada com Le Havre (2011), mas, por favor, não lhe chamem “trilogia portuária”, porque o realizador diz que “agora passou a ser uma trilogia dos refugiados” e espera “que o próximo filme seja uma comédia feliz”. (Já agora: é uma trilogia porque “sou tão preguiçoso que tenho sempre de fazer uma trilogia para fazer qualquer coisa em vez de ficar em casa a cortar madeira”, diz o realizador.)

Stand-up desacelerada

Não é surpresa para quem gosta de Kaurismäki e acompanha o seu cinema que a conferência de imprensa se tenha tornado uma espécie de performance de comédia stand-up desacelerada. Há uma interpretação musical a capella de Sakari Kuosmanen, perguntas que liminarmente não são respondidas (“Pode falar-nos um pouco da banda sonora?” “É muito normal: algum silêncio, diálogos, canções e o som constante do vento”) com a desculpa da surdez conseguida ao rodar, em 1981, um documentário de rock’n’roll. Vir aqui à espera de um statement artístico é mentira; quando uma jornalista pergunta sobre a procura de identidades num filme onde toda a gente se procura reinventar para encontrar a paz, Kaurismäki pura e simplesmente não responde, apenas diz: “Vou continuar a resposta à pergunta anterior, porque é isso que se faz nestas ocasiões.”  

Mas há também, e isso é visível no modo como adopta um tom sério para falar de coisas sérias, um reflexo da vontade que Kaurismäki teve de falar para o seu tempo e de levar as pessoas a compreender o que está em jogo. “Somos um país de cinco milhões de pessoas e, quando vieram 30 mil refugiados, os finlandeses acharam que íamos ter uma guerra como tivemos com a Rússia”, diz. “Eles acharam que os refugiados iam roubar tudo — o carro novo ou, senão o carro novo, pelo menos a escova para lavar o carro novo ou o balde de água. Não gostei de ver essa intolerância nos meus compatriotas. Jean Renoir disse que A Grande Ilusão foi a sua tentativa de evitar a Segunda Guerra Mundial, e não o conseguiu. O cinema não tem esse tipo de poder. Mas espero conseguir convencer as três pessoas que forem ver este filme de que hoje o refugiado é ele e amanhã podemos ser nós.” Enquanto fala, aponta para Sherwan Haji, o actor sírio que interpreta Khaled, alguém que já conhecia o cinema de Aki antes de ir para a Finlândia e que o realizador diz ter sido “um golpe de sorte”. 

Kaurismäki pode dizer, e diz: “Nunca quis dizer nada na minha vida.” Mas isso não o impede de tomar posição quando acha que o deve fazer. “Não temos, no último século, tomado conta da nossa cultura humanista. Temos um tipo de organização democrática que se vai desfazer em dez anos porque não somos boas pessoas. A nossa cultura resume-se a um milímetro de poeira sobre os nossos ombros. Há 50 anos tínhamos 60 milhões de refugiados na Europa; então ajudámo-los, hoje vemo-nos como inimigos. Se não formos capazes de ver isso e de sermos humanos, então não devíamos sequer existir, não merecemos existir.” 

E remata com um elogio a Angela Merkel: “Respeito a senhora Merkel porque parece ser a única política interessada no problema. Todos os outros se limitam a fazer joguinhos.” Faz uma pausa. “Isto não é uma declaração política.” Não precisa. Basta fazer os seus filmes. Quem sabe, até lhe dão o Urso de Ouro por The Other Side of Hope.