A locomotiva da liderança americana já descarrilou

Nova Iorque, EUA. — Leio que alguma direita portuguesa se apresenta enfadada com as comparações entre Trump e Hitler. Respeitemos então esse desconforto. Comecemos antes por uma razão para gostar do novo presidente americano, pelo menos para certa esquerda mais numerosa do que se pensa: uma comparação entre Trump e Estaline.

Há em Moscovo um certo hotel, o Moskva, cuja fachada tem uma metade esquerda distinta da metade direita. De um lado o estilo é mais simples, no outro é mais decorativo. De um lado as janelas são encimadas por frontões triangulares, do outro por uma sugestão de arquivoltas. A explicação é que o arquiteto do hotel, Alexei Chtchusev, vivia como toda a gente aterrorizado por Estaline. Sem conseguir decidir-se entre os dois alçados que já tinha desenhado, submeteu ao líder soviético um esquema com ambas as fachadas. Se Estaline assinasse do lado esquerdo da folha, fazia-se uma delas. Se assinasse do lado direito, fazia-se a outra. Só que Estaline assinou exatamente a meio. Ninguém teve coragem de lhe perguntar o que queria ele exatamente. O hotel foi construído com as duas fachadas diferentes.

Verdade? Mentira? Lenda? Rússia. E, desde 20 de janeiro próximo passado, também os EUA.

Não, Trump ainda não mandou construir nenhum Gulag e Estaline não se ficou só pelos hotéis. Evitemos novos problemas com os puristas da Tiranologia Comparada. É neste detalhe crucial que Trump se aproxima de Estaline: ninguém sabe o que ele quer exatamente. Ninguém — muito menos ele — sabe explicar o sentido das suas palavras. Por consequência, toda a relação com Trump é necessariamente um exercício de adivinhação que começa pelos seus ajudantes na Casa Branca, passa pelo Congresso e pelos juízes, dissemina-se pelos jornalistas e comentadores e acaba em todo e cada cidadão e residente neste país. Nos últimos dias de regresso temporário a este país, todas as conversas que tenho acabam sendo sempre sobre Trump, e todas as conversas sobre Trump acabam da mesma maneira. Esta ordem executiva, é mesmo para banir toda a gente que vem daqueles sete países muçulmanos? Incluindo os que já têm cartão de residência nos EUA? Uns assessores dizem que sim, outros dizem que não. Os juízes dizem que não podem trabalhar assim e à cautela invalidam tudo. Passado poucas horas, a pergunta já é outra: estas rusgas que se verificam por todo o país todo para deportar imigrantes é para serem iguais às que já havia ou de uma escala e de uma dimensão diferente? Depende da audiência: na CNN garante-se que são iguais, na Fox que são diferentes, muito maiores, muito melhores, as melhores rusgas. E o famoso muro é para construir? Sim, explica uma assessora, mas em certas parte será um muro “invisível”, feito com tecnologia — a fazer lembrar aquelas roupas fantásticas, moderníssimas, invisíveis, que tão bem assentavam ao corpo nu do Rei.

Uma conselheira de Trump, em direto da Casa Branca, apela à compra dos produtos de vestuário e beleza vendidos pela filha do Presidente. Outro porta-voz, também em direto da Casa Branca, diz que a conselheira está agora sob aconselhamento por ter dito o que disse. Logo a seguir, uma nova fuga de informação sugere que o Presidente está furioso com o porta-voz e a favor da conselheira. Mas quem começou o carrossel foi ele, ao atacar no twitter uma empresa que deixou de distribuir a marca da sua filha. Os americanos não têm outra escolha senão tentar viver dentro da cabeça de Trump e com as consequências das adivinhações sucessivas daqueles que o rodeiam.

Quem tem escolha é o resto do mundo. A liderança americana, que pautou as relações internacionais durante as últimas décadas, descarrilou de um momento para o outro — é o que acontece nos descarrilamentos. E nós, na Europa e nos outros continentes, não podemos ficar à espera de que os americanos ponham a locomotiva no lugar. O presidente que veio para acabar com o multilateralismo acabou por lhe dar toda uma nova razão de ser.