Opinião

O fenómeno e a interrogação Macron

E se o próximo Presidente francês for Emmanuel Macron? A hipótese, que ainda há poucas semanas pareceria irrealista, começa a fazer o seu caminho e algumas sondagens apontam mesmo para essa possibilidade. De qualquer modo, se Macron passar à segunda volta das presidenciais, a 7 de Maio próximo, ele começa já a ser visto como o candidato melhor colocado para derrotar Marine Le Pen, o pesadelo de todos os europeístas, alma-gémea de Trump (embora mais elaborada politicamente do que o seu comparsa americano) e dos soberanistas e xenófobos do Velho Continente, do holandês Wilders ao húngaro Órban.

Sendo as próximas eleições francesas geralmente consideradas como um teste decisivo à sobrevivência da União Europeia (UE) e significando a vitória de Le Pen a sua morte anunciada, o triunfo de Macron representaria uma oportunidade para recuperar o espírito do projecto europeu, nestes tempos de desvario trumpista e hostilidade declarada à UE. Seja como fôr, Macron é, sem dúvida, o mais europeísta de todos os candidatos à esquerda ou à direita em França, senão mesmo o único verdadeiramente europeísta, e poderia dinamizar a reconstrução do motor franco-germânico, formando até uma dupla com o candidato social-democrata a chanceler, Martin Schulz, também surpreendentemente favorecido por algumas sondagens com vista às eleições do Outono na Alemanha.

Aliás, segundo certos estudos de opinião, o pró-europeísmo é considerado uma das principais vantagens com que Macron se apresenta na corrida, além do facto de não pertencer a nenhum partido político – estando o «establishment» partidário francês, como se sabe, em estado de esclerose avançada –, de se declarar equidistante da esquerda e da direita clássicas e ter evitado até agora comprometer-se com um programa político excessivamente detalhado, antes lançando propostas de corte com o passado nos seus comícios muito concorridos e onde a presença de um público jovem tem sido assinalada (ele próprio, com 39 anos, é o mais jovem dos candidatos).

Entretanto, Macron tem beneficiado de outros factores, designadamente a acelerada perda de credibilidade do candidato da direita tradicional, François Fillon, na sequência do escândalo dos empregos fictícios atribuídos à sua mulher e dois dos seus filhos, e o aparecimento como candidato socialista de Benoît Hamon, com posições marcadamente esquerdistas (e em concorrência com Jean-Luc Mélenchon, conotado com a esquerda radical).

Macron diz-se progressista, por oposição aos conservadorismos da direita e da esquerda, mas a pose enérgica e optimista com que se apresenta não disfarça o culto da ambiguidade nem o seu trajecto contraditório: foi banqueiro, conselheiro de Hollande e ministro da Economia do Governo socialista. Ficou também conhecido por uma frase comprometedora: "É preciso que os jovens franceses tenham o desejo de se tornar milionários"…

Não é de esquerda nem de direita ou é de esquerda e de direita, segundo uma das suas fórmulas conhecidas, situando-se assim ao centro do espectro político, por enquanto sem candidato assumido. O carácter ainda bastante flou do seu programa – que é, por outro lado, um elemento estratégico da sua campanha –, o perfume de calculismo que o envolve, o seu auto-centramento e o perfil de tecnocrata, produto de marketing e homem-providencial (epíteto que rejeita, embora o seu movimento, En Marche!, decalque as primeiras letras do seu nome: Emmanuel Macron) suscitam reservas e desconfianças. Tudo somado, porém, ele traz o único vento de novidade que se faz sentir na paisagem política francesa e, tanto quanto é possível antever, representa a resposta menos derrotista à ameaça Le Pen. O fenómeno Macron é, decerto, uma interrogação. Mas, nos tempos que correm, é apesar de tudo uma interrogação positiva.