Barragens: 17 estão a menos de 40% da capacidade. Sado é caso mais preocupante

Barragens na bacia do Sado estão a 28,2% da sua capacidade de armazenamento, o nível mais baixo desde 1995. Está a ser dada prioridade a água para consumo humano, medida habitual apenas nos meses de Verão.

Espera-se que as chuvas da Primavera reponham os níveis nas barragens alentejanas
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Espera-se que as chuvas da Primavera reponham os níveis nas barragens alentejanas RUI GAUDÊNCIO

As barragens da bacia do rio Sado apresentam um nível anormalmente baixo de água para esta época do ano. A situação arrasta-se desde 2015, mas agravou-se com um Outono e um início do Inverno pouco chuvosos. A situação actual é considerada “preocupante” pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e já levou à aplicação de medidas de optimização do uso da água para a agricultura. É a albufeira do Alqueva que está neste momento a suportar o abastecimento das populações na região.

Os dados de Janeiro do boletim mensal do Serviço Nacional de Informação de Recursos Hídricos (SNIRH), que acabam de ser publicados, mostram que todas as bacias hidrográficas do país tinham níveis de armazenamento de água abaixo da média para esta altura do ano. Nuns casos, a chuva dos últimos dias mitigou o problema. Noutros, não. A situação mais complicada encontra-se na bacia do Sado, onde as barragens estão com menos de metade do preenchimento habitual nesta época: a taxa de ocupação está em 28,2%, quando a média no período homólogo se situa em 61,6%. “É preciso recuar até 1995, quando se registava um nível de armazenamento de 18,1%, para encontrar uma situação com valores tão baixos”, avalia a directora do departamento de recursos hídricos da APA, Maria Felisbina Quadrado.

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A situação é considerada “preocupante” pela mesma responsável e já levou à aplicação de “estratégias de curto e médio prazo” para evitar o agravamento da escassez de água e impedir que, no Verão, haja interrupções no abastecimento às populações, tal como aconteceu em 2005. As medidas aplicadas passam por uma “utilização mais eficiente da água”, avança. Em situações como esta, existe uma hierarquia que estabelece que a água para o consumo humano é prioritária, seguindo-se a água destinada aos animais. A sua utilização em explorações agrícolas é considerada menos urgente.

É precisamente no uso pela agricultura que tem havido uma utilização racional do uso da água em toda a zona da bacia do rio Sado, que abrange boa parte da zona litoral do Alentejo, incluindo capitais de distrito como Évora, Beja e Setúbal. Estas medidas costumam ser tomadas nos meses mais próximos do Verão e a sua adopção em pleno Inverno é excepcional.

À espera das chuvas da Primavera

A falta de água na bacia do Sado ainda não obriga, porém, a medidas urgentes, mas está a ser acompanhada em permanência pela Comissão de Gestão de Albufeiras. A responsável da APA espera, entretanto, que as chuvas da Primavera possam repor os níveis de água nas barragens alentejanas.

Outra das soluções accionadas face ao cenário de escassez na bacia do Sado foi a aceleração da ligação da albufeira de Monte da Rocha, em Ourique, ao sistema do Alqueva. Esta é a única barragem da região que não está ligada à maior albufeira do país. É esse sistema de ligações ao Alqueva que tem estado a impedir situações de maior escassez na região.

Com custos acrescidos, motivados pela necessidade de bombagem de água, é a água que a albufeira do Alqueva tem colocado nas restantes barragens que tem garantido o abastecimento para o consumo humano na região. O Alqueva encontrava-se, no final do mês passado, com um preenchimento de 77,8%, ligeiramente abaixo da sua média para esta altura do ano (82%).

Quando se analisa os dados de cada uma das dez barragens da zona hidrográfica do Sado, verifica-se que apenas duas — Monte Gato e Monte de Miguéis, ambas em Ourique — estão acima de 80% da sua capacidade. As restantes têm menos de metade das águas que podem armazenar. As situações mais extremas são as de Monte da Rocha, também em Ourique (15,9%), e Roxo, no concelho de Aljustrel (15,4%). A diferença entre as três barragens do concelho de Ourique explica-se, em parte, pelo facto de a albufeira de Monte da Rocha ser muito plana, estando por isso mais exposta a fenómenos de evaporação quando as temperaturas são mais altas.

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A excepção é precisamente o Alqueva: “Tem grandes reservas, que lhe permitem aguentar-se mesmo em alturas de menos chuva.” A barragem alentejana, concluída em 2002, armazena até 4150 hectómetros cúbicos. Em comparação, a barragem de Castelo de Bode, no rio Zêzere, responsável por boa parte do abastecimento a Lisboa, tem um quarto desta capacidade.

Um Janeiro seco

A situação vivida na bacia do Sado não é surpreendente para as autoridades nacionais. O risco mais grave identificado quando da elaboração do primeiro Plano de Gestão da Região Hidrográfica, em 2009, foi o risco de seca, lembra a professora de recursos hídricos do Instituto Politécnico de Setúbal, Ana Mata. Enquanto o índice de risco de escassez de água para Portugal é de 14%, o da bacia do Sado é de 36%. A partir de 40% já se considera que há risco de escassez severa.

Mas o problema actual está intimamente relacionado com o clima. “A menor precipitação dos últimos dois anos afecta de forma mais intensa esta bacia”, avalia a mesma especialista. Entre 2015 e 2016, houve 18 meses com precipitação abaixo da média naquela região e apenas dois meses com chuvas acima do normal.
A situação agravou-se com a falta de chuva nos meses de Outono e no início do Inverno. O boletim do clima relativo a Janeiro, divulgado na quinta-feira pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera, classifica o mês como “muito seco”. O total de precipitação foi cerca de 53% do normal, fazendo deste o sexto Janeiro com menos chuva desde o ano 2000.

Mas já em 2015/16 a bacia do Sado “apresentou valores relativamente baixos” de armazenamento de água, segundo Maria Felisbina Quadrado. A única vez em que o armazenamento de água nas barragens da bacia hidrográfica do Sado atingiu os 50% da sua capacidade foi em Maio de 2015. Nos restantes meses esteve sempre abaixo desse valor e, desde Agosto do ano passado, tem-se mantido sempre abaixo dos 30%.