PCP e trabalhadores da Carris de acordo: privatizar ou concessionar, nunca

Comunistas e organizações representativas da Carris continuam a discordar sobre o modelo de gestão. Municipalização em Lisboa é o ideal, diz a CT: quem quiser mandar também tem que pagar.

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Fabio Augusto

Depois dos desentendimentos públicos sobre natureza municipal da Carris entre os representantes dos trabalhadores da empresa de transportes e o PCP, as duas horas de reunião que tiveram esta tarde de sexta-feira permitiram-lhes colocarem-se de acordo pelo menos numa questão fundamental: é preciso impedir que a Carris possa vir a ser privatizada, concessionada ou subconcessionada pela Câmara de Lisboa no futuro. E isso será proposto na sequência do pedido de apreciação parlamentar cuja discussão está marcada para dia 24 deste mês.

O encontro que “teve um debate de ideias intenso mas muito esclarecedor”, como descreveu aos jornalistas Paulo Gonçalves, o representante da Comissão de Trabalhadores da Carris, serviu para perceber que o “objectivo comum é conseguir evitar a privatização ou a concessão” no futuro. “Podemos vir a ter um executivo na Câmara de Lisboa que decida isso e o nosso objectivo é criar uma cláusula que salvaguarde que a empresa será sempre pública.”

Questionado pelo PÚBLICO, o dirigente da CT da Carris disse que “não faz sentido que a empresa seja integrada no sector empresarial do Estado” ou que a sua gestão possa ser entregue a uma entidade supramunicipal (como a Área Metropolitana ou a CCDR). “Nós servimos franjas dos concelhos limítrofes de Loures, Odivelas, Oeiras e Amadora, mas não servimos estes concelhos, apenas entramos lá. A Carris deve servir Lisboa e por isso concordamos com a municipalização.”

E esses municípios onde entram devem ter uma palavra a dizer sobre a gestão ou a rede? “Até podem ter uma palavra a dizer… mas para ‘botar’ palavra devem pagar. Se a Câmara de Loures ou de Oeiras quiserem colaborar nos custos das carreiras que as servem não teremos nada contra”, vincou o representante da Comissão de Trabalhadores. “Não vínhamos convencer o PCP de nada e o PCP também não nos convenceu a nós”, afirmou Paulo Gonçalves sobre as posições divergentes em relação ao partido acerca de quem deve ter a gestão da Carris.

A reunião fora pedida por algumas organizações representativas dos trabalhadores da Carris depois de se saber que o PCP pedira a apreciação parlamentar do decreto-lei do Governo que entregou a empresa à Câmara de Lisboa. Mas num primeiro encontro em que estiveram presentes também outros sindicatos que não tinham subscrito este pedido, as primeiras abandonaram a reunião em protesto. Voltaram esta sexta-feira, num clima de maior paz.

O deputado comunista Bruno Dias voltou dizer que o partido é “contra a municipalização” e insistiu que o modelo ideal seria ter a Carris integrada no sector empresarial do Estado. “A Carris não é importante só para uma cidade ou concelho, mas sim para uma região”, vincou, admitindo ser uma “divergência de opinião” que se mantém entre o PCP e os trabalhadores.

Mas remeter a gestão da empresa para outra entidade que não a Câmara Municipal de Lisboa não é, para já, é possível porque implicaria ter que pedir a cessação do decreto-lei do Governo que entregou a Carris à autarquia. Por isso, o que o PCP vai fazer é propor alterações, nomeadamente a introdução de uma cláusula que taxativamente impeça o município de transferir a gestão para qualquer entidade privada.

Questionado sobre a possibilidade de um diploma com essa proibição vir a ter o veto do Presidente da República, como aconteceu com a empresa de transportes do Porto, Bruno Dias disse acreditar ser possível “encontrar uma solução” que permita agradar a Marcelo Rebelo de Sousa.

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