Entrevista

“Ninguém consegue controlar o que se passa no deserto do Sara”

O Representante da União Europeia para o Sahel está neste momento em Bamako a ajudar os países a montarem um exército comum. “O Sahel é o ponto de encontro de duas placas tectónicas – a qualquer momento pode explodir”, diz o embaxador Ángel Losada.

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A maior surpresa? "O processo de paz no Mali e a reacção dos diferentes movimentos, que lutavam uns contra os outros e que agora estão sentados à mesma mesa" Reuters

O Sahel não está no nosso radar e até a palavra é desconhecida nas elites europeias.
O Sahel é a três horas de Roma, de Alicante, de qualquer lugar. O Sahel está mesmo aqui ao lado e com a crise líbia tudo se complicou muitíssimo. Se não prestarmos atenção ao que está a acontecer no Sahel, vamos ter um problema muito maior no futuro.

O ministro do Interior do Níger disse-me que há uns anos, o deserto do Sara era para eles um tampão de segurança, tudo parava quando chegava ao Sara; mas que hoje, como é impossível controlar as fronteiras com a crise líbia, o Sara tornou-se um problema real. Ninguém consegue controlar o que se passa no deserto. Todo o tipo de traficantes e criminosos se esconde lá. Estamos a falar de países com áreas imensas, como o Níger ou o Mali. A França cabe no Norte do Mali. É por isso que a União Europeia está a ajudar estes países nas suas estruturas de segurança.

Porquê vir a Lisboa fazer um seminário com os embaixadores europeus sobre o Sahel? Os europeus estão a subestimar a região?
Não acho que se esteja a subestimar. Mas as populações do Sahel estão a aumentar muito. Em alguns países vão duplicar em 18 anos e no Níger a média de filhos é de sete crianças por mulher – a média! Se não os ajudarmos a absorver a sua própria população, em 20 ou 40 anos o Sahel vai ter um problema ainda mais sério. E o problema do Sahel é o nosso problema. O seminário de Lisboa é o terceiro do género. Fizemos em Madrid e em Berlim. Servem para afinar a estratégia neste novo contexto do G5.

Os seus colegas europeus não lhe dizem que estão demasiado ocupados para falar sobre o Sahel porque Donald Trump está a desfazer a ordem internacional e o Reino Unido está a sair da União Europeia?
Não, isso não me acontece. Eu respondo a uma necessidade identificada pela União Europeia e o meu mandato acaba de ser renovado. Nenhum país pode enfrentar sozinho estes problemas. Se nos juntarmos, podemos pelo menos fazer parte do que se está a passar na região.

Mas disse que a sua primeira preocupação é “colocar o Sahel no topo das agendas internacionais”…
Sim, mas a um nível mais alargado, aos países de Leste e ao centro da Europa. O objectivo da reunião de Lisboa não é chamar a atenção para o Sahel. Isso já existe. O objectivo é estruturar e articular a resposta ao problemas e ajudar-me a fazer o meu trabalho como representante europeu.

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O que mais o surpreendeu neste primeiro ano a trabalhar no Sahel?
O processo de paz no Mali e a reacção dos diferentes movimentos, que lutavam uns contra os outros e que agora estão sentados à mesma mesa. É o nosso maior desafio. Como surpresa positiva, foi a vontade política dos chefes de Estado do G5 para trabalharem juntos. Eles também já perceberam que sozinhos não resolvem nada. Gestão de fronteiras, luta contra traficantes e contra o crime organizado, que está a gangrenar, literalmente, o poder do Estado.

Esses são problemas de muitos países africanos. O que tem o Sahel de particular?
O Sahel tem características muito próprias. É o fim de uma parte de África e é o princípio de outra parte de África. E há dicotomias importantes. Árabes e tuaregues versus negros, que lutam há séculos; Norte versus Sul; Leste versus Oeste; agricultores versus pastores; terras onde há água versus terras secas; centro versus rural. Lutam pela água ou lutam porque um animal comeu a produção e o agricultor matou o animal do pastor e a seguir há uma vingança. O Sahel é um lugar onde estão concentradas as maiores crises do mundo. É uma cintura de 5700 quilómetros de comprimento, que vai do Atlântico ao Mar Vermelho, e mil quilómetros de largura. A palavra Sahel vem do árabe e significa “fronteira”. É um lugar onde duas culturas embatem há séculos. São um pouco Magreb e um pouco África negra. São como o ponto de encontro de duas placas tectónicas. Só isso seria relevante em qualquer lugar do mundo. Mas quando vemos que esta junção de placas é ali, com uma população a crescer a enorme velocidade, percebe-se porque é que a qualquer momento pode explodir.