Opinião

A instrumentalização do “trumpismo” para efeitos de “política caseira”

Em três matrizes fundamentais do projecto de Trump, o PCP e o Bloco estão muito mais próximos dele do que qualquer outro partido português, aí incluída a alegada direita.

1. Sou um leitor habitual de Pacheco Pereira, de há larguíssimos anos a esta parte, muito antes de eu ter entrado na vida política. O contrário, natural e compreensivelmente, não será verdade, pois decorre expressamente do seu texto de sábado último que não leu o artigo que aqui escrevi, em que se condena Trump e o “trumpismo” de um modo categórico e incondicional. A não ser que ache – e acharia bem, mesmo muito bem – que não sou de direita e, por conseguinte, não caibo no rol dos ali visados. Mas como a noção de direita que, de uns anos a esta parte, Pacheco Pereira tem usado é de tal modo abrangente que parece abarcar todo e qualquer cidadão que esteja à direita do PS, fico na dúvida se não estarei efectivamente ali incluído.

Não hesito em dizer que, apesar de dele discordar muito frequentemente, e às vezes, como será aqui o caso, radicalmente, José Pacheco Pereira é decerto um dos cronistas do espaço público português com que mais aprendo e que mais me estimula a pensar. 

2. Não pode, porém, em caso algum, aceitar-se a tese desse seu último artigo sobre o ascenso do “trumpismo” nacional. Nele vem sustentar que a direita portuguesa – que, mais uma vez, presumo, salvo correcção futura, será composta pelas pessoas que navegam na área do PSD e CDS – se revê em muitas das causas de Trump, partilha com ele os inimigos e vai acabar encostada a Trump nessa luta contra esses inimigos.

3. Antes do mais, embora Trump seja um político autoritário e populista de direita, há muitas áreas em que, fazendo jus a que a distinção direita/esquerda carece de revisão, ele não parece ser de direita. E porquê? Porque o que verdadeiramente identifica Trump é o seu perfil autoritário, iliberal e populista e não já a sua marca de direita ou de esquerda. Efectivamente, políticos autoritários, iliberais e populistas tanto podem ser de esquerda como de direita e o que os une é mais do que o que os separa dos políticos democratas e liberais de centro, de esquerda ou de direita. Na Europa, e falando de forças políticas no Governo, temos democratas iliberais de direita na Hungria e na Polónia e de esquerda na Eslováquia e na Roménia (para não falar do Presidente checo).

4. Pacheco Pereira acaba por o reconhecer quando, como se isso fosse um simples pormenor, excepciona das simpatias da tal direita três traços da política “trumpista”: “isolacionismo”, “proteccionismo” e “fidelidade à NATO”. Pois bem, se alguém acha que isto são traços menores do programa de Trump, estamos conversados. Nestes três traços está o coração da política externa e interna de Trump. Aliás, vale a pena perguntar: quem em Portugal defende a saída da NATO? O Bloco e o PCP, esquerda portanto e logo a mais extrema e radical. Quem, entre nós, defende o proteccionismo e está sistematicamente contra os acordos de comércio livre?  O PCP e o Bloco. Quem advoga por aqui a saída da União Europeia e do euro? O PCP e o Bloco. Ou seja, em três matrizes fundamentais do projecto de Trump, o PCP e o Bloco estão muito mais próximos dele do que qualquer outro partido português, aí incluída a alegada direita. O que não espanta nem surpreende ninguém. O PCP e o Bloco são forças populistas, pouco conhecidas pelo seu amor aos princípios da democracia ocidental. Leia-se o programa de Marine Le Pen, aliada e admiradora de Trump, anunciado este fim de semana, e veja-se – tirando a não negligenciável política de imigração – quantos pontos tem em comum com as teses sufragadas pelo PCP.

5. Na questão dos costumes, não haja ilusões: Trump, casado três vezes e proveniente dos meios liberais nova-iorquinos, nem sequer é um conservador convicto. Mais: nas primárias, varreu pura e simplesmente o Tea Party e a agenda evangélica fundamentalista. Agora, por razões tácticas de convivência com a sua maioria no Congresso, vai com toda a certeza ceder a essa linha. Mas a verdade é que ganhou abstraindo dela. E sejamos razoáveis, a nossa suposta direita, em matéria de agenda de costumes, é plural e tolerante, nada tendo a ver com o fundamentalismo evangélico ou puritanismo protestante.

6. E quanto ao estilo – factor decisivo na identificação da tendência autoritária de Trump e mais do que comprovado na relação com a liberdade de expressão e com a independência dos tribunais –, não vejo o que tem a dita direita a ver com Trump. Aliás, o PSD é muito mais aberto e tolerante com os seus críticos – mesmo os mais duros – do que o PS, como se viu no recente episódio de Francisco Assis. Isto para não lembrar os infaustos tempos de Sócrates, que, ainda na semana passada, recusou resposta a um jornalista. De resto, quando temos um primeiro-ministro que, em pleno debate quinzenal, diz que “o maior partido português é um partido irrelevante e que não conta para nada”, esta frase está bem mais perto de Trump do que qualquer uma que tenhamos ouvido ao líder da oposição. É tão ao estilo “trumpista” que poderia mesmo figurar num dos seus emblemáticos tweets

7. Pacheco Pereira está a ver mal. Mas à sua tese pode sempre replicar-se com uma outra, de idêntico calibre, já que quer pôr as coisas no plano da política doméstica. Afinal quem é capaz de estar a precisar de um “inimigo comum” como o pão para a boca é o tripé que segura a geringonça. É visível que já se esgotaram as metas programáticas e as fragilidades vêm cada vez mais à tona. O único cimento que a mantém unida é justamente o tal factor de agregação que apelida de inimigo comum e que, no caso, vem a ser o arco PSD-CDS. Ora, tentar identificar o “arco de direita” PSD-CDS com o “trumpismo” é uma maneira engenhosa de tentar unir as hostes e alimentar um inimigo comum. E de assim arranjar um argumento de último recurso, para salvar a frustre argamassa da geringonça: o PSD e o CDS seriam os aliados úteis e idiotas do “trumpismo”. Este argumento é tão inverosímil que de uma coisa estou certo: não fará curso.

SIM e NÃO

SIM. Isabel II. A celebração de 65 anos de reinado é um feito histórico. A chefe de Estado britânica, nas mais diversas conjunturas, não falhou nunca no seu papel constitucional e tem sido um fortíssimo factor de unidade e identidade.  

NÃO. Boicote ao inquérito da Caixa. Depois do desrespeito por uma decisão judicial, acresce agora a obstrucção ao inquérito feita por PS, BE e PCP. Afinal de que é que se tem medo?