Crítica

Viagem ao coração das trevas

Romance profundamente reflexivo sobre o confronto entre o homem e a sua natureza mais recôndita, os desejos e o papel que cada um é obrigado a representar.

O confronto entre o homem e a sua natureza mais escura, o seu “coração das trevas”, é o tema central de Voss
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O confronto entre o homem e a sua natureza mais escura, o seu “coração das trevas”, é o tema central de Voss

Em 1848, o naturalista e explorador prussiano Ludwig Leichhardt (natural da actual Brademburgo, na Alemanha) desapareceu no interior do deserto australiano durante a sua terceira exploração; as causas que levaram ao trágico desfecho mantêm-se até hoje um mistério. Inspirando-se na vida deste cientista, o escritor australiano Patrick White (1912-1990) – Prémio Nobel de Literatura em 1973 – escreveu um romance épico, Voss (publicado em 1957), agora traduzido para português.

Herr Voss, um alemão “nebuloso”, chegara àquele lugar na Nova Gales do Sul havia então dois anos e quatro meses. Estava a preparar a sua expedição científica ao deserto central da Austrália, “uma expedição ao interior deste país miserável” (como diz uma das personagens, o presunçoso tenente Radclyffe), e necessitava de um patrocinador, de alguém que ao mesmo tempo que avançasse com o dinheiro necessário, tivesse conhecimentos sociais em diferentes geografias que o pudessem ajudar ao longo do périplo. Esse homem era Edmund Bonner, comerciante inglês de tecidos, um vaidoso self made man que “ansiava por sentir a inveja de terceiros”. No início do romance encontram-se os dois em sua casa, onde o “silêncio assume uma forma escultural”. Mas não sem antes o desajeitado, e por vezes rude, alemão, ter sido recebido por uma sobrinha do senhor Bonner, Laura Trevelsyan, nascida em Inglaterra e enviada para a colónia por ter ficado orfã ainda criança. Os dois vão ser as personagens principais do romance, cuja narrativa vai intercalando episódios das suas vidas, numa espécie de diálogo ‘metafísico’ através de ‘visões’. A expedição inicia-se pouco tempo depois: Voss parte com uns quantos colonos (gente que se “ocupava a desbravar e povoar a sua terra adoptiva”), entre os quais Judd, um antigo condenado, e em breve se encaminharão para o interior do deserto. De imediato se percebe que esta viagem ao “coração das trevas” australiano é, ao mesmo tempo, uma viagem ao desconhecido que cada um daqueles homens carrega dentro de si. As desventuras sucedem-se: secas, doenças, chuvas diluvianas, adversidades sem fim, e acabam por ter de se refugiar numa caverna durante semanas. O grupo tem de se dividir em dois, cada um com o seu líder. Os meses passam… e no final do romance passaram vinte anos sobre a data da partida.

Mais do que a história contada, o que faz desta narrativa uma obra singular – que muitos colocam entre os melhores romances da literatura do século XX escrita em inglês, e que classificam como uma das obras mais notáveis da era modernista – são as inesperadas reflexões, quase desconcertantes e profundas, sobre as complexas personalidades dos protagonistas. O por vezes desagradável senhor Voss, era “à sua medida, um espantalho”, um homem que desconfiava de tudo o que lhe era exterior, e que se sentia “mais feliz quando em silêncio, que é imensurável, como as distâncias e as potencialidades de uma pessoa”. Sentia-se destruído pelos outros, mais do que pela sede, ou a febre, ou a fome ou o cansaço físico. Patrick White faz dele quase uma figura crística ao empurrá-lo para o inferno do deserto onde parece esconder-se o diabo, mas não sem antes o fazer passar pelo jardim onde avista Laura. Aliás, todo o romance remete para um estranho, e nem sempre muito evidente porque magistralmente velado, simbolismo cristão, não deixando de fora referências a um destino que foi antes estabelecido. “O comportamento humano é uma série de guinadas cuja direcção é – como, por vezes, se sente – inevitável.”

A outra personagem central, a jovem Laura, orfã e desenraizada, acaba por se tornar tão fascinante como o próprio Voss. A sua personalidade cheia de abismos, deixa-nos por vezes avistar os recantos escuros do espírito humano; a sua vida assemelha-se a uma constante luta num caminho que sabe que tem de trilhar mas do qual procura desviar-se. “O mais intenso tormento ou exaltação era, na verdade, o mais íntimo. Como a sua recente decisão: a de que não poderia continuar uma crente convicta naquele Deus em cujos poderes e benevolência fora, por uma imensidão de preceptoras e pela sua boa tia, tão solenemente instruída. (…) A verdade é que não havia ninguém [com quem partilhar a experiência] e ela, perante a ausência de um grupo de salvamento, tinha de ser forte.”

O confronto entre o homem e a sua natureza mais escura, o seu “coração das trevas”, é o tema central de Voss, que White trata de forma magistral (genial, para alguns) recorrendo a técnicas narrativas apuradas, como o “fluxo de consciência” do narrador que por vezes parece querer dar a ideia de que mistura a sua voz com as das personagens, sem daí advir qualquer sensação de estranheza. Mas ao mesmo tempo que o leitor é levado às profundezas, White não deixa por vezes de reflectir na questão colonial australiana, mostrando, também aqui, como um país que foi em parte povoado por condenados, pode ter medo de si próprio: “todos têm ainda medo, ou a maior parte de nós, deste país”, diz uma personagem, “embora não o admitamos. Ainda não o percebemos.”