Mogherini vai a Washington em missão de apaziguamento, mas não se reúne com Trump

A alta representante para a Política Externa da União Europeia vai encontrar-se com o novo secretário de Estado, Rex Tilllerson, e tentar ultrapassar a crise que afecta as relações transatlânticas.

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Federica Mogherini viajou para Washington Reuters/FRANCOIS LENOIR

A alta representante da União Europeia para a Política Externa, Federica Mogherini, viajou esta quinta-feira para Washington com uma missão fora do habitual: a de reparar as relações transatlânticas entre o bloco europeu e o norte-americano, que mergulharam na crise depois da tomada de posse de Donald Trump como Presidente dos Estados Unidos.

As incendiárias declarações de Trump, tanto na campanha eleitoral como já depois de ter entrado na Casa Branca, em assuntos tão diversos (e delicados) quanto a NATO, a Rússia, o Irão, o “Brexit”, as alterações climáticas ou os refugiados e a imigração, têm feito soar os alarmes em Bruxelas e várias outras capitais europeias quanto a uma mudança drástica das políticas norte-americanas.

A piorar o quadro, e a alimentar a inusitada hostilidade entre os tradicionais aliados e parceiros da NATO, está a possibilidade de vir a indicar Ted Malloch para o cargo de embaixador dos EUA na União Europeia – uma escolha que vários eurodeputados classificaram como provocatória. O empresário foi apenas um dos vários ouvidos por Trump para esta posição, mas tem-se multiplicado em declarações que os líderes europeus consideraram “hostis” e “ofensivas”, manifestando-se apologista da “domesticação” da União ou favorável ao colapso do euro. Além disso, a sua credibilidade está em jogo, depois de uma notícia do Financial Times ter exposto factos errados publicados na sua autobiografia, intitulada Davos, Aspen & Yale.

Criar um vínculo com Rex

No seu primeiro contacto com o novo secretário de Estado norte-americano, Rex Tillerson, a chefe da diplomacia europeia vai tentar evitar todas as armadilhas e ameaças representadas pelas ideias de Trump, e concentrar-se no estabelecimento de um novo vínculo que permita uma relação funcional e produtiva entre os dois blocos.

Segundo fontes comunitárias, citadas pelo El País, Federica Mogherini vai levar três grandes temas globais para discussão – os tratados de livre comércio, as alterações climáticas e o combate ao terrorismo – e ainda abordar questões concretas ligadas ao Médio Oriente, como o processo de paz israelo-palestiniano e a guerra da Síria; crise da Ucrânia e acordo nuclear do Irão. São temas em que os EUA e a União Europeia têm interesses comuns e desempenharam papéis importantes como mediadores ou negociadores.

Apesar de não estar na ordem de trabalhos, a questão da imigração e dos refugiados poderá também ser levantada, na sequência das polémicas propostas do Presidente Donald Trump para a construção de um muro na fronteira com o México ou do caos que se seguiu à assinatura de uma directiva a proibir a entrada no país de cidadãos de sete nações predominantemente muçulmanas e a suspender o programa de acolhimento de refugiados.

Vários dirigentes europeus criticaram abertamente as iniciativas do Presidente americano. A própria Federica Mogherini declarou em La Valetta, antes de seguir para os Estados Unidos, que do ponto de vista europeu, a “construção de muros e o fecho das fronteiras não é a melhor forma de lidar com o desafio” das migrações.

A agenda de contactos de Mogherini em Washington inclui vários dirigentes da Casa Branca, como o conselheiro nacional de segurança, Michael Flynn, ou o genro e conselheiro presidencial, Jared Kushner. Mas não está prevista nenhuma conversa com o Presidente Donald Trump.

A alta representante também visitará o Congresso, onde reunirá com os presidentes dos comités de Negócios Estrangeiros, Segurança Nacional e Forças Armadas, e falará no Atlantic Council, um think tank dedicado às matérias transatlânticas, sobre a “construção de uma relação forte entre a União Europeia e a nova Administração americana”, segundo se lê no comunicado do serviço de imprensa da Comissão.