Rimbaud foi primeiro um “autor” de BD e só depois poeta

A Sotheby’s vai leiloar na quarta-feira em Paris sete desenhos do autor de Iluminações.

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Rimbaud fotografado por Etienne Carjat DR
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Folha com cinco desenhos do poeta (no verso estão mais dois): inclui L'Agriculture, Le Siège e La Messe Sotheby's

Jovem rebelde com uns olhos azuis inconfundíveis, poeta de espírito livre, indomável, que teve uma vida de excessos e aventuras e que deixou de escrever quando pouco passava dos 20 anos, Arthur Rimbaud (1854-1891) tem sido – e continua a ser - uma referência para gerações e gerações de autores e artistas. É natural, por isso, que seja notícia sempre que alguns dos seus manuscritos aparecem no mercado. É o caso.

A leiloeira Sotheby’s vai levar à praça esta quarta-feira em Paris uma série de lotes relacionados com o autor de Iluminações, o homem que escreveu o essencial da sua obra entre os 16 e os 19 anos e que planeou enriquecer através de outras actividades para que lhe fosse possível dedicar-se só à poesia, mas com algum conforto (morreu aos 37 sem nunca concretizar este projecto). Entre eles estão sete desenhos que podemos descrever como uma BD doméstica e que são os primeiros de sua autoria que se conhecem. Rimbaud teria dez anos e meio quando os fez.

Os especialistas da Sotheby’s estão confiantes em relação a este leilão, embora em Dezembro último outros desenhos do poeta, feitos na adolescência, tenham ficado por arrematar numa venda realizada em Brest. “Estes desenhos são excepcionais”, dizem Frédérique Parent e Benoît Puttemans, citados pela agência de notícias France Presse (AFP). “Ainda nas mãos de privados [pertenceram ao perfumista e bibliófilo Jacques Guérin], são o reflexo do universo de um jovem poeta já crítico em relação ao mundo que o rodeia.”

Neles, segundo o catálogo que acompanha o leilão, há o habitual jogo infantil de imitação da vida dos adultos, corridas de trenó, jardinagem… “Um olhar já de grande maturidade, por vezes inquieto, com uma paródia à religião, um afogamento, uma revolta civil”, um olhar que parece encerrar uma reflexão sobre a infância, algo incrivelmente precoce para quem ainda não passara dos dez anos.

No quadradinho "La messe" (a missa), por exemplo, o poeta representa o baptismo de uma boneca e nisso há quem veja, escreve a AFP, “o embrião do anticlericalismo de Rimbaud que se encontra em Un coeur sous une soutane, de 1869, e mais tarde em Les Premières Communions”.

Nos desenhos que serão leiloados na quarta-feira, Arthur Rimbaud representa o ambiente familiar da sua infância e num deles, em que escreveu a legenda “L’agriculture”, é bem provável que se encontre o seu primeiro auto-retrato, ao lado do irmão Frédéric e das duas irmãs, Vitalie, a mais nova, e Isabelle, a mais velha. Noutro, “Le Siège” (o cerco), quatro personagens (serão de novo os quatro irmãos Rimbaud?) à janela parecem lançar objectos (batatas?) sobre a multidão na rua, composta por várias figuras de casaca, possivelmente a evocar a burguesia, sendo que uma delas, de cartola, levanta o braço para dizer qualquer coisa como “É preciso fazer queixa disto”.

Os sete quadradinhos, cujo título é muito provavelmente Les plaisirs du jeune âge (1965), foram executados num caderno de esboços do poeta a que já restam poucas folhas (oito, se quisermos ser exactos). São feitos a lápis, cinco na parte da frente de uma das folhas e dois no seu verso, com a assinatura A. Rimbaud no canto inferior direito.

Um poema para Verlaine

No entanto, esta banda desenhada, por mais curiosa e singular que seja, não é o lote de Rimbaud mais importante do leilão, esclarece à AFP uma fonte da Sotheby’s – a leileoeira espera vender “o único manuscrito autógrafo ainda na posse de privados” do poema La rivière de Cassis (1872), oferecido pelo autor ao seu amante, o poeta Paul Verlaine, um ano antes da sua conturbada separação, por um valor entre os 200 e os 300 mil euros.  

Rimbaud e Verlaine viveram durante dois anos um romance tempestuoso, cheio de escândalos e excessos, sobretudo de absinto e drogas, quando o primeiro era ainda adolescente e o segundo era já casado e pai (foi aliás Verlaine, o poeta de Sageza, quem chegou a disparar sobre o seu jovem companheiro, usando um revólver que foi vendido no ano passado por quase meio milhão de euros).

A leiloeira levará ainda à praça outros artigos ligados a Arthur Rimbaud, o poeta que foi uma das principais influências dos modernistas e da geração beat e que permanece uma referência incontornável na obra de muitos escritores e artistas contemporâneos, entre eles duas figuras míticas da pop, Bob Dylan e Patti Smith.

Os lotes que envolvem o autor de Iluminações são, por exemplo, um livro que Rimbaud recebeu de presente aos 15 anos por ter boas notas (era um aluno brilhante) e um recibo que serve de testemunho do seu envolvimento no tráfico de armas na Abissínia, actual Etiópia.

Depois de abandonar a escrita, Rimbaud viajou muito – Egipto, Chipre, Indonésia – e dedicou-se a uma série de tarefas que, acreditava ele, poderia vir a dar-lhe a estabilidade financeira de que precisava para continuar a escrever. Acabaria por morrer num hospital de Marselha, em 1891, com um cancro.

Uma parte significativa da sua obra está publicada em português e por dois tradutores singulares: Mário Cesariny (Iluminações – Uma Cerveja no Inferno, Assírio & Alvim) e Maria Gabriela Llansol (O Rapaz Raro, Relógio d’Agua).