Crítica

O visitante tem de inventar a arte

É no diálogo com a condição museológica de Serralves que a exposição de Philippe Parreno ganha a sua profundidade e alcance.

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Apesar dos dez mil balões, dos duzentos desenhos emoldurados e das dezenas de esculturas de fichas eléctricas, o museu parece quase vazio. Apesar das variações de cor entre as diferentes salas, do ruído a lembrar uma espécie inusitada de banda sonora, parece estar-se face a uma mesma obra que se repete sala após sala.

Uma repetição que, depois de visitado todo o museu, não parece, à primeira vista, constituir uma estratégia eficaz de ocupação de um espaço tão monumental como o Museu de Serralves. É só a um segundo olhar que as subtis particularidades da exposição de Philippe Parreno começam a tornar-se presentes e nós, visitantes impreparados para enfrentar um museu sem coisas e quase vazio, começamos a descobrir estar em causa uma proposta de metamorfosear o museu da sua condição de suporte, mais ou menos qualificado e indiferenciado, da arte e da vontade dos artistas, para ser a própria obra.

Esta estratégia de usar o espaço expositivo como elemento das obras não é uma novidade no trabalho de Parreno (e de outros artistas que através de obras site-specific dialogam com as particulares dos lugares onde expõem).

A diferença, como explica em entrevista, é que desta vez teve de se confrontar com um espaço expositivo muito qualificado e com o facto de estar num museu, o que convoca todo um conjunto de protocolos sobre o que deve constituir uma exposição, como se devem comportar os  visitantes, etc. E é no diálogo com a condição museológica de Serralves que esta exposição ganha a sua profundidade e alcance. E este diálogo, como tão bem o artista explica, é feito com as obras e não através obras. Não se trata de uma diferença retórica, mas de um entendimento das obras de arte enquanto coisas incompletas que só nos rituais que os visitantes inventam, com e a partir delas, ganham a sua completude: por isso Parreno lhes chama quasi-objectos. Está em causa uma leitura da arte não enquanto objecto pronto a ser consumido, mas lugar de resistência a leituras rápidas e à lógica imediatista contemporânea do comer e esquecer, como diz.

Apesar de as suas obras serem muito iconográficas e fotogénicas e aparentemente imediatas, exigem que o visitante se constitua como um colectivo que, de cada vez e a cada visita, inventa a arte. Ou seja, cada um tem de inventar aquela experiência, porque aquilo que o artista dá são as condições para que um acontecimento ou situação se possam dar. Por isso, podemos pensar que esta exposição é uma mise-em-scéne para uma situação da qual, contrariando todas as lógicas autoritárias de muita arte, o visitante é o compositor.