Torne-se perito Crítica

A América enlouqueceu

“A América enlouqueceu” diz uma personagem de 4 3 2 1, o primeiro romance de Paul Auster em sete anos. Ler isso agora é transpor forçosamente a frase para o presente num inquietante efeito de espelho histórico.

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FOTO: DANIEL ROCHA

Archibald Isaac Ferguson nasceu em Newark no dia 3 de Março de 1947. Pertence à terceira geração de imigrantes judeus de origem russa. É o único filho de Stanley, dono de uma loja de eletrodomésticos, e de Rose, uma amante de fotografia que gosta de olhar rostos. Muito resumidamente, estas são as circunstâncias imutáveis do protagonista do mais recente romance de Paul Auster, personagem a quem o escritor deu quatro possibilidades de ser, isto é, quatro existências paralelas onde em cada uma testa o poder da imprevisibilidade no desenrolar de uma vida. No caso, as quatro vidas de Archie Ferguson.

A premissa de 4 3 2 1, assim se chama o livro, o primeiro romance de Auster em sete anos, é um e se? A metáfora da escolha da estrada serve e é usada pelo escritor no miolo da narrativa, na deambulação interior de um dos caminhos possíveis de Archie Ferguson. “...desde o início da sua vida consciente, a sensação constante de que as bifurcações e as paralelas das estradas escolhidas e não escolhidas estavam todas a ser percorridas pelas mesmas pessoas ao mesmo tempo, as pessoas visíveis e as pessoas sombra, e de que o mundo tal como era nunca podia ser mais do que uma fração do mundo, pois o real também consistia no que podia ter acontecido mas não aconteceu, de que uma estrada não era melhor nem pior do que qualquer outra estrada”.

Na ficção, Ferguson nasceu um mês depois de Auster. Personagem e autor partilham a mesma geografia e o mesmo tempo, uma América pós-segunda Guerra, entre as convulsões sociais dos anos 50 e 60; com Cuba, o Vietname, Israel; Kennedy e Nixon; os direitos civis, os tumultos rácicos, a contestação política e a liberdade sexual. Tudo está em ebulição e Auster tenta captar esse momento, o transformador, “o grande acontecimento que leva tudo à frente e muda a vida de todos, o momento inesquecível em que uma coisa acaba e outra começa”, irrompendo pelo quotidiano, aqui exaustivamente descrito, desde os momentos mais elevados aos mais monótonos, por um narrador que existe dentro da cabeça das personagens. É uma toada lenta a procurar profundidade, frases longas que pretendem capturar o leitor para um íntimo, o da formação do carácter, da construção de uma personalidade à medida que o tal imponderável surge e elimina possibilidades...

4 3 2 1... uma contagem decrescente. Primeiro Ferguson condicionado pelo ambiente social, familiar, genético, a poder ser quase tudo. Jornalista, escritor, jogador de basquetebol, o rapaz que vê morrer um amigo ou aquele que perde o pai aos sete anos. Assim, numa frase: “Ferguson vivia em terreno seguro, as suas necessidades materiais eram satisfeitas de um modo consistente, consciencioso, um teto, três refeições por dia, roupa acabada de lavar, sem dificuldades físicas a suportar, sem tormentos emocionais para travar o seu progresso, e naquele período entre os cinco e os sete anos e meio, ele estava a tornar-se no que os educadores teriam chamado uma criança normal e saudável de inteligência acima da média, um belo espécime do rapaz americano de meado do século. Porém, estava demasiado envolvido no tumulto da sua própria vida para prestar atenção ao que estava a acontecer fora do círculo dos seus interesses imediatos, e como os pais não eram o tipo de pessoas que partilhavam as suas preocupações com crianças pequenas, ele não teve como preparar-se para o desastre que ocorreu no dia 3 de novembro de 1954, que o expulsou do seu Éden juvenil e transformou a sua vida numa vida completamente diferente.” E o caminho estreita-se.

Entre 1947 e 1971, acompanhamos os modos diferentes de ser de uma mesma pessoa num romance tão grande quanto a sua ambição. Quase 900 páginas, uma escrita muito mais descritiva do que aquela a que Auster habitou os seus leitores desde A Trilogia de Nova Iorque, agora mais próxima do realismo do que do pós-modernismo de que ele foi um dos nomes mais sonantes no final do século XX americano. Há temas recorrentes: a morte, a surpresa, os escritores e um olhar para a literatura, a presença da música, como tema e como efeito, Nova Iorque, a identidade, o judaísmo. A grande diferença talvez esteja na eficácia. Auster, ao querer dar hipóteses e ao mostrar como elas vão limitando caminhos, esgota-se em detalhes, e a formação de Archie leva a uma ilusão de profundidade, faltando-lhe emoção. Estamos -- vai-nos lembrando através de um dos Ferguson, um adolescente --  num mundo irreal "muito maior do que um mundo real" onde "havia mais do que espaço suficiente nele para sermos nós próprios e não o sermos ao mesmo tempo.” Nesse mundo irreal, onde tudo se poderia passar como no real, teria talvez de haver mais contenção para fazer esquecer o exercício literário em si mesmo. Ou seja, talvez seja excessivo esgotar Archie para mostrar que ele existiu. Ou podia ter existido num tempo que nos é dado com muitos flashes de informação histórica, biográfica, lista de títulos, nomes, acontecimentos. O seu centro decorre nos anos 60, com todas as mudanças que esse tempo trouxe. Por esses dias, uma personagem diz que a América enlouqueceu. Ler isso agora é transpor forçosamente a frase para o presente num inquietante efeito de espelho histórico.

Há momentos muito bons, os de um Archie inquieto, inseguro. Mas o romance oscila. E se fosse mais contido? Não seria decerto o romance que Auster quis fazer.

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